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Postado em 26/01/2024 - 7:40
Abertura de Processo nº1
Ian Uviedo abre brechas mnemônicas para contar a história de seu romance Dois por Engano (Diadorim, 2023)

Sendo a razão disso nada além da deterioração inerente à passagem do tempo sobre todas as coisas, no dia 8 de setembro deste ano – um sábado quente no meio do inverno – reparei que a padaria A Estrela, localizada a poucas quadras de onde moro, havia encerrado suas atividades. Tocado pela “melancólica vaidade” de que falou Borges, examinei a lâmina de madeira que encobria o batente da porta, vi os azulejos do piso dispostos do lado de fora e a pirâmide de entulho que dava um ar dramático à cena e pensei que isso – essa cena – poderia, por outro lado, ser o início de algo, o big-bang providencial para a história que eu gostaria de contar. A história de um livro. Sim, fui eu quem o escreveu, mas não procuro aqui acrescentar meu parecer na discussão contemporânea acerca da chamada “autoficção”. Não se trata de um relato autobiográfico nem de uma história inventada. Este texto pertence a um gênero invisível, não catalogado, daqueles que narram a história de um pensamento, a vida de uma ideia, mas que para isso precisam de um suporte contextual de imagens e lembranças de seu receptor.

É um autorretrato sem nitidez, feito com um filme que ficou muito tempo guardado e, no momento da revelação, se mostrou tomado por fungos na forma de um granulado maravilhosamente grotesco. É a passagem do tempo registrada, consciente e inconscientemente, num retrato que, para piorar, é o de um espelho embaçado.

Vou começar falando dela – de Vitória. Confrontado com A Estrela se tornando uma memória, a primeira coisa que me lembrei foi de uma tarde fria de outono, em que a luz do sol chegava filtrada pelo vapor de nuvens imensas, quando já nos conhecíamos há um par de meses e que, no entanto, persiste feito uma imagem inaugural, como se eu a visse pela primeira vez. É possível que fosse domingo ou algum dos dias de folga que sincronizávamos. Sentados em uma mesa na calçada d’A Estrela, quietos, analisávamos a arquitetura de uma casa térrea esverdeada como um lagarto num terreno cheio de bananeiras selvagens, ervas daninhas e uma trepadeira inclemente engolindo a placa de “Aluga-se”. Num gesto lento, Vitória enroscou o dedo indicador na asa de sua xícara de café e, um segundo antes de sorver o gole, me olhou, como se só então notasse minha presença. O que eu notava, todavia – e creio ser este o elemento que injete uma energia reveladora a este instante –, era a manga de seu suéter azul, o mesmo que usava quando a conheci, não em uma festa, não em um bar, não em um desses aplicativos, mas no metrô, na repetição cotidiana das baldeações que pode, muito raramente, acarretar alguma intimidade entre aqueles que estão dispostos a olhar ao redor sem se refugiar na tela do celular ou nas páginas de um livro, coisa que só deixei de fazer, pois, um dia, uma véspera de feriado em que eu estava louco para chegar em casa e passar a folga imerso nas páginas de Limonov, esqueci o livro no escritório e, emburrado, me deparei, no corredor entre a Linha Verde e a Amarela, com um par de omoplatas despontando por sob a lã azul-escura. Por mais que essa cena tenha se repetido muitas vezes antes de nós trocarmos a primeira palavra, decidi que em todas elas, para sempre, Vitória estaria usando esse suéter azul, esse desgastado suéter azul puído nas mangas e na gola, que depois eu descobriria ter pertencido ao pai dela. O que eu vi na calçada d’A Estrela, no entanto, quase se confirma. Quando Vitória me olhou, e seu olhar não durou mais de um segundo, logo abrindo espaço para o que se seguia, o gole de café, a expressão satisfeita, o bater do maço de cigarros no ferro da mesa, o que eu vi foi não seu rosto, e sim – certamente influenciado pelo suéter – a Sibila Délfica de Michelangelo: o desgosto sereno, os olhos na direção oposta das mãos, separando espírito e matéria, única forma de projetar o futuro, preparar-se para ele e anunciá-lo aos incautos, que, como na gravura da Sistina, olham para o outro lado, imersos em representações devoradas pelas sombras.

Tendo sido produzida por volta de 1509, não é disparatado supor que, assim como o restante do afresco, a representação da filha de Lâmia seja, à moda Renascentista, a reprodução aumentada de uma gravura muito mais antiga, tal como acontece com o Piquenique na Relva, de Manet, que na verdade amplia uma gravura de Rafael a partir do antigo sarcófago gravado por Marcantonio Raimondi na Academia Francesa de Arte. É o que Aby Warburg, o iconografista alemão, chamou de Nachleben e que se define como “a vitalidade de elementos da cultura arcaica presentes nas produções culturais contemporâneas”.

“Bem”, soltou Vitória depois de me escutar, “eu não sou uma produção cultural contemporânea. Sou uma pessoa.”

Rasgando um pedaço de pão com as mãos, respondi que, de fato, sob o ponto de vista orgânico ela não era muita coisa além de uma energia enlouquecida, mas que tudo o que vivíamos juntos – desde a noite anterior, pontuada pela cera das velas roxas que pingávamos em nossos braços e em nossas costas até o fato de eu achá-la linda com seu suéter azul, sua xícara de café e seus cigarros de filtro branco –, tudo, era resultado de uma equação complicadíssima de referências visuais e sensoriais, e que, na tal sociedade contemporânea, a vida era isso – uma produção cultural. Nada havia de novidade, de espontâneo, era tudo forjado: eis aí nossa sina e nossa graça.

“Em 2020”, e agora ela falava mesclando às nuvens densas os anéis de seu cigarro, “eu estava morando em Berlim. No começo de setembro, entre uma onda e outra da pandemia, houve a primeira exposição do Atlas Mnemosine remontado. Foi em um museu de Arte e Mídia. Como os diletantes do mundo não deixaram de alardear, sim, as imagens dos painéis eram menores do que supuseram os milhares de livros publicados sobre a obra de Warburg, livros teóricos escritos por aqueles que tiveram a capacidade de deixar estas imagens escorregarem ao longo de 90 anos nas mãos de bibliotecários e arquivistas entre as paredes pesadas das instituições culturais e patrimoniais inglesas para serem encontradas por um artista e um historiador que, espantados, ao menos revelaram ao mundo uma camada do Atlas que a história havia se encarregado de soterrar: a cor. É óbvio, as fotografias que Warburg mostrava aos seus alunos no térreo da KBW eram em preto e branco, e é engraçado que em nenhum momento isso tenha sido considerado um problema.”

Vitória apagou o cigarro contra a sola de sua alpargata e atirou a bituca na rua, quase atingindo um carro.

“Bem, suponho que eles tinham problemas maiores na época… não importa. É curioso pensar que a desaparição do material do Atlas se tornou quase parte da obra, uma performance da própria linguagem, já que as propagandas e os filmes utilizados como exemplos ‘contemporâneos’ por Warburg são hoje parte de uma cultura para nós arcaica.

A memória social, coletiva, opera por meio da progressão geométrica. Entre o século 16 e a primeira metade do século 20 há muito menos tempo do que entre a data de hoje e, digamos, 50, 25 anos atrás. O tempo dilata-se e, no entanto, aqui estamos, tomando café, e você me vê como a Sibila Délfica de Michelangelo – está bem, aceito, sou uma profetisa, mas e daí?”

O garçom trouxe a conta num pires.
“Qual a minha profecia?”

Dizer “8 de setembro deste ano” equivale a dizer “duas semanas depois que publiquei
meu último romance”. O título eu roubei de um texto de Galeano que quem me apresentou foi meu editor. Não faz diferença. Quando vi o princípio de ruína que pairava sobre a fachada da lanchonete A Estrela e recordei esse diálogo com Vitória – tentando ignorar o que se sucedeu: o apartamento de seu ex-namorado, o pianista canhoto que vivia numa água-furtada em frente à Alexanderplatz, o pranto que a acometeu ao ver o memorial em homenagem a Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, uma mulher no metrô amassando uma carta e delirando de tanto chorar –, levado pela palavra “mnemosine”, lembrei de um trecho do terceiro tomo dos diários de Piglia – “esquecer é uma arte como qualquer outra” – e de sua teoria acerca do esquecimento por associação, distinguindo o “esquecer compulsório” dos governos ditatoriais latino-americanos das águas do Letes, onde o esquecimento é orgânico. Passei disso a relembrar do impulso natural do autor argentino, desde os 16 anos de idade, de esmiuçar em seus cadernos tudo quanto pudesse resgatar das experiências vividas. Depois de afirmar para mim mesmo mais uma vez a importância de Piglia em minha formação e de desviar lentamente das memórias de meu corpo em relação a esses diários – o segundo tomo que li abatido pela dengue, numa licença de duas semanas que passei na cama; o terceiro, lido na chácara da família de uma ex-namorada, envolto pelo canto dos pássaros e pelo ruído monótono do filtro da piscina, as tantas doses de cachaça, taças de vinho e copos de cerveja que coroaram essas leituras –, comecei a pensar em meus próprios cadernos.

Ainda não estava convencido de que era uma coisa natural, após enviar a versão final do romance para meu editor, abrir esses diários e descobrir, com espanto, que muitas passagens haviam sido experienciadas e inspiradas em vivências reais minhas. Suponho que, enquanto as escrevia, sabia de onde provinham, mas, no instante em que as realoquei ao campo da ficção, de alguma forma também foram formatadas de minha memória, vindo me surpreender como garranchos cuspidos pelo passado. Eram, portanto, inscrições reais. Tratei de enviá-las ao meu editor, que não se entusiasmou tanto quanto eu, e foi só quando, dias depois, me deparei com três imagens “reais” quase consecutivamente e segui reportando-as a ele, que enfim me perguntou: “De onde vêm esses fantasmas?”

“Ora”, respondi, “eles estão por toda a parte.”

O primeiro sintoma da manifestação do romance no mundo que se sucedia a ele foi um pacote de suspiros. Antes de prosseguir – e aqui estou tentando ao máximo encarar meu livro como algo distante de mim, antes um alvo de reflexões propositivas, não introspectivas –, preciso informar que dois personagens, digamos, importantes, possuem os nomes de “Lissa” e “Flores” – e é só o que direi. Estas palavras não são um paratexto em relação ao livro, um apêndice, não, são órgãos de um texto outro, movimentado pelos seus próprios propósitos, pedindo em troca disso apenas um pouco de contexto.

Enquanto a camada de ozônio era perfurada por gases como um corpo crivado de balas, eu caminhava sob um sol radioativo na Santa Cecília. Minha amiga Hígia vinha comigo e, estonteados pelo calor, entramos numa confeitaria para que ela comprasse um sorvete de limão. E foi ali que, aproveitando as benesses do ar-condicionado – que contribuía, é claro, para o superaquecimento do planeta –, que vi um pacote de suspiros da marca “Lissa”. Comprei-o e, quando enviei a foto para meu editor, ele achou graça e disse “agora sabemos qual o futuro da tua personagem”.

“Sim”, respondi. “Ela se tornou um suspiro.”

Poucos dias depois, num domingo também atingido pelas ondas ferventes, em que os prédios brancos se tornavam chapas luminosas, Vitória e eu fomos a uma feira comprar plantas – sobre o balcão da barraca, pacovás, lambaris e sete-ervas disputavam espaço – e vi um caminhão estacionado na esquina, com a carroceria amarela, que trazia inscrito na boleia a palavra “flores”. Igualmente, enviei a foto ao meu editor – mas creio que ele só fez algum comentário a respeito do calor. De fato, era difícil pensar em outra coisa. O que o impactou de verdade, e o fez perguntar sobre a procedência de meus fantasmas, foi a mesma coisa que me tirou do eixo, deslocando-me da realidade por alguns segundos e que me fez começar a pensar em tudo isso e a escrever este texto. Parado em frente à minha estante de livros, selecionei meio por acaso a edição da Anagrama de um livro de Zambra, chamado Tema Libre. Como todos os demais títulos da coleção, o livro é lindo, a capa branca com desenhos pretos. Ao abrir na primeira página, deparei-me com uma dedicatória, algo que eu havia esquecido completamente:

Em toda cidade da América Latina haverá um (com sorte, bem mais de um) jovem a escrever poemas, a compor músicas, a desenhar corpos, a se sentir só (e louco, muito louco), a sentir raiva do governo, a acreditar – embora não o tempo todo – que sua arte pode mudar um pedacinho do mundo.
Um brinde a esses jovens e que eles nunca morram dentro da gente.

Com muito carinho,
Lissa

Escrita com uma Bic azul, a mensagem traz ainda um pequeno coração desenhado. A pessoa que me presenteou com o livro não se chamava Lissa e o fato de eu ter encontrado esta mensagem do passado nesta sequência de aparições fez com que a dedicatória se tornasse uma mensagem enviada a mim pela minha personagem de um outro mundo, um mundo que é tanto o dos personagens quanto o dos afetos prescritos – o mundo dos mortos. Composto pela matéria do esquecimento, é uma parcela de tempo localizada sempre no devir, pousando de forma retrospectiva seus tentáculos pegajosos sobre tudo, a pessoa que assinou como “Lissa”, a dedicatória no livro de Zambra e que começa a se apossar de Vitória. Todas as imagens: Vitória segurando uma taça de vinho e uma caneca de café, andando pé ante pé em meu apartamento, medindo-o como se andasse sobre uma corda bamba para depois gritar: “Treze passos!”; Vitória se agarrando ao lençol e ao tecido de minhas costas enquanto pingo a cera quente de uma vela preta em sua coxa; Vitória com a camiseta do Corinthians mordendo a ponta de uma almofada em frente à televisão; Vitória e eu dançando de forma esquisita o forró de uma loja de discos – todas as imagens consumidas pelo mundo dos mortos como fotografias consumidas pelo fogo, misturando rostos, trajes, gestos e histórias à renúncia das cinzas. Vitória ficando para trás como tudo, neste queimar iluminando um futuro incerto, tomado pelas minhas obsessões, contradições e traumas. Um futuro contaminado, doente e imprevisível como um estranho sonho a envolvendo, bem como meu livro, os lançamentos, as viagens, as canções tristes e as bebidas fortes. A vida e o tempo se comportando como duas linhas paralelas arrastando tudo à sua passagem, sem negociações, colocando-me na ponta da borracha que apaga sentenças inteiras sem nem sequer se importar com a história que estava sendo contada. E qual era?

Vamos falar sobre a chuva. Sobre uma noite de chuva, em que o céu cedeu de maneira inesperada às trovoadas e aos relâmpagos de uma tarde abafada.

Meus editores e eu tínhamos marcado um encontro na casa de Rafael, fotógrafo que fez a capa do livro, para produzir o retrato da orelha. Sentado com meu suéter preto e minha calça social, descalço, sendo fotografado, me senti estranho, deslocado. Mais tarde, conversando sobre linguagem fotográfica, Rafael me apresentou a fotógrafos que eu não conhecia, e um deles, Joel Meyerowitz, me impressionou. Um de seus livros, Wild Flowers, traz uma coleção de imagens aparentemente desconexas unidas por um único fio: de alguma forma, a presença das flores, de maneira mais deliberada ou mais oculta, se faz notar, seja no chapéu enfeitado de uma vedete num desfile, seja na estampa de um lençol a cobrir o batente da porta de uma casa caindo aos pedaços. Sim – “Flores” por toda parte, vim a entender depois, enquanto desfiava os parágrafos que precedem este. E foi quando fechamos a capa do livro, enchendo de significado as faixas de pedestres e as sombras alongadas no asfalto, que a tempestade desabou.

Em silêncio, escutei a história de como minha editora e Rafael haviam se conhecido. Noites habitadas por uma ternura improvável no Sul do país, um episódio de risadas convulsivas num café em Montevidéu e a faculdade de audiovisual em Cuba – parte que me chamou a atenção: há um capítulo do romance que se passa em Havana e é justamente sobre cinema, imagem, som, movimento. Pensando nisso, cheguei até um texto de César Aira, uma pequena preciosidade chamada Em Havana, em que o escritor argentino começa narrando a visita que faz ao museu em homenagem a Lezama Lima que fica na casa onde o poeta vivia. Aira entra no museu meio por acaso, bem no instante em que vai começar uma visita guiada. Durante todo o passeio, a mulher que conduz o grupo se detém em alguns objetos e diz “foi esta a caneta que Lezama Lima descreveu no poema tal”, “é este o vaso que é descrito no ensaio tal”. Então Aira se pergunta se deveria dizer a ela que existem muito mais coisas que um escritor pode fazer com uma imagem além de “descrevê-la”. Quando li esse trecho foi que comecei a reunir os objetos – o pacote de suspiros, a fotografia do caminhão de flores, os artigos sobre Warburg, os diários de Piglia, os meus próprios, o livro de Zambra, as flores de Meyerowitz e outras coisas que ficaram de fora desta primeira “abertura de processo”, como Vitória me ensinou a chamá-la, e que continua, mesmo quando este relato chega ao fim, me espantando; talvez, agora que estas palavras foram escritas, eu possa continuá-las. Talvez não. Fato é que algo está chegando no fim, ainda que eu não tenha sido capaz de amarrar nada, apenas esboçar alguns eventos minúsculos que me intrigam e encantam enquanto tudo – das estrelas À Estrela, tudo – parece estar sumindo.

***

Agora são quase nove e meia da noite de uma terça-feira quente e com cheiro de chuva. Escrevo de bermuda, sem camisa, enquanto escuto The Moldy Peaches e busco as rajadas de vento que vêm da praça. Sábado começou a primavera e a previsão para amanhã é de muito calor e tempestades isoladas. Penso nisso: tempestades isoladas. Vitória esteve aqui ontem. Pressinto rastros da sua presença na forma que o pacová se insinua na porta e a sete-ervas, na janela do banheiro, retém pingos de água. Vitória esteve aqui ontem, talvez pela última vez. Novamente a solidão adocicada, ambígua. Novamente a linguagem do amor se perdendo ou se transformando em outra coisa, objeto de colecionador ou arquivo por tanto tempo oculto nas gavetas de instituições herméticas. Novamente a dúvida se tempo mais vida é igual a futuro ou se tempo mais vida é igual a passado. Novamente a dificuldade de largar um texto, abandoná-lo quando tudo ainda está solto, flutuando. Novamente intrigas, conflitos, chateações e dores musculares. Novamente você sozinho no estúdio, apartado de todos, escrevendo, escrevendo. Novamente – o fim de algo.

primavera 2023
são paulo, sp