“O silêncio, vocês sabem, é algo que não pode ser censurado. E há circunstâncias em que o silêncio se torna subversivo. É por isso que eles o preenchem com ruído todo o tempo.”¹ A frase é do crítico de arte inglês John Berger e está no texto “Será uma Semelhança?”, um dos ensaios que compõem a coletânea Bolsões de Resistência (2001). Com um ar de “koan”, cuja definição dentro do Zen é de uma afirmação paradoxal ou absurda que desafia os limites da lógica e do pensamento linear, a ideia de Berger permite uma leitura política, como se estivesse propondo uma estratégia de protesto contra um regime repressor.
No livro Diário do Fim do Mundo (2023), a escritora russa Natália Kliutcharióva recorre à criação de dísticos semelhantes para se manter sã durante o primeiro ano de conflito entre a Ucrânia e a Rússia – país que, em sua visão, teria sido sequestrado pela narrativa do histórico fascista de Vladimir Putin. Rememorando uma passeata em que os manifestantes marcharam em silêncio, segurando cartazes em branco – o que não os impediu de ser agredidos pela força militar interna do governo –, ela mentaliza: “Nós nos reunimos e calamos./E assim infringimos a lei.”² E depois: “Aqui há dez pacifistas!/ Rápido, envie reforço!”.
É difícil precisar de onde vem o senso de humor de Diário do Fim do Mundo, relato que oferece a perspectiva de uma mulher – mãe, artista, progressista – de eventos cuja problemática, para além da violação dos direitos humanos e do massacre de civis, passa pelo controle da mídia e a desinformação enquanto táticas desmobilizadoras. O fato é que ele está ali. Seja na citação de chistes pinçados das redes – “Vi em algum lugar da internet uma piada: ‘você encontra no bolso uma velha máscara médica e suspira nostalgicamente enquanto ajusta a antigás’” –, nos gansos que gritam “Haia”, como se a demanda pelo julgamento internacional de Putin fosse um chamado da natureza, ou na cena em que Kliutcharióva e sua amiga escrevem “esquilos contra a guerra” na neve, feito quem picha um muro, passando por referências à cultura pop, como ao rapper e ativista Ivan Aleksandrovitch Alekséiev, conhecido profissionalmente como Noize MC, compositor da música “As pessoas com metralhadoras querem o bem”, o riso é uma tática de sobrevivência em meio ao horror que se infiltra sob a aparente normalidade dos dias.
Não significa, contudo, que o horror seja suprimido – pelo contrário. Por meio de um sistema de tensões, evidenciando o abismo entre uma coisa e outra, o humor realça o desespero e torna as passagens cruéis ainda mais evisceradoras. Basta pensar na sala de aula em que as crianças, quando questionadas sobre que país invadiu a Rússia em 1941, levantam a mão e gritam “A Ucrânia!”, ou na sensação de claustrofobia instaurada pelo isolamento arquitetado por Putin ao limitar o acesso da população aos meios digitais de comunicação. O vai-vem de humores que define a atmosfera do livro parece refletir seu processo: Diário do Fim do Mundo foi escrito, como se diz, no calor dos acontecimentos, e encarna a confusão em que os civis se encontravam, presos a meio caminho entre a culpa e a ignorância. Formado por recortes de notícias, poemas esparsos, descrições de diálogos e cenas extraídas de filmes ou peças de teatro, é a projeção de um estado de espírito que não se limita à situação eslava. Para falar a verdade, é tudo bastante familiar. A síntese da estrutura da obra está em um dos poemas apresentados, em que Kliutcharióva parece otimista ao escrever “Algum dia isso vai acabar”, para logo inverter a chave, nos derrubando de volta à realidade: “O ar no traje espacial vai acabar.”
Temerosa de sua própria covardia, a escritora reforça que o herói de sua história não é quem escreve – ou “toma notas”, como ela diz –, e sim quem se coloca em ação. No geral, conforme o livro mostra, são mulheres, ou mesmo adolescentes que, juntas, se apresentam em uma manifestação contra a guerra. E juntas são levadas pelos militares. Em uma das primeiras entradas do Diário, Kliutcharióva anota: “Hoje de manhã, pela primeira vez vi um panfleto antiguerra. Por pouco não beijei o poste. Nesta cidade há mais alguém vivo.” Esse anonimato épico faz recordar o “saber sem poder” dos pastores indagados por Édipo na tragédia de Sófocles. Elementares na construção de uma filosofia penal, tais figuras fizeram com que Michel Foucault afirmasse que o mito representa um momento chave na história do sistema judicial grego. Tratava-se, é claro, de uma crítica à psicanálise e ao seu Complexo de Édipo como drama burguês.
A menção à tragédia sofocliana é do livro Oração: Carta a Vicki e Outras Elegias Políticas (2018), da jornalista e escritora argentina María Moreno. Análise do par de cartas escritas por Rodolfo Walsh após a morte de sua filha – codinome “Vicki” – pelas mãos do terrorismo de Estado praticado pelo general Jorge Rafael Videla, a obra se aproxima do registro de Kliutcharióva não apenas por invocar testemunhas enquanto sujeitos “ameaçados de insignificância”, embora centrais na disseminação de informação sob o jugo da censura e da perseguição, “que, espontaneamente, por meio de uma mensagem escrita num guardanapo de papel, no boca a boca ou, mais raramente, numa entrevista pessoal, faziam suas denúncias.”³. Também não caberia dizer que a maior relação de Oração com o Diário está na valorização do papel das mulheres, sobretudo das mulheres jovens – membro dos montoneros, Vicki Walsh tinha 26 anos quando, segundo testemunhas, disparou contra a própria boca durante um cerco militar ao redor da casa em que estava abrigada na calle Corro, em Buenos Aires –, na revolução.
Talvez o que mais aproxime os dois livros seja sua diferença: Kliutcharióva escreve sobre a experiência à medida em que a vive, ao passo que Moreno, apesar do entendimento das causas e efeitos daquilo que escreve, relata situações em que esteve ausente. Em seu caso, é daí, dessa distância, que nasce o humor, mas de um tipo diferente do que encontramos no livro russo. Ao longo de Oração, o humor não balanceia ou contrapõe. Feito o bisturi, ele persegue a exatidão: em meio a apagamento, desinformação, censura e medo, faz emergir a crueza do relato. E essa revelação, na falta de uma reação melhor, nos faz rir. Rir de perplexidade.
Fundadora da Alfonsina (1984), a primeira revista feminista do retorno à democracia após o Processo de Reorganização Nacional, María Moreno é figura celebrada na literatura argentina contemporânea, com toda uma vida dedicada a estabelecer relações entre crítica literária e políticas de gênero. De complexa estatura intelectual, é capaz de afirmar, em um mesmo livro, tanto que “[Eu] não era individualista; cultivava o grotesco de uma rebelião sem camaradas”, quanto que “A revolução será queer, pop, psicodélica, ou não será.” A profundidade de suas análises a salva da contradição. De verve investigativa, se importa menos com a ideologia do que com a apuração. Assim, expõe de uma só vez o horror da tortura, a veiculação das imagens dessa tortura e o prazer consumista da história desse horror: “O início da democracia multiplicou as vendas das revistas em que os sobreviventes eram chamados a testemunhar relatando seus suplícios, depois editados com os recursos da imprensa sensacionalista que transformava a tortura em pornografia.” Não faltam críticas à estupidez dos militares, à violência da perseguição e ao crime da ditadura, como também não faltam à misoginia do Exército Revolucionário do Povo e aos valores marcadamente machistas, homofóbicos e conservadores dos líderes dos movimentos de esquerda. “Em 2002”, escreve ela no início de Oração, “ganhei a bolsa Guggenheim para escrever sobre a moral sexual nas organizações revolucionárias argentinas dos anos 1970. Não escrevi aquele livro: escrevi este aqui.”
FILHAS COM PONTINHOS
H.I.J.O.S é um acrônimo de Hijos y Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio, organização argentina fundada em 1995 por filhas e filhos de desaparecidos com o objetivo de lutar pelo julgamento e condenação dos genocidas da ditadura e preservar a memória histórica das vítimas do terrorismo de Estado. E é a eles – ou, melhor, a elas, já que Moreno opta por conjugar H.I.J.A.S para romper o monopólio masculino – que são dedicadas algumas das mais belas páginas de Oração, em que são analisadas obras de artistas contemporâneas filhas de desaparecidos políticos. No subcapítulo “O legado do desejo”, referindo-se à mercantilização dos traumas da América Latina do século vinte, a autora define tais artistas como figuras que romperam com o “supermercado da memória”, conservando “o talismã experimental e a altivez humorística diante do imperativo social de sempre cultivar apenas o gênero tragédia em chave realista.” Aqui, o experimentalismo e o senso de humor inerente à arte contemporânea atuam como ferramentas emancipatórias. Não se trata de mães ou avós na Plaza de Mayo simplesmente. É, segundo ela, “uma produção mais de ovelhas negras que de mulheres de luto.” A partir daí, são desfiadas referências da atual produção argentina de filmes, performances, peças de teatro, livros e instalações que se afastam da representação da realidade conforme elaborada nos centros de poder – e aqui caberia invocar as narrativas épicas do didatismo da dor que se espraia de livros de história a produções cinematográficas de alto orçamento –, e se aproximam da realidade tal como ela é: contraditória, densa, absurda, impenetrável. Impossível.
¹ John Berger, Bolsões de Resistência, trad. Lya Luft. Amadora, Editorial Gustavo Gilli, 2004.
² Natália Kliutcharióva, Diário do Fim do Mundo, trad. Letícia Mei. São Paulo, Kinoruss, 2024.
³ María Moreno, Oração: Carta a Vicki e Outras Elegias Políticas, trad. Sérgio Molina. São Paulo, Editora Mundaréu, 2024.