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Vista do estande da galeria WG na ArPa, com obras de Antonio Kuschnir [Foto: Gui Caielli / Divulgação]
Postado em 02/06/2026 - 7:53
Arte como oráculo
ArPa 2026 reúne uma mescla indistinta do ultracontemporâneo com o tradicional, dos polímeros sintéticos com os materiais orgânicos e dos ícones da arte com as cosmogonias autóctones

Como síntese temática e técnica, pudemos captar na feira ArPa 2026 uma vertente transversal às galerias que se apresentaram: a ancestralidade representada por diferentes concepções cosmogônicas, desde aquelas balizadas pelas tradições dos povos originários até o retorno a um figurativismo que remonta ao barroco e à renascença, resgatando a ornamentação e concepção animal fantástica do grotesco pré-Era Moderna. Um exemplo são as pinturas de Antonio Kuschnir (WG Galeria, Setor UNI), que faz uma releitura da renascença e do impressionismo atualizada e mais solta, de visualidade orgânica e personagens históricos mesclados ao cotidiano de hoje, ou de Luiz Pasqualini (OMA Galeria), que entroniza cenas banais a partir de uma iluminação e ambientação pictórica irmanada a pintores da renascença flamenga, como Rembrandt e Vermeer. Ou os móveis e objetos decorativos recobertos de tinta látex por Karen de Picciotto (Galeria 18), que figuram entre uma pré-História cromática de nossos tempos e a desintegração psicodélica e lisérgica.

Distorção de Perspectiva (2024), de Gabriel Pessoto [Foto: Estúdio em Obra/ cortesia da galeira Luciana Caravello]
Mas o figurativismo não realista, permeado pelo simbólico, se coaduna com a abstração no sentido de uma percepção alquímica, do tempo e da transmutação dos estados da matéria, o que se imprime fortemente nas técnicas pictóricas (acúmulo de tinta, esfumado, difusão dos contornos e geometria organicizada, para citar alguns) e escultóricas, com matérias-primas naturais, como madeira e metal. No entanto, essas ancestralidade, cosmogonia, transição alquímica não surgem como uma visão saudosista do que fomos como seres naturais, mas imbricadas, imiscuídas e transpassadas pela ultratecnologia contemporânea (como nas obras cinéticas da dupla Paula Rivas e Christian Wloch, em especial o vídeo cromático com música visto através de placas transparentes inseridas numa caixa branca, expostos na SteinART), num embate entre aquilo que pensamos conhecer e que se oferece aos nossos sentidos como fantasia, burla ou reinvenção do real. Vale citar como forma exemplar dessa relação conflitantemente voluptuosa e profícua as obras de Gabriel Pessoto, exposto pela Luciana Caravello Galeria no Setor UNI, que pixeliza figuras como em bordados de ponto cruz, mas, ao mesmo tempo, como matrizes visuais da imagem computadorizada. 

Vídeoinstalação de Paula Rivas e Christian Wloch, exibido no estande da galeria SteinART [Foto: Gui Caielli / Divulgação]
Pinturas de Luiz Pasqualini no estande da OMA Galeria, na feira ArPa [Foto: Gui Caielli / Divulgação]

Nessa feira-boutique que oferece respiro e reflexão artística com espaços cuidadosamente curados, e por isso torna-se baliza da produção artística de hoje, nossa percepção alterada pelas formas digitais e virtuais do nosso tempo permite os inúmeros desdobramentos que reinventam uma ancestralidade que já não sabemos se existiu, mas é forjada pela presença mais ou menos sutil das inúmeras inovações materiais que constituem cada obra, nas quais o gesto do artista pode ou não ser verdadeiro. O real nunca esteve tão ultrapassado quanto em nossas História ou pré-História, compostas na arte atual pela mescla indistinta do ultracontemporâneo com o tradicional, dos polímeros sintéticos com os materiais orgânicos e dos ícones da arte com as cosmogonias autóctones. Nesse mundo ultrassaturado de imagens, referências e acontecimentos, a arte é o oráculo que dá novos sentidos e liberta da instrumentalidade do capital.

Projeto solo da artista Karen de Picciotto na Galeria 18 [Foto: Gui Caielli / Divulgação]