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A liberdade é azul (2023), de Igor Rodrigues [Foto: Nicolau Almeida]
Postado em 18/09/2023 - 1:39
ALGUÉM INDICA O IGOR RODRIGUES PARA O PRÓXIMO PRÊMIO PIPA?
O cintilante artista baiano Igor Rodrigues e outros destaques da 13ª ArtRio

Viver da venda da própria obra talvez seja a ambição da maioria dos artistas. Entre os que estão em início de carreira, deve ser ainda mais. Ainda não deu tempo de ficar exaurido pela máquina do comércio, nem de desromantizar o significado de sucesso para um artista.

As vendas trazem novos problemas. Um frequente é a expectativa. Como em qualquer mercado, o equilíbrio entre a novidade e a repetição é ouro. Um novo trabalho será sempre submetido à comparação com os antigos e os dos outros. Não se reinventar pode ser um risco diante das novas tendências e de si mesmo. Para quem encontrou a própria fórmula mágica, se reinventar é um risco.

Na abertura da ArtRio 23, encontrei um artista cuja obra venho acompanhando. Com décadas de carreira, ela ficou marcada pela figuração pop. Nos últimos anos, ele passou a se interessar pelo volume e o espaço como temáticas. Nos falamos brevemente, mas aproveitei para perguntar sobre essa nova produção. Da última vez que conversamos, ano passado, ele estava bastante empolgado, planejando ampliar as escalas. Agora, a resposta foi desanimada. Diante dos compromissos econômicos, ele decidiu ouvir o conselho de um amigo: “Ninguém te conhece como escultor. Volte para a pintura!”

COMO EM QUALQUER MERCADO, O EQUILÍBRIO ENTRE A NOVIDADE E A REPETIÇÃO É OURO

Na exposição do Heitor dos Prazeres, em cartaz no CCBB (RJ), vemos como o fenômeno não é recente. A mostra encerra de forma distópica, sem a festividade celebrada pelas salas anteriores, apresentando o documentário realizado por Antônio Carlos da Fontoura, em 1965, um ano antes da morte do artista. Nas cenas finais, o artista versátil comenta a relação de sua obra com o mercado:

“Mas é triste, algumas coisas que eu faço, que o destino não me agrada. Coisas que eu faço que tem amizade, que eu pretendia guardar para mim. Então, vem um gosta, leva. Vem outro, faço outra coisa, vem outro, gosta, leva. Então, já me sinto já acorrentado, obrigado a fazer comércio de formas que é desagradável. É um sofrimento do artista porque já me sinto comercializado. Eu sinto que já estou fracassando. Fracassando porque eu sou obrigado a fazer coisas que não estão na minha vontade, por causa do comércio. Eu faço uma coisa que aspiro. A pessoa vem e pede outra igual. Depois vem outro, pede outra igual. Depois vem outro, pede outra igual. De forma que é uma tristeza. O artista que é obrigado a comercializar-se, atender a situações monetárias, vive acorrentado e acaba morrendo, não fazendo aquilo que ele quer.”

"O ARTISTA QUE É OBRIGADO A COMERCIALIZAR-SE, ATENDER A SITUAÇÕES MONETÁRIAS, VIVE ACORRENTADO E ACABA MORRENDO, NÃO FAZENDO AQUILO QUE ELE QUER"

O documentário encerra com Heitor dos Prazeres cantando uma de suas muitas composições, Vai Saudade (1964):

“Vai, vai, saudade
Saudade voraz
Vai dizer a ela
Que eu não posso mais
Vai, vai, saudade
Me deixa viver em paz

[…]

Eu sou um covarde
E covarde demais
Vai, vai, saudade
Me deixa viver em paz
Vai, saudade”

Segundo o texto da curadoria, assinada por Raquel Barreto, Haroldo Costa e Pablo León de la Barra, o artista começou a pintar em 1937, como forma de enfrentar o luto pela morte de sua primeira esposa, falecida no ano anterior. A escolha da música para encerrar o documentário parece fundir a saudade fundadora de sua pintura com a obra em si.

Ao longo dos 70 anos que separam as duas confissões acima, o mercado de arte brasileiro se transformou profundamente. As frustrações, nem tanto. É claro que o não é sempre uma opção. No depoimento de Heitor dos Prazeres, ceder às pressões é um fracasso e, ao mesmo tempo, a “situação monetária” não deixa muito espaço para a utopia da liberdade.

NO DEPOIMENTO DE HEITOR DOS PRAZERES, CEDER ÀS PRESSÕES É UM FRACASSO E, AO MESMO TEMPO, A “SITUAÇÃO MONETÁRIA” NÃO DEIXA MUITO ESPAÇO PARA A UTOPIA DA LIBERDADE

Indústria da dor
Vamos a um terceiro relato. Em 11 de março deste ano, o artista Renan Andrade publicou um texto em sua conta do Instagram, intitulado “A indústria da arte não pode continuar explorando a dor e o sofrimento de minorias como se fossem apenas uma tendência passageira”. A crítica coloca em foco a imagem caricata da periferia que intimida a originalidade. Em suas palavras:

“[…] muitas vezes se é colocado em uma posição em que é incentivado a produzir um tipo específico de arte que atenda às expectativas do mercado, sem espaço para explorar outras possibilidades criativas. Isso pode limitar o crescimento artístico, além de perpetuar estereótipos e reforçar a exclusão desses artistas do mercado de arte. Além disso, quando o interesse do mercado em sua obra acaba, o artista pode ficar sem apoio e recursos para continuar sua carreira, tendo que lidar com a falta de suporte e a falta de oportunidades para exposições, vendas e participar em editais.”

Em uma caminhada pela ArtRio, não foi difícil compreender o ponto de vista de Renan Andrade. O imaginário sobre a periferia vem sendo construído e massificado pelos setores de maior porte da indústria cultural há, pelo menos, quase um século, quando a cultura popular se tornou uma ferramenta da ditadura varguista. Nas artes plásticas/visuais, foram muitas as idas e vindas em relação a esse estereótipo. As cenas e os elementos atuais não são tão distintos do passado. A pasteurização política e formal é, praticamente, a mesma. A grande mudança está na representatividade autoral. São artistas periféricos que levaram o imaginário sobre a periferia para as galerias.

Nesse contexto, há lugar para Renan Andrade, um jovem artista negro que pinta abstração? Segundo a pesquisa Art Collector Insights 2023, da Artsy, a arte abstrata é o gênero que mais interessa aos colecionadores, hoje. Será diferente no Brasil? E se essa for uma tendência internacional, de países hegemônicos, será que ela vai ecoar por aqui? Para qualquer um dos casos, leia a afiada crítica de Renan Andrade. Se correr o bicho pega. Se ficar…

SÃO ARTISTAS PERIFÉRICOS QUE LEVARAM O IMAGINÁRIO SOBRE A PERIFERIA PARA AS GALERIAS

Figuração sem identificação
A situação não é tão diferente em outras esferas do sistema de arte ou quando se trata de uma figuração que não reproduza as narrativas caricatas. No quesito originalidade, a pintura de Igor Rodrigues foi o destaque da ArtRio 23. Sua pintura é um estrondo silencioso que implantou uma temporalidade de outra ordem, em meio à aceleração e o esgotamento de uma feira de arte. Seus retratos de pessoas negras retintas ocuparam todo o estande da baiana Acervo Galeria de Arte. Sem flagras, os corpos posam. Estão fixados e fixam também o espectador. Após diversas galerias, o olhar treinado do público é desmontado. As composições de Igor Rodrigues são econômicas. Os elementos variam pouco entre corpos, indumentária e fundo. A paleta também é reduzida – e desarmônica para a contemporaneidade que tem predileção pela doçura dos tons pastéis.

A liberdade é azul (2023), de Igor Rodrigues [Foto: Nicolau Almeida]
No entanto, a simplicidade de sua pintura é exclusivamente quantitativa. Sua força está concentrada no embate enérgico da luz com a sombra, resgatado da tradição pictórica para quase esculpir na bidimensionalidade. A atenção especial que confere ao volume, resulta em tecidos cujas texturas beiram a sinestesia, enganando a visão e o tato. O tempo dilatado pelas pregas que vestem as figuras monumentalizadas e pela paleta cintilante, junto a grande escala dos bustos e os corpos, rostos e olhos de expressões variadas, a partir de alterações e recursos discretos, todas com profundidade, evocam uma atmosfera sagrada, sem uma alusão específica a qualquer religião. Com uma figuração sem cenas conhecidas ou identificação imediata, nem muletas ou catalisadores da experiência, Igor Rodrigues impõe ao público que comece do zero. Há lugar para a sua pintura, sendo ele um jovem artista negro? No mercado, ele tem tido uma boa recepção. Recentemente, a Acervo Galeria de Arte realizou uma parceria com a Galeria Frente para apresentar uma individual do artista, em São Paulo. Ele também esteve presente com um projeto solo na edição da Rotas Brasileiras, de 2022.

As boas vendas não repercutiram em outros setores do sistema de arte. Os principais prêmios do país, por exemplo, são focados em jovens artistas, mas Igor Rodrigues não foi indicado para nenhum deles, mesmo que tenha passado por São Paulo, de forma individual, duas vezes em um único ano. O fato de o pintor continuar vivendo em Feira de Santana, cidade do interior da Bahia, onde nasceu, dificulta sua recepção pelos circuitos não comerciais, para os quais não basta pintar ou ser representado por uma galeria – especialmente, se for uma galeria periférica.

Para os pintores abstratos, a situação aperta dos dois lados. Quantos artistas negros que pintam abstração, em início de carreira, são representados comercialmente ou foram indicados para esses prêmios? Ao mesmo tempo, chega a ser constrangedora a quantidade de indicações duvidosas. Talvez, com alguns ajustes, esses prêmios possam incluir a diversidade da produção negra contemporânea – e pressionar o mercado, por consequência –, com artistas além de Igor Rodrigues e Renan Andrade, como Dona Carmen, Rose Sergio, Bernardo Magina, Heberth Sobral, Jeff Seon… entre tantos outros.

Lyz Parayzo no estande da Casa Triângulo [Foto: Cortesia Casa Triângulo]

Em tempo, gostaria de deixar dois outros comentários sobre a ArtRio deste ano. A primeira é a série de diálogos que Lyz Paraizo estabelece com ícones da arte brasileira. Após as Bichinhas – cuja interlocução com Lygia Clark é visual, mas, também, conceitual –, os seres fantásticos de Maria Martins são desgarrados do peso do bronze e perdem as suas bases para serem suspensos pela leveza do inox polido. Com uma pequena escala, eles têm garras graciosas. Além de Paraizo, o estande da Casa Triângulo foi um dos mais bem montados da feira.

Por fim, no fim da feira, do outro lado da passarela, destaco o estande da parceria entre a Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Instituto Federal do Rio de Janeiro, que apresentava novas tecnologias de perícia em obras de arte. O espaço reuniu obras do artista e perito criminal Rafael Mayer e máquinas de raio-x, infravermelho, entre outras, para divulgar ao público que a cooperação da Polícia Civil com o IFRJ tem como objetivo aperfeiçoar as investigações de crimes que envolvam obras de arte. Aguardemos os resultados!

Daniele Machado é historiadora da arte

O estande da Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Instituto Federal do Rio de Janeiro [Foto: Daniele Machado]