Em seu projeto de mestrado, Carmela Gross produziu 33 desenhos de observação retratando o céu de São Paulo. Cada uma das pranchas de Projeto para Construção de um Céu (1981) é acompanhada de uma retícula que esquadrinha o plano, de uma notação técnica que marca escalas e datas, e de fragmentos do mapa celeste do Hemisfério Sul. Há também uma projeção ortogonal que descreve apenas os contornos das nuvens desenhadas com cor no fundo, como um desenho sobre o próprio desenho.

Seus diferentes modos de desenhar evocam artistas canônicos da história: o sfumato de Leonardo da Vinci, as pinceladas espiraladas de William Turner, as nuvens volumosas e serenas de John Constable, as hachuras do desenho japonês, e assim por diante. Feitos com lápis de cor sobre papel Fabriano, esses desenhos têm tons cinza, rosa, brancos, laranja, amarelos, entre outros tantos para além do esperado azul.
Parece impossível definir os limites ou as fronteiras do céu, localizar a última partícula de ar que compõe a atmosfera, ou fixar a incidência de luz sobre o planeta e seus inúmeros efeitos de refração, difração e reflexão na camada gasosa que envolve a Terra. Postas a mutabilidade e a infinitude do tema, representar o céu implica um código que talvez diga mais sobre suas possibilidades e limites do que sobre o objeto ou do que podemos saber sobre ele.
ANYWHERE IS MY LAND
Há milênios e em diferentes culturas, é possível orientarse pelas estrelas, localizando-se a partir das posições relativamente fixas de algumas constelações. Tomar o céu como mapa implica pensar territórios, pertencimentos e, como toda cartografia, uma esquematização de algo maior do que essa representação pode abarcar.

Quando Antonio Dias (1944-2018) intitula suas pinturas pretas polvilhadas de branco de Anywhere Is My Land (1968), o artista mobiliza uma série de relações históricas, geopolíticas, identitárias e cósmicas em uma mesma dinâmica. O rigoroso grid branco aplicado sobre elas contrasta com a aleatoriedade da distribuição dos pontos, e algumas têm uma notação de escala: 1:1. A frase em inglês (qualquer lugar é minha terra) vai bem ao encontro a uma crescente dominação sociocultural estadunidense na época e cria conexões entre o celeste e o terreno. Considerando o discurso nacionalista da ditadura civil-militar vigente no período, a recusa em participar de um território fixo é um chamado à liberdade como condição política. Olho para as estrelas e me localizo: o universo é o meu lugar.
Se o céu pode ser usado como ferramenta de orientação, as formas como o codificamos refletem geopolíticas e suas respectivas epistemologias. Como lidar com aquilo que escapa, não cabe em categorias ou é impreciso? Algo muito caro ao pensamento artístico e seu acolhimento da indeterminação, em especial naquilo em que a ficção pode especular sobre o real.
Laura Andreato cria folders que esquematizam as cores do pôr do sol e coloca espelhos sobre a grama, refletindo o céu azul no tema e nas palavras escritas: Blue Sky, Sky Blue. Planetarium (2010) é um saquinho de veludo preto cheio de glitter prateado; na parte externa há o título estampado. Quando aberto, o trabalho evoca a imagem do espaço povoado de estrelas. O preto pontilhado é a representação mais elementar do cosmo e, nessa associação de escalas e imagens, a artista sugere que podemos guardar o universo inteiro dentro do bolso.
BONITA É A NOITE COM A SUA FUNDURA
Frase repetida em coro pelos integrantes do grupo de estudos Práticas Desobedientes em palestra homônima, na qual conectam os mistérios do céu estrelado aos seus anseios sociais e políticos mais imediatos. Talvez porque o macro e o micro tenham equivalências.
À noite, quando um dos lados da Terra está voltado para o escuro, o Sol não ofusca as outras estrelas e o brilho daquelas mais longínquas chega até nós. Considerando a distância e a velocidade da viagem da luz pelo espaço, boa parte delas provavelmente já está morta, e vemos apenas o índice de algo que já não está lá.

Museu Vale do Rio Doce (Foto: Ding Musa / Cortesia Galeria Luciana Brito)
As representações da noite e suas múltiplas metáforas são assunto recorrente na música onde constituem um gênero, de caráter intimista e meditativo, chamado “noturno”. O negrume da noite é cantado pelo Ilê Aiyê, e os versos do rapper Rincon Sapiência transmutam o escuro noturno na pele da atriz Lupita Nyong’o.
Poderíamos aprender a enxergar nas trevas, como tantos animais fazem, ou interrogar se é possível “ver um trabalho de arte na escuridão total”, como propõe o historiador da arte estadunidense Darby English em livro homônimo. Rivane Neuenschwander picotou o livro As Mil e Uma Noites, usando um furador e colou os círculos com fragmentos de textos sobre pranchas de papel preto, em composições que evocam galáxias. A cada exposição, os conjuntos de desenhos são organizados em grids, como calendários que marcam o tempo da mostra. Mesmo que intangível, o céu é uma ferramenta de localização no espaço e no tempo.

Desde 2014, Ricardo Alves pinta o universo baseado em imagens de alta definição captadas pela Nasa. Suas pinturas são construídas com grossas camadas de tinta, gerando um contraste perceptivo entre massas de óleo e imagens de profundidade. Ultra Deep Field Falhado (2015) talvez se insira nessa tradição de representações do céu que proponho: imagens de céus que não refletem uma “cor local”, que embaralham territórios e modos de representação, que colocam em questão suas próprias falhas em relação ao objeto.
OLHA PRO CÉU, MEU AMOR
Nos convoca Luiz Gonzaga. A artista Patrícia Leite também chamou Gonzagão para a conversa em uma individual composta apenas de pinturas de fogos de artifício e com o mesmo título da parte final deste texto. O céu é um assunto recorrente em sua produção, em especial os enquadramentos através dos quais é visto. Na pintura Gruta (2014) há uma larga margem preta ao redor da forma ameboide que o delimita. Título e composição sugerem a imagem de um espaço interior, e a forma orgânica e irregular que circunscreve a paisagem celeste tem algo de onírico, como no recurso usado no cinema ou nos quadrinhos para indicar um sonho.

Sandra Cinto também tem o céu como assunto frequente em sua obra. Seus desenhos e pinturas têm um caráter poético, mesmo que sejam representações de céus revoltos ou turbulentos. No início de sua prática, nos anos 1990, a artista produziu a série Sem Título, feita a óleo em médias e grandes dimensões. Os céus eram vazios e anunciavam apenas sua própria luminosidade por entre as pesadas nuvens de dias de chuva, todas em tons de vermelho, como céus sangrentos no dia do Apocalipse.
O suposto lirismo das representações do céu também tem seus correspondentes trágicos ou de questionamento, que vão desde pensar os limites da representação sobre esse assunto até as possíveis angústias de enfrentamento com a imensidão. Seria possível uma imagem que reproduzisse o efeito imersivo da experiência direta de olhar para o céu?
Na instalação Entrecéu (2007), Regina Silveira cobre o chão e as paredes do espaço expositivo com um plotter cuja imagem é de um céu azul com nuvens plácidas. Uma claraboia na sala gera a continuidade entre as imagens e o céu lá fora. Ao forrar o espaço com essas imagens, a artista torna concreta a expressão “andar nas nuvens”, paradoxalmente transformadas em um abismo.

Esses trabalhos não apenas tomam o céu como tema ou naturalizam seus modos de representação, mas, na tentativa de representá-lo, em sua instabilidade e infinitude, colocam seus códigos como um problema a ser questionado ou ao menos tornado opaco. Eu poderia também falar sobre Lucy flutuando no céu povoado de diamantes psicodélicos na música dos Beatles, sobre Cartola nos convocando a olhar o céu na esperança de um bom dia, ou só fechar os olhos e sentir o céu dentro da boca.