O livro Imagem-Acontecimento (2023), de Sergio Lima, tem várias portas de entrada. A imagem da obra Nymphas da Louca (1965) é apenas uma delas. Nesta collage há ao menos quatro camadas de imagens sobrepostas, uma paisagem urbana encimada por uma arquitetura gótica, o retrato de corpo inteiro de uma mulher, a forma recortada de uma mariposa gigante (proporcionalmente à figura da mulher) e uma forma abstrata, ao fundo, do lado direito, que sugere a repetição da padronagem das asas da mariposa. Caso se entenda que a referida mulher está vestindo uma roupa de mariposa invertida, seus braços precisariam estar estendidos lateralmente para que a forma do vestido se parecesse realmente com as asas do inseto. Mas, para além da tentativa de decifrar o que nessa imagem-síntese poderia estar acontecendo no sentido de “realidade da imagem”, ou lastro realista, existe todo um universo de códigos do que acontece sobre o real, ou seja, do que o artista acrescenta em um nível de mais realidade, ou “excedente de realidade” ao plasmar paisagem gótica, mulher fatal, mariposa e duplo da mariposa na linguagem econômica da abstração. Ninfas e loucura, sugeridas no título, somam-se, na qualidade de codificação, ao vasto cabedal surrealista de Sergio Lima. Para se aventurar nesse mundo, o livro inaugural da parceria entre as editoras Cinemática, da seLecT_ceLesTe, e Afluente é mais do que um guia, é um verdadeiro tesouro.
Conhecido como poeta e principal teórico do surrealismo no Brasil, Lima tem finalmente sua produção como artista visual catalogada e amplificada neste livro, em que cada reprodução de uma de suas obras constitui-se como aventura a ser vivida. Abra o livro aleatoriamente em uma página ilustrada qualquer e, voilà, uma nova aventura descortina-se aos olhos, à intuição, ao deleite.

Imagem-Acontecimento reúne ensaios e entrevista com o artista, imagens de suas obras em desenho, litografia, aguadas automáticas, pintura e collage. Na entrevista, de autoria de Paula Alzugaray, Lima desvenda muitas passagens nebulosas sobre a recepção do movimento surrealista no Brasil, por exemplo, ao detalhar os motivos por que Benjamin Péret foi expulso duas vezes do país. O escritor francês, que no início dos anos 1920 assinava críticas de cinema e ficara especialmente mobilizado por O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein, realizou pesquisas nos arquivos da Marinha brasileira, desvelando em um livro que não chegou a ser publicado a história de João Cândido e da Revolta da Chibata (Rio de Janeiro, 1910). Intitulado O Almirante Negro (1931), o livro trazia duras críticas às punições corporais realizadas pela Marinha e a obra-denúncia foi a razão maior para o decreto de expulsão de Péret. Todos os exemplares de O Almirante Negro foram destruídos pela polícia na gráfica. “Mais recentemente, no espólio de Mário Pedrosa, encontraram três ou quatro folhas do original manuscrito. Essas folhas existem – fazem parte das provas materiais do processo contra Mário Pedrosa, igualmente perseguido depois. Benjamin Péret foi novamente preso, em 1956, pelo mesmo processo de 1931, e agora chamado de ‘o carrasco vermelho de Niterói’”, afirma Sergio Lima.
Completam o livro um texto inédito do próprio Sergio Lima, escrito em 2021, O Nu: Isso Não É um Corpo; ensaios críticos de Juliana Monachesi e Xenia Bergman; e a republicação, 45 anos depois, do artigo de Mario Schenberg que acompanhou a exposição individual de Lima na Galeria Paulo Prado, em São Paulo, uma leitura da pesquisa plástica do artista pelo viés do erotismo e da espacialidade mágica.