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Detalhe da obra Parede da Memória (1994-2015), de Rosana Paulino (Foto: DIvulgação)
Postado em 13/04/2023 - 2:00
ANARQUIVAR, DESESQUECER
Márcio Seligmann-Silva lança obra sobre o “trabalho de testemunho”, composta sob as sombras da pandemia e do bolsonarismo

Curador das exposições Hiatus (Memorial da Resistência, 2017) e MemoriAntonia (Ceuma-USP, 2021), com importantes contribuições para os estudos literários e culturais, o professor Márcio Seligmann-Silva aponta, em livro recém-lançado pela Editora da Unicamp, o testemunho como fator determinante da “virada decolonial” nos estudos culturais e historiográficos.

Em 12 ensaios encadeados com coesão evidente, além da apresentação, introdução e palavras finais, o testemunho não é pensado como um gênero textual nem como um objeto de investigação sociológica, mas como a força expressiva pela qual o real irrompe nas obras. Entenda-se por “real” não o objeto da representação naturalista, mas a reverberação traumática que permeia a narrativa, escapa ao arcabouço simbólico e não se apresenta senão por meio da “tentativa de apresentação do inapresentável”. Seligmann-Silva chama de “teor testemunhal” a expressão de aspectos emocionais enraizados na memória profunda, que restitui às obras de arte um “esteio de realidade”. Não se trata, portanto, de gênero específico, mas de uma chave de leitura que permite quebrar os paradigmas eurocêntricos impregnados nas “belas-letras” e “belas-artes”. Segundo o autor, o “real irrompeu fazendo desmoronar as formas tradicionais da literatura e das narrativas. A esse abalo denomino aqui virada testemunhal”.

Seligmann-Silva considera a filosofia da história, de Walter Benjamin, como uma “escola do olhar” e demonstra sua importância para a “crítica da colonialidade”, apesar das limitações vividas pelo filósofo, morto prematuramente durante a fuga do nazismo. Em lugar do olhar direcionado para um futuro radioso, para o “ideal dos descendentes libertos”, Benjamin propõe a busca pela “imagem dos antepassados escravizados”. Esta seria, segundo Seligmann-Silva, uma “virada copernicana do saber histórico”, ou a “virada do anjo” em alusão à gravura Angelus Novus (Klee, 1920), comentada em Sobre o Conceito de História (Benjamin, 1940). O anjo recolhe os escombros da catástrofe histórica, assim como o poeta rememora os nomes dos mortos. A perspectiva crítica reivindicada por Seligmann-Silva a partir de Benjamin pretende “escovar a história a contrapelo”, isto é, evidenciar a
“barbárie” existente em cada “documento de cultura”.

A escrita de A Virada Testemunhal e Decolonial do Saber Histórico (2022) por vezes mimetiza o teor testemunhal que pretende circunscrever, investindo- se a contrapelo, no sentido oposto da norma objetivista dos estudos acadêmicos convencionais. Enquanto décadas de pesquisas se condensam, Seligmann-Silva aponta a exemplaridade da situação brasileira, em que o negacionismo e a necropolítica passaram a ser praticados de modo mais explícito no espaço institucional. Em meio à aguda crise, o autor entrevê uma virada: “A poderosa e sempre reafirmada noção de uma continuidade do progresso como algo positivo tem uma oportunidade única de sofrer a mais profunda crítica no momento em que vivemos. E, se sobrevivermos a esta pandemia, poderemos, a partir dessa crítica, abrir as portas para outros modelos de convivência inter-humana e com não humanos.”

TEOR TESTEMUNHAL NA ARTE
Explicações sobre trauma e memória municiam estudos sobre Na Colônia Penal (Kafka, 1919), Grande Sertão: Veredas (Rosa, 1956), A Nova Ordem (Kucinski, 2019) e, em especial, Memórias de um Sobrevivente (Mendes, 2001), relato autobiográfico sobre a “vida urbana e suburbana paulista nos anos 1960-1970”, que narra, do ponto de vista do preso comum, o “efeito da onipresente tortura no presídio da Avenida Tiradentes”. Os entraves para o “trabalho de testemunho” a respeito dos crimes praticados por agentes dos órgãos de segurança a serviço daditadura cívico-militar brasileira são uma preocupação constante do livro e três ensaios dirigem-se especificamente para esta questão sensível e urgente. Exemplo de “memoricídio” seria, segundo o autor, a presença discreta do Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos (Ricardo Ohtake, 2014), que ele elogia, em meio ao “triângulo da memória paulista”, formado pelos monumentos triunfalistas ao descobrimento, às bandeiras e aos mortos na revolta de 1932. O autor menciona o Memorial dos Veteranos do Vietnã (Maya Lin, 1982) como exemplo positivo de rememoração: “Andamos acompanhando a cronologia dos mortos, descendo uma depressão cavada no parque Constitution Gardens como se adentrássemos uma ferida aberta”. Uma “virada mnemônica ética” compreenderia a “guerra de memória e de imagens” contra monumentos colonialistas, como o protesto contra o Borba Gato em São Paulo, e a linguagem dos “antimonumentos”: “Tanto o testemunho como o antimonumento são marcados pela fragmentação, uma visão mais humanizada e quente da história, mais próxima da memória do que da historiografia, uma visão do ponto de vista dos vencidos e dos mortos, uma estética do efêmero e não do triunfo eterno”.

Os “artistas do (des)esquecimento” combatem a “aliança entre os dispositivos estético e colonial” com um “dispositivo político que visa uma catarse que tem por objetivo não tanto uma cura, mas sim o despertar para o outro”. Seligmann-Silva menciona Cicatriz (Rosângela Rennó, 1996-2003), a Documenta XI (2002), Traces of Violence (Brodsky, 2021) e From Here I Saw What Happened and I Cried (Weems, 1995) como exemplos do “momento testemunhal” na arte. Parede da Memória (Rosana Paulino, 1994) recebe uma análise mais extensa e figura na capa e contracapa do livro. Com centenas de “patuás” formados a partir de 11 retratos, a artista cria uma “versão contemporânea afro dos lugares de memória da mnemotécnica” e, na síntese dos gestos da fotografia, da costura, da memória da família e da origem africana, “torna-se quem dá as cartas na cena de apresentação dos corpos negros”.

O teor testemunhal na arte e na literatura é crucial para uma “virada ética da rememoração”, uma vez que os “genocidas são memoricidas” e, restrita ao campo das provas documentais, a luta para desconstruir “imagens do esquecimento” reproduz a “lógica do carrasco”. Uma “poética do testemunho”, porém, daria um “passo para fora do arquivo”. Sem essa “catarse”, não criaremos as condições para quebrar o “silêncio da história”, que repete os “crimes de lesa-humanidade”.

A Virada Testemunhal e Decolonial do Saber Histórico
2022
Márcio Seligmann-Silva
Editora da Unicamp
368 págs.
R$ 98