Tudo parte do milímetro quadrado em uma folha de papel milimetrado. O primeiro intuito da exposição Modus Operandi é mostrar cálculos, desenhos preparatórios, estudos e maquetes a partir dos quais Regina Silveira opera suas projeções sobre o mundo. Mas isso é só o começo. Se percorrer as duas salas do Instituto de Arte Contemporânea e visualizar a mecânica mental que produz os esgarçamentos de objetos do mundo, entendemos afinal que a verdadeira escala do modo de operação de Regina Silveira é a torção do real.
O procedimento revela-se com clareza nas séries de sombras de objetos cotidianos que, ao serem dilatadas e distorcidas quando projetadas nas paredes e pisos de espaços expositivos, tornam-se subitamente ameaçadoras. Sombras são “a porção intangível, inescrutável das pessoas, o irracional e o fantasioso constitutivo de tudo”, escreve o curador Agnaldo Farias em Modus Operandi ou Cálculo das Aparências. Nestas salas que se confundem com o espaço mental da artista – nas quais planilhas dissecam procedimentos de conversão de controle em descomedimento –, o imprevisto, aquilo que escapa ao projeto, revela-se uma condição recorrente da temática e da pesquisa da artista.
Pragas, pestes, pandemias, cataclismos ambientais e violência urbana escapam do projeto de normalidade. Ainda vivemos o “novo normal” pós-pandêmico? Corredores para Abutres (2020) escapa do projeto. Nesta série de 11 objetos de pedra ardósia impressos com gravação digital, uma das joias reveladas na exposição, a artista elabora 11 planos de voo para esses pássaros de rapina que se alimentam de cadáveres e que, portanto, habitam as sombras da sociedade. Ao contrário dos outros trabalhos aqui expostos, estes são a obra final, e mostram que o esquema, a planificação gráfica não é só caminho, mas é fim na obra de Silveira.
Corredores para Abutres, assim como Paisagem (2021), instalação composta de um labirinto de vidros transparentes impressos com imagens de tiros – presente na exposição com uma maquete e um adesivo vinílico na parede –, é aquilo que Isabella Lenzi, curadora da grande retrospectiva da artista no Centre de la Imatge La Virreina em Barcelona (até março de 2025), definiu como “destructuras de poder”. O mesmo se aplica a outro trabalho em grande escala e importância, realizado em 2024 pela artista, uma inundação seguida de incêndio projetada em um aqueduto romano no sul da França. Uma catástrofe climática “impressa” em videomapping. Projeções mentais. Sombras. Desestruturas. Sinais dos tempos.
SERVIÇO
Regina Silveira – Modus Operandi, até 30/8/25
IAC, Av. Dr. Arnaldo, 120, São Paulo
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