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Vista geral da exposição A Mãe Contempla o Mar, de Cristina Salgado [Foto: Levi Fanan / cortesia Pinacoteca do Estado de São Paulo]
Postado em 06/07/2026 - 6:48
A mãe contempla o mar, o mar contempla a mãe
A instalação de Cristina Salgado no Octógono da Pinacoteca aproxima casa, corpo e paisagem marítima

A instalação A Mãe Contempla o Mar, de Cristina Salgado, transforma o Octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo em uma paisagem onde corpo, casa e mar compartilharam o mesmo movimento de ondas.  No centro da instalação, um corpo monumental formado por camadas onduladas de feltro repousa sobre uma cadeira e se estende sobre uma mesa de jantar. Diante dele, um televisor exibe imagens de ondas quebrando lentamente na praia. Mais adiante, longas faixas de feltro azul e cinza descem do alto do pé-direito do Octógono, formando uma estrutura vertical que evoca o movimento de uma grande arrebentação.

O motivo da onda atravessa toda a obra. Ele aparece no mar transmitido pela televisão, nas camadas enroladas de feltro que constituem o corpo escultórico e na estrutura suspensa que ocupa o centro do espaço. Corpo, paisagem e matéria compartilham, assim, um mesmo princípio formal: o ritmo das ondulações.

Desde os anos 1980, Cristina Salgado desenvolve uma produção profundamente vinculada ao corpo e às atmosferas do espaço doméstico. Em muitos de seus trabalhos, objetos cotidianos como cadeiras, mesas ou camas são elementos estruturantes de situações espaciais que articulam memória, interioridade e imaginação. Na instalação apresentada na Pinacoteca de São Paulo, essa investigação assume uma escala ampliada, dialogando diretamente com a arquitetura. Ao ocupar o espaço monumental do museu, a artista estabelece uma continuidade entre interior doméstico e paisagem marítima, aproximando arquitetura, matéria têxtil e imagem em um mesmo ambiente perceptivo.

Vista da instalação A Mãe Contempla o Mar (2026), de Cristina Salgado, no Octógono da Pina Luz [Foto: Ana Hortides]

O INFAMILIAR FREUDIANO
O curador Renato Menezes observa, no texto da exposição, que o corpo feminino constitui um eixo recorrente na trajetória de Salgado. Em sua leitura, esses corpos funcionam como campos de condensação simbólica, capazes de reunir memórias, paisagens e experiências associadas ao cotidiano doméstico. Sob essa perspectiva, objetos familiares passam então a operar como dispositivos de transformação perceptiva, deslocando o ordinário para uma dimensão de estranhamento. Tal ambiguidade aproxima a obra da noção freudiana do infamiliar (Unheimlich). Em seu ensaio sobre o tema, Sigmund Freud descreve o termo como aquilo que emerge quando algo profundamente conhecido, aquilo que pertence ao espaço da casa e da intimidade, torna-se inesperadamente estranho. O familiar deixa então de oferecer estabilidade e passa a revelar zonas ocultas de significado.

Na instalação de Salgado, essa tensão manifesta-se na própria organização do espaço. A mesa, a cadeira e o televisor são objetos reconhecíveis. Contudo, o corpo que repousa sobre eles dissolve as fronteiras entre figura e paisagem. Suas camadas onduladas lembram formações geológicas ou movimentos marítimos, aproximando anatomia e território. A televisão introduz ainda uma dimensão mediada da paisagem. O mar não está fisicamente presente no espaço. Surge como imagem transmitida, distante e repetitiva. Ainda assim, sua presença reverbera materialmente na composição da obra. As formas enroladas do feltro prolongam o movimento das ondas na tela, como se a paisagem marítima atravessasse o interior da casa.

Essa continuidade entre interior e exterior pode ser pensada à luz das reflexões de Emanuele Coccia em A Filosofia da Casa (2022). Para o filósofo italiano, a casa não é apenas uma estrutura arquitetônica, mas uma atmosfera compartilhada em que corpos, objetos e imagens coexistem e se transformam mutuamente. Habitar uma casa significa participar de um meio no qual interior e exterior deixam de ser opostos e passam a constituir um mesmo ambiente de experiência. A instalação de Cristina Salgado opera nesse território híbrido. O mar exibido na televisão encontra eco nas ondulações do corpo de feltro. A paisagem marítima reverbera na matéria da obra e transforma o espaço doméstico em um campo de correspondências formais.

Essa relação torna-se ainda mais significativa quando observada na escala arquitetônica do Octógono. Com seu enorme pé-direito e planta centralizada, o espaço solicita intervenções capazes de dialogar com sua verticalidade. As faixas de feltro que descem do teto respondem diretamente a essa condição, reorganizando a percepção do visitante e introduzindo um eixo que atravessa todo o ambiente. Ao circular pela instalação, o espectador experimenta uma alternância entre proximidade e expansão. Entre essas escalas do íntimo e do monumental, a obra constrói um percurso espacial que envolve o visitante e evidencia a força dessa ocupação no conjunto recente de intervenções no espaço.

O MAR NA TELEVISÃO ENCONTRA ECO NAS ONDULAÇÕES DO CORPO DE FELTRO; A PAISAGEM MARÍTIMA REVERBERA NA MATÉRIA DA OBRA E TRANSFORMA O ESPAÇO DOMÉSTICO EM UM CAMPO DE CORRESPONDÊNCIAS FORMAIS
Televisor exibindo imagens do mar no interior da instalação [Foto: Ana Hortides]

GERAÇÃO 80 EM REVISÃO
Inserida no contexto histórico da chamada Geração 80 da arte brasileira, a produção de Cristina Salgado dialoga com um momento marcado pela ampliação das linguagens da pintura, da escultura e da instalação. A recente exposição Fullgás – Artes Visuais e Anos 1980 no Brasil, com curadoria de Raphael Fonseca, reforça essa leitura ao propor um panorama expandido do período e evidenciar a diversidade de pesquisas que emergiram naquele momento. Nesse contexto, a sua obra destaca-se por investigar de forma persistente as relações entre corpo, domesticidade e espaço.

Há ainda um aspecto simbólico curioso. Salgado torna-se a 80ª artista a ocupar o Octógono da Pinacoteca, coincidência que ecoa sua própria vinculação histórica à Geração 80. Mais do que um detalhe cronológico, essa correspondência sugere uma continuidade entre diferentes momentos da trajetória da artista e da história recente da arte brasileira.

Corpo monumental de feltro repousando sobre mesa e cadeira na instalação [Foto: Ana Hortides]
Em A Mãe Contempla o Mar, contemplação e transformação tornam-se gestos inseparáveis. O mar aparece como imagem insistente, repetida na tela da televisão e nas ondulações da matéria têxtil. Ao mesmo tempo, o corpo da mãe parece absorver esse movimento, tornando-se ele próprio uma paisagem. Entre casa e oceano, a instalação constrói um espaço onde interioridade e mundo deixam de ser opostos. O mar permanece diante da mãe como imagem persistente, repetida na tela e nas ondulações da matéria. Ao contemplá-lo, o corpo parece reconhecer nele algo que lhe pertence desde sempre: o movimento contínuo das ondas.

Referências
FREUD, Sigmund. O Inquietante. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
COCCIA, Emanuele. A Filosofia da Casa. São Paulo: Editora Ubu, 2024.
FONSECA, Raphael; MELO, Tálisson; TAVARES, Amanda. Fullgás – Artes Visuais e Anos 1980 no Brasil. São Paulo: Arte 3, 2025.

 

Serviço
A Mãe Contempla O Mar, de Cristina Salgado, curadoria de Renato Menezes
Pinacoteca do Estado de São Paulo — edifício Pina Luz (Praça da Luz, 2, Bom Retiro, São Paulo, SP)
Quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h); até 2/8

 

Ana Hortides é artista visual e pesquisadora. Doutora em artes, investiga arquitetura popular, cultura visual e práticas escultóricas associadas à autoconstrução no Brasil. Sua produção articula escultura, instalação e reflexão crítica sobre arte contemporânea.