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Vista da ArPa 2025. Foto: Taurina Filmes
Postado em 20/05/2026 - 1:07
ArPa 2026: Modelo expositivo em que menos é mais
5ª edição da ArPa chega ao Mercado Livre Arena Pacaembu consolidando modelo expositivo com assinatura curatorial e destaque para projetos solos ou diálogos

“Talvez a ArPa não seja para aquele tipo de colecionador que só procura, digamos, obras de arte de grande prestígio e artistas consagrados no mercado, mas certamente é para o colecionador que tem verdadeira curiosidade e paixão por apreciar e colecionar arte”, afirma Ana Sokoloff em entrevista à celeste. Pelo segundo ano consecutivo, a curadora e consultora de arte colombiana radicada em Nova York assume a curadoria do setor UNI da 5ª edição ArPa, que ocupa de 27 a 30 de maio a Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo.

Desde sua primeira edição, o UNI confere uma identidade e um diferencial feira dirigida por Camila Barella, ao propor estandes com exposições solo, concebidas por um curador convidado. Há duas edições este cargo é ocupado por Sokoloff, após terem passado pela cadeira os curadores Ana Beatriz de Almeida, José Esparza Chong Cuy e Germano Dushá. Sob a condução da colombiana, o setor retoma este ano diálogos com a arte moderna e contemporânea latino-americana na mostra intitulada Formas da Continuidade.

No texto curatorial, Sokoloff afirma que o setor se estrutura por meio de relações visuais – mutáveis –, e não se rege por uma tese curatorial fixa. Ao selecionar 14 artistas de diferentes gerações e geografias latino-americanas, a curadora explica que seu critério é o agrupamento de trabalhos “por sensibilidade”. Outro aspecto determinante do setor é servir como uma plataforma de apresentação de novos expositores e de artistas ainda pouco conhecidos no mercado, criando “uma espécie de diálogo de descoberta para todos nós”, completa a curadora. 

Obra de Gisela Eichbaum. Foto: galeria MaPa
GRANDE PARTE DOS EXPOSITORES OPTAM POR ESTANDES SOLOS OU DIÁLOGOS ENTRE DUAS OBRAS, QUE POSSAM CONTEMPLAR A PESQUISA DOS ARTISTAS DE FORMA MAIS ABRANGENTE NO CURTO ESPAÇO DE TEMPO DA FEIRA

Com projetos comissionados e obras em grande escala produzidas especialmente para a ocasião, os artistas participantes trabalham com pintura, escultura, têxtil e instalação. Apesar das diferenças conceituais e materiais, as obras compartilham a vontade investigativa em torno dos meios de construção da imagem.

A curadoria observa também figuras históricas a partir de uma perspectiva contemporânea. Caso daartista alemã radicada no Brasil Gisela Eichbaum, da MaPa, e de Santiago Garcia Saenz, representado pela galeria argentina Hache. Eichbaum manteve, ao longo da segunda metade do século 20, um diálogo contínuo com as tradições modernistas europeias e o experimentalismo brasileiro, consolidando-se como um nome fundamental, porém não tão evidente, da abstração lírica no país. Já Garcia Saenz, que converge em sua obra o desejo queer, a iconografia religiosa e a ideia de mortalidade, tem a produção revisitada na ArPa 20 anos após a sua morte. 

Obra de Santiago Garcia Saenz. Foto: galeria Hache

Em paralelo, Rodolfo Pitarello, da paulistana Pilar, se debruça sobre técnicas tradicionais da história da arte como a têmpera, para expandir a abstração em narrativas codificadas. Esses registros simbólicos também aparecem na prática do carioca Renan Andrade, da ORA, centrada na memória e na identidade afro-brasileira. Questões de ancestralidade atravessam ainda as “tapeçarias afetivas” de Bernardo Liu, da Refresco, e a obra de Kiván Quiñones Beltrán – da estreante de Porto Rico, Pérez Puig – que mescla arquivo, fragmentos históricos e objetos encontrados. Já Gi Monteiro, da CAVE Galeria, aborda a memória da diáspora africana e o corpo trans como espaço de disputa.

Kiván Quiñones Beltrán. Foto: Pérez Puig
Gi Monteiro. Foto: CAVE Galeria

Na conversa com a celeste, a curadora também reflete sobre obras autorreferenciais que retratam a cacofonia cultural do mundo atual. Em seu universo pictórico, o jovem artista Antonio Kuschnir, da WG Galeria, combina autobiografia com experiências coletivas. Por sua vez, Gabriel Pessoto, da Luciana Caravello, elabora narrativas sobre desejo e vulnerabilidade, trabalhando com têxteis. 

Distorção de perspectiva 2024, de Gabriel Pessoto. Foto: Estúdio em Obra/ Luciana Caravello

A exposição se expande ainda com as práticas escultóricas e orientadas pela materialidade de Estevan Davi, da Vermelho, Milena Ferreira, RV Cultura e Arte, e Raphael Tepedino, da Central, cujos trabalhos dialogam com arquitetura, resíduo, teatralidade e os materiais cotidianos. Completam o setor as artistas Ana Sario, representada pela Marcelo Guarnieri e Juliana Bernabó, da Pena Cal.

“Ao revisitar certos cânones, pensei em partir de uma produção ligada à abstração e à tradição moderna, mas sem a rigidez formal frequentemente associada a ela, para chegar a obras mais livres, tanto no campo da composição quanto conceitual, e também mais autorreferenciais. Foi desse movimento que o projeto começou a tomar forma. E essa aproximação acaba produzindo uma leitura mais ambígua e aberta das obras”, diz Ana Sokoloff.

Estevan Davi. Foto: Cortesia da galeria Vermelho

SOLO OU COLETIVA?

Dos projetos especiais ao setor principal – que este ano conta com mais de 60 galerias participantes –, Camila Barella, fundadora e diretora da ArPa, diz que a feira deseja propor um novo ritmo e modelo expositivo, uma vez que direciona as galerias a mostrarem um número limitado de artistas por estande. A regra é que, dependendo do tamanho de cada espaço expositivo, a galeria possa exibir entre um e três artistas, abdicando da ideia de expor a amplitude do programa da galeria no estande. Menos é mais. 

Nesse contexto, grande parte dos expositores optam por estandes solos ou diálogos entre duas obras, que possam contemplar a pesquisa dos artistas de forma mais abrangente no curto espaço de tempo da feira. “Queremos que a ArPa proporcione uma experiência menos frenética e superficial e mais acolhedora e aprofundada, para que as pessoas realmente tenham tempo de conversa, apreciação e aprendizado dos trabalhos”, comenta Barella.

Na TEFAF e Frieze New York, que movimentaram o circuito norte-americano na última semana, apenas cerca de 10% dos galeristas optaram por estandes individuais. A jornalista Annabel Keenan observou, em artigo publicado no The New York Times, que os projetos solo tendem a ajudar os visitantes a concentrarem a atenção em um único artista, em vez de se sentirem sobrecarregados em meio a uma semana com diversas aberturas de exposições, eventos paralelos e outras feiras no calendário.

Galerias nova-iorquinas que já trabalharam em outras feiras com essa abordagem menos convencional apontaram, na reportagem, os motivos variados pelos quais os estandes individuais persistem: além de ampliarem a visibilidade dos artistas, o formato favorece as conexões institucionais e a impressão de um projeto coeso, semelhante ao modelo expositivo institucional do museu. A Frieze, inclusive, inaugurou neste ano a seção Focus [Foco], com curadoria de Lumi Tan, dedicada a exposições individuais de artistas organizados por galerias emergentes – do qual participou a brasileira Central –, similar à proposta do UNI.

NA TEFAF E FRIEZE NEW YORK, QUE MOVIMENTARAM O CIRCUITO NORTE-AMERICANO NA ÚLTIMA SEMANA, APENAS CERCA DE 10% DOS GALERISTAS OPTARAM POR ESTANDES INDIVIDUAIS

A ArPa abraça esse modelo desde 2022 e ele acaba prevalecendo entre as galerias presentes no setor principal da 5ª edição. “A feira ganha muito em qualidade, porque é um esforço coletivo – fazemos a nossa parte nos convites estratégicos aos galeristas – mas também dependemos do empenho das galerias, que amadureceram os projetos especiais e inéditos ao longo dos anos de participação na ArPa”, completa a diretora.

Birds, 2026, de Ottavia Delfanti. Cortesia da artista e Danielian

Entre os diálogos interessantes que poderão ser vistos no Pacaembu na próxima semana, a Danielian, reúne obras inéditas da artista Ottavia Delfanti com a série Ibiza, dos anos 1960, de Frans Krajcberg. Em ambos os trabalhos, o suporte opera como agente ativo e as fontes materiais, apesar de opostas, ativam mecanismos similares de transparência, opacidade e sobreposição. Recém inaugurada no Jardins e estreante na ArPa, a Mazzucchelli Cardoso, também propõe um diálogo entre duas artistas – Heloísa Franco, que explora composições por meio da erosão da matéria, e Noara Quintana, que participou do 38º Panorama da Arte Brasileira, do MAM São Paulo – e investiga o legado do imaginário colonial na construção da superfície. O duo formado por Alex Červený e Joseca Yanomami é a aposta da Almeida & Dale, reunindo uma seleção inédita de trabalhos que se aproximam ao olhar para a ecologia e a representação de humanos e não humanos.

Já entre os estandes solo, a Fortes D’Aloia & Gabriel exibe um site-specific de Rodrigo Matheus, que descola a funcionalidade de materiais orgânicos e industriais para criar cenas de paisagens pré-históricas, pinturas rupestres e naturezas-mortas, feitas com espículas de aço e cabelo sintético. E a Pinakotheke apresenta um conjunto de objetos e assemblages de Farnese de Andrade, em diálogo com a exposição Surrealismos: Arte para Além da Razão, em cartaz na nova sede da galeria em São Paulo, inaugurada no último sábado 16/5. Já a DAN Galeria revisita Dionísio Del Santo com cerca de 45 trabalhos da figura singular da abstração geométrica brasileira.

Magma, 2025, de Rodrigo Matheus. Foto: Eduardo Ortega. Cortesia do artista e Fortes D’Aloia & Gabriel
Obra de Noara Quintana. Cortesia Mazzucchelli Cardoso

Questionando a estabilidade da tela por meio da cor e da percepção espacial, os artistas Wolfram Ullrich e Felipe Pantone convergem a participação ativa do público no estande da Raquel Arnaud. As argentinas Isla Flotante e Calvaresi se unem em um estande único e uma leitura expandida sobre a pintura latino-americana, do realismo de cenas domésticas da artista do século 20, Dignora Pastorello, a construção geométrica e campos cromáticos de Mariela Scafati. Outra estreante de Caracas, a galeria Carmen Araujo Arte, chega à feira com dois pintores venezuelanos, Augusto Villalba e Juan Iribarren.

Por fim, a Mitre realiza uma conversa em três tempos entre as cerâmicas de Benedikt Wiertz, o ferro e a fuligem nas instalações de Luana Vitra, e as pinturas com pigmentos naturais de Marcos Siqueira. A Athena e a Verve conectam Rio e SP em mais um estande colaborativo, no qual pensam a articulação entre a obra de Antonio Dias, Felippe Moraes e Gustavo Prado.

O modelo expositivo com assinatura curatorial dentro das feiras consolida-se como um dos caminhos para ressaltar a maneira como curadores, instituições e, consequentemente, o próprio mercado têm olhado para a arte contemporânea. Com foco na qualidade dos programas apresentados pelos expositores, bem como nos setores e projetos especiais, a 5ª edição da ArPa promete evidenciar isso no circuito latino-americano.

SERVIÇO

ArPa Feira de Arte 2026
27 a 31 de maio
Mercado Livre Arena Pacaembu
Rua Capivari (Portão 23)

Matemática dos espíritos minerais 6, 2024, de Luana Vitra. Foto: Cortesia da artista e da Mitre Galeria