Como síntese temática e técnica, pudemos captar na feira ArPa 2026 uma vertente transversal às galerias que se apresentaram: a ancestralidade representada por diferentes concepções cosmogônicas, desde aquelas balizadas pelas tradições dos povos originários até o retorno a um figurativismo que remonta ao barroco e à renascença, resgatando a ornamentação e concepção animal fantástica do grotesco pré-Era Moderna. Um exemplo são as pinturas de Antonio Kuschnir (WG Galeria, Setor UNI), que faz uma releitura da renascença e do impressionismo atualizada e mais solta, de visualidade orgânica e personagens históricos mesclados ao cotidiano de hoje, ou de Luiz Pasqualini (OMA Galeria), que entroniza cenas banais a partir de uma iluminação e ambientação pictórica irmanada a pintores da renascença flamenga, como Rembrandt e Vermeer. Ou os móveis e objetos decorativos recobertos de tinta látex por Karen de Picciotto (Galeria 18), que figuram entre uma pré-História cromática de nossos tempos e a desintegração psicodélica e lisérgica.

Nessa feira-boutique que oferece respiro e reflexão artística com espaços cuidadosamente curados, e por isso torna-se baliza da produção artística de hoje, nossa percepção alterada pelas formas digitais e virtuais do nosso tempo permite os inúmeros desdobramentos que reinventam uma ancestralidade que já não sabemos se existiu, mas é forjada pela presença mais ou menos sutil das inúmeras inovações materiais que constituem cada obra, nas quais o gesto do artista pode ou não ser verdadeiro. O real nunca esteve tão ultrapassado quanto em nossas História ou pré-História, compostas na arte atual pela mescla indistinta do ultracontemporâneo com o tradicional, dos polímeros sintéticos com os materiais orgânicos e dos ícones da arte com as cosmogonias autóctones. Nesse mundo ultrassaturado de imagens, referências e acontecimentos, a arte é o oráculo que dá novos sentidos e liberta da instrumentalidade do capital.
