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Aracy Amaral. Foto: André Seiti
Postado em 15/09/2026 - 12:03
Aracy Amaral (1930 – 2026)
Morre a crítica Aracy Amaral, referência maior da arte brasileira – da pré-história, à arte moderna e contemporânea

Quando assinou a curadoria do 34º Panorama da Arte Brasileira do MAM SP, há dez anos, Aracy Amaral escolheu falar da paisagem artística contemporânea por meio de um olhar para a arte pré-histórica. Com este statement, a maior especialista em modernismo brasileiro e uma pioneira na curadoria de novas mídias no Brasil anunciava um movimento que apenas começava a surgir: o diálogo entre a arte contemporânea e a arte dos povos originários da América. Desde a publicação da pesquisa de Mestrado As Artes Plásticas e a Semana de 22 (1969) até o livro Arte e Sociedade: Uma Relação Polêmica (2003), a crítica, curadora e historiadora da arte foi a referência maior para pensar a arte de nosso tempo. Aracy Amaral faleceu nesta madrugada de 15/9/2026, em casa, aos 96 anos. 

Aracy sempre foi pioneira. Até radialista ela foi. Praticamente inventou o podcast de arte. Em 1972, ela popularizou a crítica de arte no programa de rádio “Vamos falar de arte?”, na Jovem Pan. Na entrevista que deu à revista celeste, ela falou sobre a alma do negócio: “Acontece o seguinte: quando você fala bem, ninguém te procura. Agora, quando você fala mal ou põe em dúvida a excelência de uma exposição, as pessoas caem em cima, entende?”

“Uma vez, o Bardi achou que eu falei mal de uma exposição no MASP – acho que falei mesmo – e foi para o Paulo Machado de Carvalho, que era o dono da Jovem Pan, dizer que queria a fita da minha gravação. E o Paulo foi muito legal, falou: o comentarista aqui tem direito a falar o que quiser. Não dou a fita pra ninguém, nem pro senhor Pietro Maria Bardi”, disse Amaral. 

Aracy foi a enciclopédia e o arquivo vivo da história da arte brasileira. É difícil resumir sua atuação em uma única palavra, mas “pesquisadora” talvez seja a que mais chega perto de dar conta da abrangência de sua trajetória, que perpassou os campos da curadoria, docência, crítica, jornalismo, gestão de instituições culturais e mais.  

A paulistana formou-se em jornalismo pela PUC-SP, em 1959, mas sua aproximação com o circuito de artes visuais se deu quando visitou a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, ainda como estudante. Em 1953, atuou como monitora da 2ª Bienal e, posteriormente, passou a escrever sobre as exposições.

No campo da museologia, iniciou ainda na década de 1960, quando foi assistente de direção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). A experiência seria seguida pela direção de importantes instituições museológicas. Entre 1975 e 1979, esteve à frente da Pinacoteca do Estado de São Paulo como diretora técnica, período em que contribuiu para renovar o perfil da instituição, ampliando sua perspectiva para além do âmbito nacional e fortalecendo a integração latino-americana. Entre 1982 e 1986, retornou ao MAC-USP, desta vez como diretora técnica.

Dentre as históricas exposições que realizou, além das já citadas aqui, estão Tarsila: 50 anos de Pintura, em 1969; Modernidade: Arte Brasileira do Século XX, apresentada em Paris em 1987; a incontornável 1ª Bienal Latino-Americana de São Paulo, em 1978; 1ª Trienal do Chile, em 2009, e a 8ª Bienal do Mercosul, em 2011. A mostra Expo-Projeção 73, também merece um destaque à parte. A exposição de 1973 ocorreu na sede do Grife (Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais), em São Paulo, e reuniu cerca de uma centena de trabalhos de artistas que experimentavam com novas mídias, que na época incluíam audiovisuais com slides, obras sonoras e filmes em Super-8 e 16 mm. Foi a primeira exposição institucional dedicada à imagem em movimento e às mídias experimentais no Brasil desde que Walter Zanini começou a estimular a experimentação com elas no MAC-USP.

Não podemos deixar de dizer que a sobrinha-neta de Tarsila do Amaral dedicou parte significativa de sua pesquisa à produção da pintora, que resultou no livro Tarsila: Sua Obra e seu Tempo (1975), referência nos estudos sobre a modernista, e em sua participação na supervisão do catálogo raisonné de Tarsila.

Entre os diversos reconhecimentos recebidos ao longo de sua carreira, foi contemplada com importantes prêmios: em 1982, recebeu o Prêmio Jabuti por A Hispanidade em São Paulo; em 1984, o Prêmio Gonzaga Duque, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA); em 1991, a Medalha Rodrigo Mello Franco de Andrade; em 2006, o Prêmio Fundação Bunge na área de Museologia; e, em 2012, o Prêmio Governador do Estado de São Paulo pela curadoria de Exercícios de Olhar. Sua trajetória também foi reconhecida internacionalmente com a John Simon Guggenheim Fellowship, em 1977.

Um dos comprometimentos mais generosos que já tivemos com a produção cultural latina-americana, bem como para suas instituições, merece todas as homenagens do mundo. 

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