“Ao voltar para o passado, Dalton pretene, pelo menos no plano simbólico, alterar o curso do tempo presente”, escreve a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz em Dalton Paula: O Sequestrador de Almas, livro publicado em janeiro pela Cobogó que abarca os anos recentes de produção do artista goiano. O volume mostra como se deram seus processos fotográficos, o trabalho com cerâmica e a intervenção em objetos, como as pinturas em capas de livros, e os famosos retratos de personalidades brasileiras que ganharam destaque em 2018, quando Dalton os expôs na coletiva Histórias Afro-Atlânticas, no Masp.
“Se a gente pensar no apagamento, no silenciamento, o tempo tenta soterrar [as vozes do povo negro], mas essa questão histórica volta transformada, é o tempo do passado presente que é muito vivo na obra do Dalton”, diz Lilia Schwarcz, coautora do livro, que participou da entrevista do artista à seLecT_ceLesTe realizada no mezanino da Galeria Sé, em uma casinha geminada da Vila Modernista, projetada pelo arquiteto Flávio de Carvalho, em São Paulo.

Naquela tarde ensolarada de fim de verão, o lançamento de Dalton Paula: O Sequestrador de Almas reuniu dezenas de pessoas – número não previsto pela organização. O encontro com o artista goiano alongou-se porque o tempo “é um mago de muitos feitiços”, comentou a antropóloga com o amigo Dalton.
O Sequestrador de Almas abre com a história de Retratos Brasileiros, sua série mais conhecida, “sobre heróis e heroínas silenciados pela história”. O trabalho com a memória é minucioso e presente desde as pinturas feitas sobre capas de livros, iniciadas em 2014. Essas obras trazem cenas inspiradas nas antigas fotopinturas colorizadas de família, muito comuns nas casas brasileiras de antigamente (aqueles retratos dos avós engomados com roupas sociais, “para ir à missa”). Em seguida, as pinturas a óleo, os objetos e o trabalho com fotografia mostram um artista em trânsito, estudioso, que se aventura em várias técnicas, como aquarela ou performance, além dos processos com as bateias do garimpo.
A obra de Dalton Paula “ocorre a partir de um profundo diálogo e afeto com essa imensa diáspora transatlântica”, anota Lilia Schwarcz na introdução ao livro. Aspectos que se confirmaram na mostra Retratos Brasileiros, sua individual no Masp em 2022, quando o artista reuniu importantes figuras negras, como o escritor Machado de Assis, o líder da Conjuração Baiana no século 18, João de Deus Nascimento, e Zeferina, liderança do movimento negro do Quilombo do Urubu, na Bahia, no século 19.
Sobre uma das obras pintadas em volumes de enciclopédia, Cura B (2016), o curador Hélio Menezes faz um importante apontamento no catálogo de O Rio É Uma Serpente, da Trienal de Artes de Sorocaba: “O artista traz rezadeiras, benzedeiras e outras entidades centrais à promoção e restabelecimento da saúde, sobretudo em comunidades rurais e territórios de forte cultura afro-indígena; seus personagens, todos negros e de olhos fechados (em estado de profunda introspecção, ou mesmo em transe), aparecem em contraste e paralelo ao conteúdo das pesadas enciclopédias – um símbolo forte do conhecimento formal, livresco, autorizado e reconhecido, que serve aqui de suporte para o retrato de sujeitos que a história oficial fez questão de apagar”.
Enquanto escrevia a biografia de Lima Barreto, a historiadora Lilia Schwarcz logo pensou em Dalton para criar um retrato do escritor para a capa do livro. Convite aceito, o pintor comprou a obra completa do autor de Clara dos Anjos para se aprofundar na literatura e poder começar o trabalho. A partir desse encontro com as palavras, Dalton fez seu primeiro personagem de olhos abertos.

“Foi uma tomada de consciência, os olhos fechados eram uma questão do olhar interior, e abrir os olhos é olhar o próprio corpo”, resume o artista. “Até 2014, os personagens nas pinturas de Dalton estavam ‘de olhos fechados’, como se estivessem incorporados”, conta Lilia Schwarcz, sugerindo que um escritor representado com os olhos fechados “poderia passar uma impressão errada de pessoa vencida”.
Até o fim de janeiro de 2023, a Pinacoteca de São Paulo sediou uma instalação do artista goiano concebida para o Projeto Octógono, na Pina Luz. Uma reflexão sobre a importância cultural, medicinal e simbólica do plantio do algodão, que começou a ser produzido em escala comercial no Brasil a partir do século 18, é a proposta de Dalton Paula, fruto de uma pesquisa que o levou a viajar ao longo dos rios Mississippi (Louisiana) e Itapecuru (Maranhão), acessando diversas camadas de uma história de ascensão e abandono do comércio do algodão. A obra é composta de oito conjuntos de tamboretes populares de madeira e couro, agrupados e decorados como altares improvisados, sobre os quais repousam diversas garrafas, jarras e barris, revestidos de lona de algodão. Nesse conjunto de objetos, Dalton realiza pinturas que evocam as complexas histórias da “rota do algodão”, como vistas de paisagens marcadas pelo cultivo e processamento do chamado ouro branco, vistas de grandes armazéns e embarcações, de ferramentas e máquinas de processamento, de corpos invisibilizados, de objetos e atos de resistência política e espiritual. Rota do Algodão é o terceiro projeto de sua investigação acerca do Atlântico Negro, iniciada com Rota do Tabaco (2016) e desenvolvida também nas obras sobre a “Rota do Ouro”, Bamburrô (2019) e Anhanguera (2019). Com o desfecho da ambiciosa trilogia, o artista atualmente está empenhado em um projeto coletivo para o espaço de arte e programa de residências Sertão Negro.
seLecT_ceLesTe: Poderia falar sobre o Sertão Negro, seu projeto em Goiás?
Dalton Paula: O Sertão Negro é uma escola de arte que foi fundada por mim e pela minha companheira em Goiás. A gente pensou sobre qual é o papel do artista na sociedade. E do meu trabalho, especialmente, que discute essa relaçãocom o outro. Então, principalmente por conta da crise política e da pandemia, a cultura e a educação foram muito atingidas e atacadas. Eu fiz graduação na Universidade Federal de Goiás (UFG), estudei em escolas públicas, acredito no ensino público. Esse investimento na educação, na formação, é necessário para uma base sólida e formativa. Lá no Sertão Negro, esse quilombo, essa escola de arte, o projeto é pautado nas comunidades tradicionais, no terreiro, na sua arquitetura e concepção, na sustentabilidade. A gente tem lá, hoje, curso de cerâmica, aula de capoeira angola, cineclube, vamos começar agora um curso de gravura. Estamos construindo três chalés para iniciar nosso programa de residência artística, para receber artistas do mundo todo, e vamos cobrar por isso. A ideia é de que se torne um projeto sustentável para ajudar nos custos.

E quem o ajuda?
Pretendemos apostar em convênios, parcerias, inclusive com universidades, mas hoje eu sou o mantenedor. No futuro, a ideia é ir recuando e pensar no coletivo. A gente não faz nada sozinho. Fizemos uma parceria com uma empresa privada, por conta da demanda nacional, e ela concedeu uma bolsa para artistas residentes, mil reais por mês, para os artistas locais, que moram em Goiânia. Estamos vendo possibilidades para atender artistas de todo o mundo no programa de residências.
Como é o programa educativo do Sertão Negro?
A ideia é explorar as potencialidades do estado de Goiás, a partir da experiência no Quilombo. Uma semana no Quilombo e três semanas no Sertão Negro: o artista chega à Chapada dos Veadeiros, Calunga, Cedro, no sudoeste de Goiânia. Há um intercâmbio com os artistas locais, a comunidade. Temos um forno de cerâmicas, uma prensa de gravura e uma biblioteca com mais de 2 mil títulos. Um espaço interessante para incentivar a pesquisa e o trabalho.

Como você organizou sua produção nos últimos anos?
Na exposição Retratos Brasileiros há três momentos de pinturas, três tempos. Na Zeferina e no João de Deus, de 2018, a gente vê aspectos formais diferentes no modo de preencher os espaços, de trabalhar com a tinta, com a pintura. Em 2020, quando tive a oportunidade de passar um período em Nova York, para a minha primeira individual na galeria Alexander and Bonin, tive a total consciência de que era uma ocasião para gerar bons frutos. Isso pouco antes do lockdown da pandemia. Depois disso, me senti preparado para trabalhar em qualquer lugar do mundo. Parei de assistir às notícias da tevê, porque precisava terminar os retratos. Foram 24.

Dalton, gostaria de saber como você trabalha com essa questão do objeto alheio, tendo em vista suas obras com livros, as bateias [ferramenta de garimpo], entre outros instrumentos de trabalho que você recolheu para o seu acervo itinerante?
Essas bateias demoraram três anos para ser coletadas. Vieram de três lugares diferentes da Serra Pelada, com o ponto de partida do estado de Goiás, até Diamantina, em Minas Gerais. Essa pesquisa tem em vista a Rota do Ouro para falar das rotas diaspóricas africanas. Estive sempre pensando nesse atravessamento. Então, o garimpo tem essa coisa de ser um lugar no meio de uma disputa ambiental, uma aflição na busca pelo ouro, onde há violência. Depois desse trabalho, tenho para mim que, quando o ouro sai do interior da terra, a terra sai de um equilíbrio. Me interessou especificamente a bateia, porque ela traz uma história. Ali está o atrito puro dos minerais, das intempéries do tempo. É uma espécie de dança à flor da pele, esses rastros deixados pelo ouro de aluvião.

Como você coloca em evidência essa questão do trabalho na sua obra?
Tem uma questão do lugar social, do corpo negro. A bateia traz muito essa questão do trabalho braçal. De um lugar que gera muito incômodo. E dessa aflição eu penso no desejo. Afinal, em qual lugar essas pessoas gostariam de estar?

Lilia Schwarcz fala desse aspecto lúdico das cenas, quando você retrata uma banda de fanfarra, em um de seus trabalhos com a fotografia. Você traz também a denúncia, não?
O que um carrinho de sorvete está fazendo no meio de uma banda de fanfarra? Ali era um suporte de água para a banda. Como a gente pode trazer determinados elementos sem ele estar propriamente ali? Esse carrinho de picolé azul foi uma forma de trazer a água dos rios, desse ouro de aluvião. Quando retrato uma cena por esses objetos, falo também das pessoas que eles representam.