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Understorm [Tempestade subterrânea], 2022, de Minerva Cuevas. Foto: Eduardo Ortega
Postado em 10/04/2026 - 4:39
Arte como intervenção infraestrutural
Prática de Minerva Cuevas vai além da compreensão tradicional da crítica institucional em direção a um terreno semiótico no qual a produção de significado – como mercadoria – torna-se um local contestado, propício à intervenção

Partindo das ideias do escritor, historiador e anarquista Murray Bookchin de que a crise ambiental não pode ser dissociada das estruturas hierárquicas que organizam a vida em sociedade, Ecologia Social – exposição individual de Minerva Cuevas no MASP, com curadoria de André Mesquita – reformula a crise ecológica como inseparável dos regimes neoliberais. Com um tom retrospectivo, a exposição apresenta o longo envolvimento de Cuevas com os entrelaçamentos de economia, meio ambiente e poder. Situa sua prática em um contexto mais amplo dos legados associados ao que já foi denominado, por vezes pejorativamente, como “artivismo”, termo amplamente utilizado para tentar definir práticas artísticas do início dos anos 2000 que operavam na fronteira entre arte e ações de ativismo, utilizando ideias coletivas, estratégias de intervenção pública empregadas frequentemente com humor e ironia.

A obra de Cuevas mobiliza conceitos como apropriação, intervenção e fricção como estratégias operacionais. Logotipos corporativos, identidades visuais, produtos de consumo e códigos linguísticos não são meramente representados, mas reprogramados para expor como o capitalismo avançado e imaterial se estende além das mercadorias para moldar subjetividades e imaginários. Nesse sentido, sua prática vai além de uma compreensão tradicional da crítica institucional em direção a um terreno semiótico mais amplo, no qual a própria produção de significado – como mercadoria – torna-se um local contestado propício à intervenção.

Essas dinâmicas são evidentes em muitas obras, como por exemplo em Mejor Vida Corp. (1998–): um projeto seminal no qual Cuevas constrói uma corporação fictícia que opera como uma plataforma de redistribuição, oferecendo bens e serviços gratuitos. Em sua lógica, a obra realiza uma micro-sabotagem dos sistemas de valores neoliberais, colapsando as distinções entre gesto artístico e proposição socioeconômica. Aqui, a arte opera menos como representação do que como intervenção infraestrutural.

Égalité [Igualdade], 2001, de Minerva Cuevas. Coleção particular
Vista da exposição Minerva Cuevas: ecologia social, Edifício Lina, 2o subsolo, MASP. Foto: Eduardo Ortega

Em termos materiais, a exposição oscila entre a rearticulação de iconografias corporativas – em murais, slogans, produtos de consumo, logotipos etc. – e a densa e rica textura das substâncias empregadas na materialização das obras, como o chapopote (um derivado do petróleo) usado para revestir pinturas, objetos e outras peças. Um exemplo dessa oscilação pode ser notada, por exemplo, em Petrolina: série na qual arranjos florais exuberantes (e artificiais) são dispostos em antigas latas de óleo automotivo de diferentes marcas multinacionais. A beleza artificial das flores de plástico ali presentes contrasta com a invisibilidade do elemento natural que falta – o óleo – que passa a atuar como um espectro invisível, índice de uma das principais fontes de energia, poluição e poder que ditam e sustentam a vida humana no planeta. 

A aparente exuberância dessas escolhas materiais opera, então, por meio de uma lógica indicial, sobrepondo regimes de extração e produção de mercadorias a sistemas de conhecimento pré-hispânicos moldados por histórias persistentes de exploração. O resultado das proposições de Cuevas estabelecem, de formas diversas, uma zona ambígua entre beleza e crítica na qual resistem à mera estetização, mobilizando a opacidade como estratégia para recusar a redução das crises das quais emergem em imagens rápidas e consumíveis.

Ao invés de oferecer uma resposta ou resolução clara para a crise, Cuevas aponta para a desestabilização de nossos tempos, expondo estruturas econômicas, sociais e políticas que tornam o estado de crise recorrente e urgente. Suas obras interrompem as infraestruturas simbólicas que sustentam o neoliberalismo, posicionando a ecologia não como um horizonte reconciliador, mas como um campo de disputa e antagonismo. O que emerge é a proposição de que formas alternativas de vida podem ser imaginadas, não pela reconfiguração dos próprios sistemas que produzem a crise, mas pela apropriação do próprio horizonte coletivo que produz as infraestruturas de nossa vida social.

El proletario [O proletário], da série Caníbal, 2015, de Minerva Cuevas. Foto: Eduardo Ortega
Vista da exposição Minerva Cuevas: ecologia social, Edifício Lina, 2o subsolo, MASP. Foto: Eduardo Ortega

Minerva Cuevas: Ecologia Social
Curadoria de André Mesquita
MASP 05/12/2025 — 12/04/2026


Beto Shwafaty é artista, escritor e pesquisador. Desde o início dos anos 2000, dedica-se a práticas coletivas, curatoriais e espaciais, desenvolvendo obras baseadas em pesquisas sobre espaços, histórias e visualidades, que conectam formal e conceitualmente questões políticas, sociais e culturais convergentes ao campo da arte. Participou da 33ª e 37ª Panorama da Arte Brasileira, da 9ª Bienal do Mercosul e tem exposto seus projetos no Brasil e no exterior.

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