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Detalhes de cadernos de Leonilson [Fotos de Edouard Fraipont / Divulgação]
Postado em 23/02/2026 - 10:24
A arte como gesto amoroso, segundo Leonilson
Transcrição de review em áudio do livro Diários de uma Voz

[Começo da gravação] Estou na praia olhando para as ondas e lendo uns cadernos do livro Leonilson, Diários de uma Voz. Um diário em áudio. As gravações transcritas em cadernos. Cadernos de um diário jamais escrito. Esse livro mostra um Leonilson já conhecido do público das artes, porque aquela experiência sensível dos amores, dos medos, aquela que a gente vê plasmada nos trabalhos do artista, é muito semelhante a essa que se lê nas palavras dele. 

Ele se mostra alguém que pensa muito no amor, vive dizendo que quer um namorado, que quer alguém pra ficar perto e pra ganhar carinho, fazer carinho. Ele parece bem solitário. Esses diários que ele gravou em fitas microcassete são escritos / falados do começo de 1990 até meados de 92. O organizador, João Carrascoza, não optou por um texto corrido, um texto único, uma narrativa linear, enfim, ou pelo menos cronológica, no caso dos diários em fitas. Ele optou por uma edição em cadernos que ele dedica a assuntos diferentes e aí ele vai recortando dos trechos selecionados passagens em que Leonilson fala, por exemplo, do circuito da arte, dos amores, das viagens. Ele viaja bastante nesse período de 90 a 91. Também acontece de ele gravar muito nas viagens. 

Como qualquer um que faz caderninhos de viagem, anotando as coisas, para se lembrar da experiência da viagem, e escreve menos quando está na própria cidade, quando está em casa. Talvez isso constitua a prática da maioria dos escritores de diário. Fato é que, independente de porque Leonilson escolheu gravar mais nas viagens, talvez na viagem sinta-se mais plenamente presente na própria vida, porque a viagem é A busca, ela é sinônimo de uma busca. E o Leonilson, pelo relato que a gente escuta lendo o livro, é alguém que está sempre buscando. Assim como ele busca um namorado, assim como ele busca o amor, também busca conhecer o desconhecido da vida, do mundo. Está sempre atrás de alguma coisa, de algo novo. 

Em suas viagens, ele vai muito a exposições, que ele relata nos áudios. Ele fala que foi à Serpentine Gallery ou ao Whitney Museum. Aliás, nessa passagem sobre a ida ao Whitney, ele conta de um trabalho que era uma cadeira com um áudio e que, segundo ele, representava a cadeira de uma pessoa condenada à morte nos Estados Unidos e o áudio era um som que a família tinha gravado pra ele ouvir antes da morte. E o Leonilson comenta que esse trabalho, numa outra ocasião, ele chegou a registrar numa das fitas. Fui buscar na internet, imaginei que era um trabalho da coleção do Whitney, já que ele relata ter visto uma outra vez, ter gravado. Procurei de todas as maneiras e não consegui descobrir que obra é essa, qual o nome dela, quem é o artista. Pelas palavras-chave aparece muito o trabalho do Andy Warhol, das cadeiras em que se executam os condenados com uma injeção letal. O Warhol tem aquela série de serigrafias, então é difícil encontrar outra coisa que não seja isso, ou obras de artistas bem contemporâneos que discutam de algum jeito isso também. 

De modo que, sim, ele vai muito às exposições e comenta também sobre as exposições. E em algum momento ele fala, não lembro quem ele encontra em uma das viagens, de uma conversa sobre arte moderna e arte contemporânea. Ele relata ter tido essa conversa e, em seguida, fala… Está passando aqui um vendedor de milho cozido. Estou em Ubatuba, na Praia Grande. Pro lado das praias do norte, lá pro lado da Itamumbuca, o céu estava cinza. E desse lado estava tudo azul. Então… Ah, esqueci o que eu estava falando. Isso que acontece quando se escreve uma resenha em áudio na praia. Estou bem na frente de um trecho de praia que tá interditado, com uma placa de perigo, que é maravilhoso, porque estou olhando pro mar e não tem ninguém. Exatamente a mesma paisagem que eu vi ontem em Itamambuca, debaixo de chuva. A praia só pra mim e o mar vazio de gente. Logo adiante da faixa de perigo já tem muita gente no mar. Então os apitos que vocês ouvem são apitos do salva-vidas que estão posicionados em cada esquina desse pedaço que está perigoso. 

E aí ele comenta que mesmo em relação à arte, ele não se interessa em ver arte clássica. O que ele tem tesão é ver as coisas de agora. Ele está sempre em busca. Em um dos caderninhos, que trata mais de arte – porque o organizador fez uns recortes temáticos, mas claro que um assunto está enroscado no outro, até porque não tem essa divisão nas gravações. As gravações são cronológicas e todos os assuntos estão misturados. O que faz questionar por que o organizador separou, como se fossem separados e estanques. Estão muito longe de ser, sobretudo na obra de um artista como Leonilson – esse é engraçado, porque ele conta… Obrigada, moço. Obrigada, não quero, não. Tem um rapaz me oferecendo vendendo uma rede… Ah, é? Só um segundo.

Adivinha se eu comprei a rede do rapaz? Logicamente. Ele insistiu muito, ele foi muito gentil. E era devoto de Nossa Senhora de Aparecida. Ele queria 70 reais pela rede, mas na conversa acabemos fechando em 50. Depois de muita negociação. Cinquenta era tudo que eu tinha na minha carteira. Voltando ao nosso Leonilson. Estou falando “nosso” porque… é engraçado isso: lendo diários, os diários dos escritores, dos grandes escritores ou quaisquer que sejam, eles nos aproximam do personagem. Claro que mesmo um diário íntimo é uma construção, é uma versão de si que ele apresenta. Não dá para imaginar que, em 1990, uma pessoa muito consciente como esse artista, que vive em São Paulo, que é muito viajado, que tem muito repertório, uma formação muito sólida, enfim. É ingenuidade pensar que ele poderia usar o gravador pra registrar uma coisa só pra si, sem passar pela cabeça que se tornaria público, de alguma maneira.

O diário torna público alguma coisa que era privada, que era dele, que era particular. Inclusive porque, ainda que ele se mostre inseguro, que fale de seus medos, ele também demonstra uma grande segurança em relação ao trabalho dele. Ele sabe que ele vai ser um artista histórico um dia. Ele intui que vai entrar para a história. Ele sabe que o trabalho dele é bom. Ele sabe o quanto vale. Quando ele está viajando, mais de uma vez vende um trabalho para continuar viajando. Leonilson diz que todo o dinheiro que ele ganhou na vida gastou nas viagens. Viajar para ele é o objetivo da vida. É a razão porque se ganha dinheiro, é a razão por que se busca uma possibilidade de trabalho que gere uma renda, é pra isso que ele trabalha. Ou, é isso que ele faz com o dinheiro, porque trabalhar tem outro motivo. 

Ele trabalha porque precisa dedicar os trabalhos. Ele está sempre apaixonado e as obras todas que ele faz são sempre dedicadas para as pessoas por quem ele se apaixona e pelas quais ele segue apaixonado. Mesmo quando se apaixona por outra, ele vai listando. Nesse período, pelo menos, ele tem três amores declarados. O Al, que lendo o diário a gente sabe melhor quem é, pelo menos desconfia, enfim, os entendidos entenderão. Os amores dele nessa época são o Al, o Ethan e o Frank. Então ele tá sempre falando nos três, dedicando trabalhos para eles, mas aí todo e qualquer paixonite move o Leonilson a fazer novos trabalhos, a desenhar, a pintar, e todo o trabalho é dedicado a um desses amores. Ele se apaixona até por atores de novela, como o tal do Beija Flor. Ele se apaixona por uma pessoa que vê passando na rua, com quem troca olhares. E essas paixões dão a ele a vontade de fazer um trabalho. Por isso o trabalho dele fala sempre de amor. Porque ele é um gesto amoroso. 

Eu falava da dimensão pública dos diários. Nesse aspecto a organização é muito boa. Não conheço a íntegra dos diários, então só posso intuir, mas o organizador parece privilegiar formas de dizer, construções de frases, pensamentos particularmente literários, que estabelecem um diálogo com a literatura. E nisso a organização é muito feliz, porque conforme a gente lê, mais do que fragmentos de diário, a gente vai lendo uma narrativa ficcional, conhecendo uma história. E Leonilson fala muito da vontade de escrever um livro nos textos do diário, ou da transcrição. Ele fala… Agora passou um vendedor com caixa de som. Fala da vontade de escrever um livro e diz que já tem até um nome para o livro. Quer dizer, ele fala que as fitas são também uma forma de preparar esse livro que ele quer escrever. Em relação a escrever um livro, ele se mostra muito inseguro, ele tem medo, diz que não sabe escolher as palavras, que não sabe montar as frases, apesar de ele demonstrar que escolhe muito bem as palavras e monta muito bem as frases, enfim. Ele diz no momento que esse livro que ele quer escrever, ele já escolheu o título do livro, que seria Frescoelisses. Frescoe de afresco e Ulisses de Ulisses. Rará. E aí ele explica que esse frescoe não tem um sentido de frescura, não é um Ulisses fresco. Na verdade a viagem, Ulisses também é essa metáfora de uma viagem sem fim. E o frescoe, a frescura, tem a ver com o frescor dos lugares. Quer dizer, o que move o viajante, esse viajante, o Ulisses de Leonilson, é o frescor, o frescor do lugar. Ele busca um lugar pra sentir esse frescor, sentir o novo, procurar o novo e daqui a pouco ele já precisa ir pra outro lugar. 

Agora passou um homem vendendo espetinho e ficou um rastro de cheiro de carne. As nuvens cinzas estão chegando aqui e continuam indo no sentido da Itamambuca. Ou seja, agora vai chover na cidade inteira de Ubatuba. Eu acho que vou embora e termino com esse dado do nome Frescoelisses, que não é o nome que foi dado a essa versão do diário. Torcemos para um dia, em breve, a gente poder ler Frescoelisses, os diários na íntegra. É isso, essa foi a minha resenha do livro do Leonilson para a revista celeste. [Fim da gravação]

Capa do livro-caixa de fita K7 Diários de uma Voz, de Leonilson [Foto: Divulgação]
AH, ESQUECI O QUE EU ESTAVA FALANDO. ISSO QUE ACONTECE QUANDO SE ESCREVE UMA RESENHA EM ÁUDIO NA PRAIA
CLARO QUE MESMO UM DIÁRIO ÍNTIMO É UMA CONSTRUÇÃO, É UMA VERSÃO DE SI QUE ELE APRESENTA. NÃO DÁ PARA IMAGINAR QUE, EM 1990, UMA PESSOA MUITO CONSCIENTE COMO ESSE ARTISTA, PODERIA USAR O GRAVADOR PRA REGISTRAR UMA COISA SÓ PRA SI, SEM PASSAR PELA CABEÇA QUE SE TORNARIA PÚBLICO, DE ALGUMA MANEIRA

Serviço: venda pelo site do Projeto Leonilson

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