A Bienal de Veneza é o evento de arte mais antigo e icônico do mundo, onde tendências estéticas, culturais e de mercado se afirmam no mainstream, refletindo o estado crítico das coisas. Há um mês, inaugurou a 61ª edição da grande mostra In Minor Keys, com curadoria da camaronesa-suíça Koyo Kouoh (1967-2025). Participam 110 artistas, a maioria com visualidades, ensinamentos e discursos não-hegemônicos. A inauguração, que é acompanhada de exposições em pavilhões nacionais e eventos paralelos, além de concorridas festas, brunchs e networkings, foi turbulenta, cheia de contrastes e fatos extraordinários.
O primeiro deles foi o falecimento de Koyo Kouoh, um ano antes. Surpreendida por um câncer, ela trabalhou até o último momento com os co-curadores Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mitter e Rory Tsapayi. Para além da comoção em torno à sua realização, In Minor Keys reflete o pensamento e prática de Kouoh, um dos grandes nomes da cena curatorial afro-europeia. A exposição, em tons baixos, é sensível e densa, poética, espectral e não convencional. Porém, as reflexões propostas pela curadoria foram abafadas pelo ruído em torno a manifestações ativistas contra políticas de guerras, extermínios e censuras, que afetam o mundo e se espelham no molde e estrutura da Biennale. Sem haver uma autoridade curatorial para gerenciar a crise institucional deflagrada, o que se viu foi menos a discussão sobre a exposição e os artistas convidados, e mais sobre boicotes, resignações, cartas abertas e abaixo-assinados.

Um dos movimentos que contribuiu para tal situação, foi a renúncia da comissão de premiação de artistas, antes da abertura. Presidido pela curadora brasileira Solange Farkas, com Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi, tratou-se de um corajoso ato em resposta a pressões sofridas pela decisão inicial do comitê de não nominar artistas de países acusados de crimes humanitários, neste caso Israel e Rússia.
Mas, afinal, essa estratégia acabou por fragilizar a reflexão em torno da exposição geral e dos artistas menos conhecidos no mundo ocidental, que se apresentam aqui com trabalhos fascinantes. In Minor Keys tem atmosfera de penumbra, com paredes em azul escuro numa expografia soturna. Evoca recolhimento, poesia, estados anímicos, espectros, luz na sombra. Espíritos da natureza e o supra-humano estão em obras como O Conselho dos Espíritos Mães dos Animais, da artista, ativista e xamã peruana Célia Vasquez Yui, ou no trabalho olfativo do belga Carsten Höller, que vaporiza no ambiente o odor extraído quimicamente de roupas usadas dos pais, dando uma desagradável sensação de corpos ausentes. Dan Lie, artista de origem indonésia, apresenta arranjos de flores monumentais, aludindo a ciclos de exuberância visual, gradual deformação e putrefação da matéria que explode em vida de microorganismos, fungos e larvas. Ayrson Heráclito, em instalação com desenhos e esculturas metálicas que apresentam a conceituação formal de orixás, chama para uma cosmopercepção afro-brasileira, enquanto retratos de Eustáquio Neves dão a dimensão da atmosfera de memória, fantasmagoria e futuros ancestrais visados pela curadoria.

Mas, na semana de abertura, a sutileza dos tons baixos foi suplantada por protestos contra os pavilhões de Israel e Rússia, a hostilização à presença dos Estados Unidos, o apoio ao Iran – que se retirou da Biennale, e pela solidariedade à Ucrânia. No pavilhão do Cazaquistão, a instalação Machine (2013), do artista Asel Kadyrhanova foi desmontada e tirada horas antes da inauguração, por ordem de autoridades do país, por discutir a repressão política na era de Stálin.
Já a artista Gabrielle Goliath trouxe uma contra-resposta ao cancelamento de sua ocupação do pavilhão da África do Sul, pelo seu Ministro da Cultura, em janeiro. Com apoio do London Arts Centre Ibraaz, montou a vídeo-instalação Elegy (2015-25) na Chiesa di Sant’Antonin. A obra enluta mulheres mortas por violência sexual ou racial e foi concebida após o assassinato da estudante Ipeleng Christine Moholane. A versão em Veneza também homenageia duas mulheres Nama, do sudoeste da África, deslocadas e mortas pelas forças coloniais alemãs no início do século 20, e a poeta palestina Hiba Abu Nada, vítima aos 32 anos de um ataque aéreo israelense em Khan Younis, Gaza, em 2023.
No último dia da abertura para convidados, uma greve histórica de trabalhadores culturais fechou pavilhões da Biennale e tomou ruas contra estados colonialistas, a precariedade nas artes, genocídios, extrativismos, os super-ricos e o patriarcado. No dia seguinte, em mais uma animada soirée VIP, surgiu Björk vestida de urso mágico da Mongólia, atacando de DJ. E assim, se encerrou a maratona de jantares, aperóis, spaghettis e celeumas que cercaram o começo da 61ª Biennale de Veneza. Após a ressaca, In Minor Keys continuará até novembro, como um navio de comandante ausente, navegando em brumas de perplexidade e desconfiança quanto à sustentabilidade do modelo da mostra, e do próprio sistema da arte global.