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Estado Laico (2013), de Rodrigo Bueno [Foto: cortesia do artista e Galeria Karla Osório]
Postado em 21/07/2026 - 4:59
A matéria do encontro
Delicadeza e inteligência espacial marcam curadoria que explora afinidades em torno do artista Bené Fonteles

Ao deixar a Galeria Karla Osorio, uma única frase permaneceu comigo. Na fotografia de Marcelo Conrado, uma pessoa deitada na calçada divide a cena com um ônibus em movimento. Sobre a imagem, lê-se: “O endereço mais difícil é o lugar do outro.” Durante algum tempo pensei que aquela frase dissesse respeito apenas à obra. Dias depois, percebi que talvez ela descrevesse a experiência inteira de AFINS [Leandro Wendland visitou a exposição em Brasília; uma versão modificada da mostra veio depois para a Galeria Karla Osorio de São Paulo, menor e com obras novas, como Flamarecence 2 (2026), de Fábio Delduque].

Há exposições que organizam obras em torno de um tema. Outras procuram evidenciar aproximações formais ou históricas entre artistas. Em AFINS, o encontro acontece de outra maneira. A mostra parece menos interessada em construir um discurso do que em criar condições para que relações aconteçam. Entre artistas, entre materiais, entre tempos distintos e, sobretudo, entre diferentes maneiras de compreender o mundo.

Essa experiência começa pelo percurso. A montagem evita a sensação comum às grandes coletivas, em que as obras disputam atenção entre si. Apesar de reunir 34 artistas de gerações, regiões e linguagens muito distintas, a exposição preserva espaços de respiração. Cada núcleo mantém sua autonomia, enquanto pequenas aproximações surgem de forma quase silenciosa. Durante a visita guiada, Karla Osorio, que divide a curadoria da exposição com o artista Bené Fonteles, comentou que o maior desafio era justamente esse: criar independência para cada artista sem perder a unidade da mostra. O resultado confirma a escolha. A afinidade proposta pela curadoria nunca se transforma em uniformidade.

Essa inteligência espacial aparece com delicadeza em diferentes momentos. Há uma sala dominada por tonalidades azuis e por obras suspensas, concebida para produzir uma sensação de leveza antes que o percurso retorne à densidade de outros materiais. O jardim deixa de funcionar como área externa e torna-se extensão da própria exposição. Ali, a instalação produzida por Rodrigo Bueno durante a residência artística incorpora um banco encontrado no espaço da galeria, troncos, galhos e elementos recolhidos na paisagem. Sentar-se deixa de ser um intervalo na visita. É parte da obra.

Em outro momento, diante da instalação Estela Luz entre Nós (2018), de Ernesto Neto, a participação do corpo torna-se inevitável. Ao aproximar da cabeça um elemento envolto por cristais, conectado a outra pessoa pela mesma estrutura, a obra abandona a condição de objeto contemplado. Não há qualquer efeito espetacular. Apenas um convite para experimentar outra qualidade de presença. Talvez seja esse um dos maiores acertos de AFINS: compreender que algumas obras não se explicam; elas precisam ser vividas.

Ao longo do percurso, a matéria insiste em reaparecer. Madeira queimada recolhida do Pantanal, cordas retiradas de praias do Nordeste, conchas trazidas do litoral baiano, sementes, cristais, fibras, pedras e objetos marcados pelo tempo atravessam linguagens muito distintas. Em nenhum momento esses materiais funcionam apenas como suporte. Eles conservam memória, desgaste, transformação. Criam a impressão de que a exposição não reúne apenas artistas, mas diferentes temporalidades.

Dias depois da visita, uma resposta enviada por Bené Fonteles, artista, curador e articulador cultural que concebe a exposição, deu nome a essa percepção. Para ele, criar pressupõe “pedir permissão às matérias para ser e não impor uma forma para elas”. A frase não oferece uma chave explicativa para a exposição. Ela apenas confirma algo que o percurso já havia sugerido: a matéria não aparece como elemento a ser dominado, mas como presença capaz de conduzir o próprio gesto artístico.

Essa relação torna-se ainda mais interessante na sala dedicada a Seo Constante. Natural de Minas Gerais, ele produziu durante décadas fora dos circuitos institucionais da arte. Descoberto e incentivado por Bené Fonteles, desenvolveu uma linguagem marcada por composições intuitivas, cores intensas e uma iconografia que escapa às classificações mais recorrentes da arte brasileira. À primeira vista, sua produção parece romper com o restante da mostra. As imagens escapam às aproximações materiais que atravessam boa parte do percurso e instauram um universo muito próprio: figuras, animais, símbolos religiosos, molduras construídas com pequenas ripas de madeira, organização espacial muito singular. No entanto, é justamente essa aparente ruptura que amplia o sentido da curadoria. A afinidade deixa de depender da semelhança entre linguagens e passa a residir no reconhecimento de uma mesma integridade diante do fazer artístico. Seo Constante não confirma a regra da exposição; ele a expande.

Ao final da visita, compreendi que AFINS não trata apenas da amizade entre artistas nem da reunião de trajetórias construídas ao longo de décadas. A exposição propõe outra forma de convivência. Nela, obras, materiais, paisagens, espiritualidades e experiências permanecem diferentes sem deixar de produzir encontro.

Talvez seja por isso que a fotografia de Marcelo Conrado continue ecoando depois que o percurso termina. “O endereço mais difícil é o lugar do outro.” Em AFINS, ocupar esse lugar não significa abandonar a própria identidade. Significa reconhecer que toda criação começa quando aceitamos escutar aquilo que existe antes de nossa vontade de transformar o mundo.

 

 

Leandro Wendland é pesquisador em História da Arte. Dedica-se ao estudo da arte contemporânea, da crítica e curadoria de arte.

 

Serviço

AFINS
Galeria Karla Osorio
SMDB Conjunto 31 Lote 1B, Lago Sul, Brasília, DF
Até 19/7
Rua França Pinto, 1100, loja 1, térreo, Vila Mariana, São Paulo
A partir de 01/8 (em menor formato)