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Retrato de Anna Muylaert [Foto: Leo Lara/Universo Produção]
Postado em 06/08/2025 - 7:07
“A figura política da mãe é inexistente”
Anna Muylaert reescreve história de carroceira em novo longa-metragem e reflete sobre construção de personagens mulheres em sua carreira

Assim que entrei na videochamada pelo Zoom, comecei a correr contra o cronômetro: eu tinha 15 minutos para entrevistar Anna Muylaert. Nesse curto espaço de tempo, era necessário condensar assuntos densos em perguntas objetivas para a diretora de sólida trajetória no cinema brasileiro. Meu intuito era, além de falar sobre A Melhor Mãe do Mundo (2025), seu novo longa; de sua fase atual como escritora e diretora e, claro, do assunto que dominou as redes durante semanas: a adaptação da música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, para o cinema.

Achei melhor não começar por esse último tema — não seria o melhor quebra-gelo. Então guardei-o para a segunda metade da entrevista. Anna foi gentil e receptiva ao falar sobre o novo filme, agora em campanha de divulgação para a estreia nacional nesta quinta-feira, 7 de agosto.

Desde Durval Discos (2002) até o sucesso Que Horas Ela Volta? (2015), Muylaert tem tensionado a figura política da mãe. No novo filme, aprofunda sua investigação por meio de Gal — personagem vivida por Shirley Cruz —, uma catadora de materiais recicláveis que foge da violência doméstica para proteger os dois filhos. A personagem marca uma nova fase na dramaturgia da diretora, que amplia a reflexão sobre maternidade e vulnerabilidade social, agora em um registro ainda mais sensível e com uma camada documental, ambientada nas ruas de São Paulo. A personagem atravessa a cidade puxando a carroça com os filhos, da região central até o extremo da zona leste, em uma jornada de sobrevivência e ruptura.

Muylaert conta sobre o processo de construção do roteiro, inspirado na vivência de mulheres da Cooperativa de Trabalho e da Coleta Seletiva dos Catadores da Baixada do Glicério, na região da Liberdade, em São Paulo, com as quais colaborou durante anos. Relembrando as personagens que marcaram sua trajetória, a diretora também comenta sobre o processo de redefinição da dramaturgia cinematográfica atual, e sua relação com o desenvolvimento de histórias que ofereçam novos e esperançosos caminhos às mulheres.

Enquanto conversamos sobre a adaptação da emblemática canção de Chico Buarque, vejo o aviso dos últimos cinco minutos no chat da videochamada — o tempo está se esgotando. A produção de Geni e o Zepelim foi encerrada em junho deste ano, mas o debate sobre o lugar de fala no cinema já vinha tomando forma desde o anúncio do elenco. Muylaert conta à celeste como as repercussões em torno da escolha de uma atriz cisgênero para interpretar Geni levaram à reformulação do roteiro e à escolha de uma atriz trans para o papel. 

Neste contexto, a diretora também reflete sobre os desafios do audiovisual brasileiro diante do monopólio dos streamings: embora o cinema nacional volte a ganhar visibilidade internacional, segue enfrentando os efeitos da falta de regulação sobre essas plataformas, que impactam diretamente a autonomia dos autores. O tempo da entrevista termina, mas Muylaert ainda tem o que dizer — e sigo acompanhando seu raciocínio. Que sorte. A seguir, os primeiros 15 minutos e os 5 extras da conversa com a diretora.

Retrato de Anna Muylaert [Foto: Leo Lara/Universo Produção]
A Melhor Mãe do Mundo (2025), de Anna Muylaert [Foto: Divulgação]

celeste: Anna, A Melhor Mãe do Mundo entrelaça a história da Gal com o contexto urbano das catadoras de materiais recicláveis, criando uma narrativa ficcional que se insere de forma sutil na realidade dessas pessoas. Como foi o processo de construção do roteiro que atravessa fronteiras entre ficção e realidade, com a escuta de personagens reais? Você confere ao filme uma dimensão documental, sem deixar de lado a qualidade da ficção?

É, de alguma maneira, sim. A ideia do filme surgiu quando minha amiga Ana Flávia Cavalcante me falou das carroceiras que levam os filhos na carroça – e eu fiquei impactada com essa imagem. Depois eu soube da peça Mãe Coragem e Seus Filhos (1941), do [Bertolt] Brecht, que também traz essa figura da mãe levando os filhos, apesar de ser um contexto de guerra. Mas é uma imagem muito forte e arquetípica. Eu vejo a carroça como um útero, como o fardo — feliz, mas fardo — da maternidade. 

Comecei a pensar o roteiro a partir dessa imagem, como se fosse uma foto. E como também estava querendo falar de relacionamento abusivo, muito rápido imaginei a história: ela tá saindo de um relacionamento abusivo, bota os filhos [na carroça] e cruza São Paulo fugindo do marido. Depois que eu já tinha a história, vamos dizer, escaletada, fui até a Cooperativa do Glicério, onde conheci muitas pessoas e fui muito bem recebida. Quando elas começaram a contar as suas histórias, percebi que eram muito semelhantes na solidão e na questão da maternidade. Enfim, as personagens começaram a ter vida e, como já estou em contato com elas desde 2019, houve bastante tempo para cozinhar essa percepção e essa relação. 

A Cooperativa do Glicério é um lugar enorme, embaixo de um viaduto, e tem um cheiro muito ruim, por causa do lixo. São caixas de McDonald’s, latinhas de Coca-Cola descartadas, é o avesso do capitalismo. A gente tá consumindo isso e lá estão os restos de tudo. Então, a primeira constatação é sobre o pior do capitalismo. Sobre o capitalismo ter um avesso que a gente não vê. Com isso o filme já ganhou  outra importância. 

Isso e conversar com as mulheres, que têm uma nobreza e uma força que foi muito importante de conhecer. Uma das carroceiras que eu conheci na época, a Fabiana, que faleceu recentemente, foi uma das mulheres mais fascinantes, fortes e com história para contar que já encontrei — uma vida rica, apesar de uma vida material pobre, que foi muito impactante. 

A Melhor Mãe do Mundo (2025), de Anna Muylaert [Foto: Divulgação]
Algumas das suas personagens rompem com um padrão estrutural – familiar, social, emocional – a partir de uma situação limite, desencadeando um deslocamento físico e simbólico, como a fuga de Gal com os filhos. Como você enxerga esse gesto de ruptura dentro do contexto brasileiro atual? Que recursos narrativos lhe interessaram para tensionar essa passagem entre o colapso e a liberdade?

Olha, isso é muito consciente. Por exemplo, eu ouvi de um executivo: “Poxa, o seu filme passa perto do feminicídio, mas não tem feminicídio. Passa perto do abuso infantil, mas não tem abuso infantil. Passa perto do estupro, mas não tem estupro”. Quase querendo dizer: “Seu roteiro é fraco”. Mas é justamente nisso que está a força desse filme. Nem toda mãe pobre e em situação de rua precisa se prostituir. Nem todo caso de violência doméstica termina em feminicídio. A força da mulher é maior do que a violência. Não em todos os casos, a gente tem aí os números. A gente sabe que morre uma mulher a cada 15 minutos. Mas tem tantas outras que sobrevivem. 

E mesmo que não fosse verdade, eu quero mostrar o mundo e criar novas imagens na ficção. Quantas vezes eu já vi a mãe em situação de rua se prostituindo? Em muitos filmes. E eu quero mudar essa força dramática. Vamos fazer uma dramaturgia de imagens que abram portas e não as mesmas imagens que batam na nossa cara, sabe? Eu sou uma rebelde. Tenho lido críticas que elogiam muito o filme, mas dizem que o final é de conto de fadas. Ou seja, o que as pessoas esperam? Um corpo estendido no chão? Isso seria um final realista? Ir para a Ocupação 9 de Julho é final de conto de fadas? Uma ocupação onde só tem pessoas em situação de rua e um mínimo de organização comunitária. A nossa dramaturgia é muito baseada na tragédia. 

A Jéssica [personagem de Que Horas Ela Volta? (2015)], antes de filmar, as pessoas liam o roteiro e quando ela saía na chuva, na véspera da Fuvest, já achavam que seria encontrada no necrotério. E levavam um grande susto quando ela não morria, ela fazia o vestibular e passava. Então, eu chego perto de certas coisas, mas eu quero dar outros caminhos. Porque acho que nós mulheres precisamos muito ver outros caminhos até para a gente se espelhar.

“NÓS MULHERES PRECISAMOS MUITO VER OUTROS CAMINHOS ATÉ PARA A GENTE SE ESPELHAR”
A Melhor Mãe do Mundo (2025), de Anna Muylaert [Foto: Divulgação]

Recentemente você encerrou as gravações do filme Geni e o Zepelim, filme que já gerou debates em torno da escolha do elenco e da representação de pessoas trans. Como você recebeu essas críticas e de que forma esse diálogo com o público impacta seu processo criativo e suas decisões enquanto diretora? Como você enxerga a questão do “lugar de fala” no cinema atual?

Pois é, essa questão do lugar de fala foi o que me fez não querer fazer uma personagem trans. Mas eu fiquei nesse debate, conversei com muitas pessoas LGBTQIA+ antes de tomar a decisão de fazer uma personagem cis. E pessoas que falavam: Não, personagem de ficção é personagem de ficção. Mas no final a gente decidiu: Vamos fazer um roteiro que possa tanto ser para uma pessoa trans quanto para uma pessoa cis, porque a gente quer falar da feminilidade, da mulheridade e eu entendo que ambas sofrem, cada uma a seu modo. Trans e cis sofrem de maneiras diferentes, mas ambas sofremos. Então, quando veio o tsunami de críticas, eu recebi muito bem e falei: Eu continuo achando que a personagem de ficção pode ser qualquer coisa, pode até fazer um filme de borboletas e ter a Geni. Eu acho que a Gal é uma Geni. Eu acho que a Dilma é uma Geni. Então, eu sempre vou achar que a gente pode interpretar de diversas formas, isso como artista. 

Como cidadã, ao perceber a importância do símbolo de Geni para a comunidade trans, eu falei: “Vamos mudar”. E isso para mim foi imediato. Então abri o debate para ouvir de todo mundo, porque também existe uma questão que Geni e o Zepelim é uma música de quase 50 anos. E para diferentes faixas [etárias], ela significa diferentes coisas. Por exemplo, para pessoas da minha geração [sudestinas, de classe média e heterossexuais], ela é cis. Para a comunidade LGBTQUIA+ [e outras pessoas mais conscientes sobre a discussão de gênero], ela é trans. Para os jovens, abaixo de 20 anos, ela não existe. Ela não é nada. Então, quis abrir o debate para que as pessoas pudessem se expressar. Para não deixar a coisa pétrea. E fiz a transição com responsabilidade e com alegria também. 

Escolhemos uma atriz que a gente já tinha feito um teste. A Ayla Gabriela é uma atriz maravilhosa, tem 27 anos, é muito moderna e foi excelente para o filme essa transformação. Eu tô muito feliz com ter feito a mudança e inclusive com o debate, porque se eu tivesse escolhido uma mulher trans antes do tsunami, teria escolhido uma mulher trans famosa, porque o dinheiro pede isso. Mas como acabou sendo numa emergência, a gente pôde escolher uma estreante. Então, acredito que foi um debate muito valioso para a sociedade. Porque acho que a gente tá perdendo o costume do debate.

Eu chamo de debate, mas a verdade é que me xingavam 100 vezes por segundo. E eu não lia, meus filhos liam, ficavam mal. E eu falava: “Não lê, isso é coisa de internet, deixa para lá”. E como de fato resolveu. Mas eu acho que é importante debater, também não é assim: “Geni é trans”. Não, Geni é uma personagem de ficção. Para um grupo, ela é trans. Eu vou respeitar isso porque eu vi como elas sofreram, como se sentiram apagadas e mortas. Então, obviamente, como cidadã e como artista responsável, eu não podia levar essa ideia dela ser cis para frente. Agora, o nosso filme é com uma mulher trans e é desbundante. E também a gente vai mudar o final da música. Vamos dar um novo destino para Geni.

A Melhor Mãe do Mundo estreia num momento de retomada da visibilidade do cinema brasileiro no circuito internacional. Diante da recepção que o novo longa-metragem vem tendo nos festivais, como você enxerga esse reconhecimento externo no momento atual do audiovisual no Brasil? E quais são as expectativas para a estreia no território nacional?

Acho que o cinema brasileiro, assim como o cinema mundial, tá vivendo uma crise, que é a crise da invasão dos streamings, que tá trazendo uma série de protocolos corporativos e uma série de regras que estão sendo muito nocivas, não só pro cinema brasileiro, mas pro cinema mundial e a gente precisa correr com essa regulação, antes que a gente deixe de ter uma soberania cultural nacional. Agora, fora isso, a gente tem cineastas com experiência, cineastas consagrados como Kleber Mendonça, Walter Sales, Gabriel Mascaro e Petra Costa, que tão por aí ganhando prêmios importantíssimos. O Walter ganhou o Oscar, o Kleber ganhou a Palma de Ouro, mas são cineastas que já vem trabalhando há décadas. A gente não pode pegar esses pequenos exemplos e achar que as coisas estão bem. As coisas não estão muito bem, não. Até pelo número de salas de cinema, pelas questões de editais, mas eu vejo que a gente vai resolver e que o cinema brasileiro já passou por tantas e vai seguir vivendo com o talento todo que ele tem. E a minha expectativa em relação ao filme A Melhor Mãe do Mundo, é que eu acho que é um filme popular e comovente. E agora estamos fazendo todo o nosso esforço para divulgação e vamos ver como é que vai ser o resultado em sala.

Você gostaria de acrescentar algo que não foi mencionado? 

Eu queria só falar mais uma coisa que acho não está explícita no filme, mas tá implícita, que é a questão da responsabilidade da sociedade em relação à figura política da mãe, que é inexistente. Acho que deveria haver Ministério da Mãe. Porque é através da mãe que a sociedade se constrói. E a mãe é tida ainda hoje de uma forma meio religiosa, meio santa, meio romantizada. Acho que não há nenhum preparo do ponto de vista da sociedade para que uma mulher se torne mãe, mesmo que ela tenha 13, 15 ou 20 anos. Ou que ela não tenha a estrutura educativa e ela é, de todas maneiras, suprema dona e educadora daquela criança, muitas vezes sem condição ou rede de suporte. Assim como a Gal. Se ela tem força, muito bem. E se ela precisa trabalhar e precisa sair, o que ela faz? Se ela não tem dinheiro para pagar alguém? Por isso, algo muito importante sobre esse filme é falar sobre o quanto a figura da mãe está ao Deus dará, milenarmente. Não é só no Brasil, é no mundo. “Ah, é mãe, deixa com ela. Ela tem instinto, ela tem leite”, e não, não é assim. Criar um filho é muito complexo. E criar um filho sem ter condição, gera uma sociedade que é essa sociedade violenta e perdida. Acho que a mãe precisa ser educada. E isso é uma coisa que não passa pela cabeça de ninguém, porque é tanto… desde Virgem Maria, entendeu? “Ah, mãe sabe tudo”. Não sabe não. Mãe é um ser despreparado, assim como um enfermeiro. Ninguém vira enfermeiro sem fazer um curso. Não tô dizendo que uma mãe tem que fazer um curso, mas que a sociedade precisa olhar para a mãe de uma forma educativa e dar apoio. E a outra coisa é também a visibilidade dos carroceiros. Porque todo mundo que fez o filme passou a ver os carroceiros. Os carroceiros são pessoas que a gente passa ao lado e não vê. E eles catam uma boa porcentagem do lixo da cidade de São Paulo. Eles têm uma extrema importância para a higiene da cidade e são invisíveis. Então, acho que se esse filme trouxer, como trouxe para mim e para as pessoas da equipe, a capacidade de ver os carroceiros, a gente vai ver uma verdadeira população que tá aí fazendo um trabalho social, em troca, obviamente, de dinheiro, já que o Brasil é o país que mais recicla lixo no mundo. Que a gente possa ver. Registrar a existência.

“A FIGURA POLÍTICA DA MÃE É INEXISTENTE. ACHO QUE DEVERIA HAVER MINISTÉRIO DA MÃE. PORQUE É ATRAVÉS DA MÃE QUE A SOCIEDADE SE CONSTRÓI”