icon-plus
Praia das Pedrinhas (2024), de Agrippina Roma Manhattan [Foto: cortesia Galeria Flexa]
Postado em 18/06/2024 - 2:34
A reviravolta do mercado secundário
Novo endereço artsy carioca, a galeria Flexa inaugura com reflexão crítica sobre o Rio de Janeiro

Rio: A Medida da Terra começa com um retrato bastante inusual de um ícone da música brasileira, a obra Ney Matogrosso (2023), de Laércio Redondo, e uma representação distópica de um cartão-postal carioca, a escultura Já Estava Assim Quando Eu Cheguei (2015), de Carlito Carvalhosa. Apesar do título da exposição, essas obras anunciam não se tratar de um retrato convencional da cidade. A primeira sala da mostra de inauguração da galeria Flexa, no Leblon, reúne ainda alguns trabalhos exemplares do que seria uma arte “do Rio de Janeiro”, sobretudo do neoconcretismo.

Na sala dedicada às marinhas e outras temáticas náuticas, a mostra inclui duas pinturas de pequeníssimas dimensões, que retratam cenas icônicas da história da arte brasileira: Moema (1866), de Victor Meirelles, conhecida também por suas dimensões heróicas, e O Último Tamoio (1883), de Rodolfo Amoedo. Pois Agrippina Roma Manhattan propõe releituras descoloniais dos quadros do romantismo brasileiro. No primeiro, a indígena morta é uma bixa travesti. O visitante descobre isso lendo uma escarificação no corpo da mulher com pênis. A outra releitura, de O Último Missionário (2024), retrata um jesuíta morto no lugar do indígena do quadro de Amoedo, uma Moema nua ao seu lado, amparando-o na morte, privilégio equivalente não concedido à Moema ou ao Tupinambá “originais”. 

“Ainda bem que as ondas lavam a areia dessas máculas sangrentas, essas memórias corrompidas. A praia limpa desmente o tormento, tudo é novo, tudo se inicia outra vez, sem a marca da destruição e da agonia”, anota Zeca Sampaio em seu Tamoios: Genocídio em Nome de Deus (Terra Redonda, 2021), romance histórico publicado por uma pequena editora de que tomei conhecimento n’A Feira do Livro do ano passado. Pesquisador da história dos Tupinambás no litoral paulista, o autor retrata no livro o cenário de escravização de indígenas no século 16: “Tinham sido avás, cunhãs e piás livres. Viviam em suas aldeias entre parentes e amigos. Agora, eram escravos. Humilhados, seguiam o caminho de muitos. Iam para o leilão como mercadoria. Não eram mais avás, não eram mais gentes, eram pás, enxadas, burros de carga, eram miséria.” Mito fundador tanto do Brasil quanto do próprio Rio de Janeiro, a Confederação dos Tamoios ganha sua devida representação contemporânea nas pinturas de Agrippina Roma Manhattan.

Ney Matogrosso (2023), de Laércio Redondo [Foto: Giovanna Lanna/ cortesia Galeria Flexa]
O Último Missionário (2024), de Agrippina Roma Manhattan [Foto: cortesia Galeria Flexa]

Outra materialização da reescrita sobre a mitologia do Brasil Colonial, na mesma sala, é A Revolta das Jubartes (2023), de Denilson Baniwa, que revisita uma pintura do século 18, Pesca da Baleia da Baía de Guanabara, atribuída ao artista Leandro Joaquim, substituindo a matança de baleias jubarte para extração de gordura, por um contra-ataque das baleias, que faz irromper, no centro do quadro, uma onda de Hokusai. A essa altura da leitura deste texto, você pode estar se perguntando “mas a reportagem não era sobre uma galeria de mercado secundário”? O que fazem obras de Denilson Baniwa e Agrippina Manhattan em uma exposição de mercado secundário?

A Flexa, concebida, sim, para operar no mercado secundário, com um acervo riquíssimo em termos de opções curatoriais para realizar diferentes e numerosas exposições relevantes sobre arte brasileira apenas não quer se furtar a seguir observando a cena, a produção artística e crítica dos jovens criadores que definem a relevância estética aqui e agora. “Não é por trabalharmos com mercado secundário que deixaremos de prestar atenção ao nosso próprio tempo”, afirma a diretora Luisa Duarte. Quem disse que uma galeria não pode reinventar suas funções? Quem disse que uma editora muito pequena não pode inventar seu público em uma feira de livros? Outros tempos, outras estratégias.

SERVIÇO
Rio: A Medida da Terra; em cartaz até 27/7
Galeria Flexa (Rua Dias Ferreira, 214, Leblon)
Segundas às sextas, 10h – 19h; sábados, 11h – 17h

A Revolta das Jubartes (2023), de Denilson Baniwa [Foto: Giovanna Lanna/ cortesia Galeria Flexa]