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Omolu (1969), de Carlos Bastos [Foto Isabella Matheus/ cortesia Pinacoteca do Estado de São Paulo]
Postado em 01/04/2025 - 1:39
A Pina é pop
Museu paulistano completa 120 anos com programa dedicado aos temas e visualidades populares

Quantos romances modernos você já leu que começavam no momento de despertar: o personagem abrindo os olhos, pálpebras pesadas, tentando divisar o espaço onde adormecera, o corpo ainda habitando um lugar entre o sono e a vigília, tateando esse começo de mundo que é o primeiro parágrafo ou a primeira página de uma grande obra literária? Em Busca do Tempo Perdido, talvez o mais célebre e representativo destes romances, começa exatamente assim. Michel Foucault inicia O Corpo Utópico afirmando que não consegue escapar do lugar que Proust ocupa quando desperta, o corpo. Sugere, na abertura de seu livro, que visita aquele quarto toda vez que desperta, que começa sua obra reiterando a fundação da escrita moderna e, da mesma forma, modernamente está encerrado no próprio corpo.

A noite e o despertar são o assunto da exposição Tecendo a Manhã: Vida Moderna e Experiência Noturna na Arte do Brasil, que se espraia belamente pelas 7 Salas da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Com curadoria de Renato Menezes e Thierry Freitas, a mostra reúne obras do acervo, de mais de 100 artistas, e discute as representações da vida noturna num arco temporal que engloba trabalhos feitos antes da eletrificação da cidade, no final do século 19. São noites muito distintas aquelas reveladas em fotografias de Madalena Schwartz, em pinturas de Heitor dos Prazeres, e em parques de diversão soturnos retratados por Ranchinho. Já o Theatro Municipal da pintura de Valério Vieira, provavelmente do início do século 20, mostra a cidade acesa num esplendor de eletricidade.

Detalhe de Festa de Iemanjá (sem data), de Babalu [Foto Isabella Matheus/ cortesia Pinacoteca do Estado de São Paulo]
Contexto, portanto, importa, e muito, aqui. Quem retrata quem? Quem olha quem? Quem fala sobre o quê? A pesquisa curatorial buscou, primeiramente, embaralhar as noções de arte popular, arte pop e arte contemporânea – a maioria dos trabalhos passeia pelos três registros com desenvoltura. Em seguida, procurou também mesclar rubricas “temáticas”: a noite como sujeito, a noite como ambiente de várias profissões, noite como objeto, noite de festas diversas, noites urbana, rural e sideral. Sociologicamente, os curadores perguntam-se sobre a noção de medo associada aos discursos sobre a noite. “O medo é socialmente construído”, defende Renato Menezes.

Ao longo de 2025, as exposições na Pina seguem investigando os encontros e desencontros entre arte popular e arte pop. Em paralelo a Tecendo a Manhã, o museu inaugura as mostras de Ad Minoliti, Monica Ventura e Bárbara Wagner. Entre os destaques do ano estão também a exposição coletiva Pop Brasil, que ocupa o edifício Pina Contemporânea a partir de abril, com trabalhos emblemáticos de Antonio Dias, Hélio Oiticica e Lygia Pape, Terezinha Soares e Romanita Disconzi, e uma mostra dedicada aos saberes e ofícios criativos do carnaval, que estará no mesmo edifício a partir do segundo semestre. A programação também destaca artistas mulheres de diferentes nacionalidades, como a colombiana Beatriz Gonzalez (Bucaramanga, Colômbia, 1932), a francesa Dominique Gonzalez-Foerster (Strasbourg, França, 1965) e a brasileira Monica Ventura (São Paulo, 1985). 


SERVIÇO

Tecendo a Manhã: Vida Moderna e Experiência Noturna na Arte do Brasil, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo
De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)
Gratuitos aos sábados – R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios no dia marcado no ingresso
Horário estendido às quintas na Pina Luz, das 10h às 20h (gratuito a partir das 18h)
2º Domingo do mês – gratuidade Mantenedora B3