Ocupar terras improdutivas pode ser o que melhor define, a ferro e fogo, o que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra faz. Não tão simples como soa é a tensão entre a posse e a destituição da terra, o que coloca o MST como um dos alvos preferidos da horda conservadora brasileira, em sua lógica simplista da posse da terra como aquisição de bens e produtos. “Os primeiros sem-terra foram os povos indígenas, expulsos de suas terras pela colonização europeia. A segunda coletividade que forma essa imensa população sem-terra no Brasil foram as populações negras vindas de África”, pontuou Douglas Estevam, membro do Coletivo Nacional de Cultura do MST e Coordenador Pedagógico da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), durante o Seminário Retomadas, organizado pelo Museu de Arte de São Paulo em junho deste ano. Os dois grupos que estão na origem do movimento são marginalizados historicamente não só pela destituição de suas terras, mas pela destituição de suas memórias. Talvez a restauração da memória da terra e de seu povo possa definir melhor a atuação do movimento que soma hoje mais de 1 milhão de pessoas em sua base.
Como recuperar memórias queimadas, estupradas, dizimadas? Os meios de dar visualidade à luta, tão debatidos nas artes plásticas, são centrais na configuração do movimento, desde a maneira como as decisões são feitas até a definição das imagens impressas em cartazes durante os atos e manifestações. Entre as diversas formas engendradas pelo MST, as linguagens artísticas e as imagens têm ganhado cada vez mais relevância.

Muito além do boné, que virou um ícone visual, às vezes até jocoso em algumas bolhas da internet, a estética de luta não é só um acessório. A dimensão visual do MST não se encerra no plano do objeto, pelo menos desde o início dos anos 2000, quando o Coletivo Nacional de Cultura foi formalizado dentro do movimento, somando-se às Brigadas de Artes Plásticas, existentes desde a fundação oficial, em 1984. “A luta não se esgota no problema econômico. Ela tem como elemento central a formação e a transformação humana daqueles indivíduos que participam ativamente do movimento. O momento inicial ou determinante aqui é a luta pela terra. Essa luta pode se dar de diversas maneiras. A segunda determinante formativa para o MST é a forma: como nos organizamos para lutar?”, diz Estevam à seLecT_ceLesTe, argumentando a favor do desenvolvimento de uma cultura própria, fundada nas práticas e relações coletivas que se dão nos diferentes processos da luta.

PEDAGOGIA DA IMAGEM
A Escola Nacional Florestan Fernandes pode ser encarada como retrato dessa cultura sem-terra. Localizada entre Guararema e Jacareí, região de transição entre a zona metropolitana e o interior do estado de São Paulo, a ENFF está num dos únicos terrenos comprados pelo movimento no Brasil. O projeto saiu do papel entre os anos 2000 e 2005, pelas mãos de mil pessoas, como descreve a socióloga e militante do MST Ana Maria Justo Pizetta no artigo “A Construção da Escola Nacional Florestan Fernandes: Um processo de formação efetivo e emancipatório”, fruto de sua pesquisa de mestrado. Uma obra em que todos são criadores, mestres e aprendizes, e a terra é a principal matéria. Nas áreas construídas com os tijolos feitos ali mesmo, acontecem o preparo das refeições na cozinha, aulas das formações oferecidas e oficinas. A ENFF tem extenso programa de formação para militantes e organizações com direcionamentos solidários. De abordagem teórico-prático, os cursos vão da filosofia à economia política da agricultura, têm durações diversas, incluindo o programa de pós-graduação Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, em parceria com a Unesp, e convênio firmado com 35 universidades de todo o mundo. Entre as salas, corredores ao ar livre compõem uma estrutura que não difere muito de uma escola convencional. Embora, no caso da Nacional, não haja separação em setores, inclusive aquelas delimitadas por funções como a limpeza e a manutenção: o espaço é de todos, e todos são responsáveis por ele.

Em visita da seLecT_ceLesTe à ENFF, durante a mobilização para o Abril Vermelho, a escola estava repleta de gente de todas as idades. Anualmente, a data marca intensa agenda nacional pela reforma agrária e agendas correlatas. Em 2023, a mobilização ganhou um peso maior por acontecer às vésperas dos 40 anos do mais importante movimento social no Brasil. De abril a abril, os sem-terra de todo o país estão ainda mais focados no projeto de transformação social da terra, e é na Escola Florestan Fernandes que parte expressiva dessa preparação acontece.
O quadro familiar de avisos na escola é ilustrado por um calendário histórico com datas importantes para as narrativas progressistas. Não longe dali, em outra parede, um desenho representando uma cachoeira com uma mancha verde aquarelada em cartaz realizado pelo arquiteto, artista e professor Sérgio Ferro, colaborador de longa data. Apesar da distinção de autoria do cartaz, as duas imagens convivem em pé de igualdade. Elas servem ao mesmo propósito pedagógico que a arte, ou mesmo a estética, tem por excelência na experiência humana conforme compreendida pelo movimento. A imaginação de outros territórios que a arte pode habitar é um pressuposto em prática na nova cultura defendida pelo MST. É a partir dos anos 2000, com a formalização do Coletivo Nacional de Cultura, que a arte ganha força expressiva e estatuto de ferramenta de luta.
Menos precisa quanto à produção de faixas e cartazes – e todo aparato lido como gráfica política –, a iconografia do movimento desenha-se, também, em sua fruição. Aquilo que o MST denomina “mística” está nesta indefinição, um meio de caminho entre reunião, confraternização e reflexão, numa prática comum em todos os assentamentos. A mística, mais que qualquer imagem, é o nome dado ao conjunto de experiências sensíveis compartilhadas por quem faz parte da luta do MST. De difícil explicação objetiva, de acordo com Estevam, a mística aproxima-se das linguagens performáticas e é o momento de reunião partilhado na ENFF e nos assentamentos, quando manifestações de teatro, música e poesia entram em cena para evocar os sentimentos que mantêm a colaboração dos integrantes do MST unidos. O termo também é usado, com frequência, como adjetivo. A mística é o que há de indefinido dentro de toda lógica organizada do movimento. Do lapso no tempo que existe como pausa e comunhão, a mística é a melhor palavra para descrever o que há de irracional na humana energia de acreditar e se empenhar na construção de outro projeto para o futuro.
COMUNIDADE
Da natureza pedagógica comunitária surge a aproximação do movimento com o coletivo indonésio Taring Padi via Casa do Povo: “O convite nasceu um pouco da situação turbulenta na Documenta” [o coletivo da Indonésia, um dos convidados para a edição 15 da mostra alemã, teve uma de suas obras retirada da exposição após protestos], diz à seLecT_ceLesTe Benjamin Seroussi, diretor-executivo da Casa do Povo. “E a gente entendeu tanto as questões que surgiram da obra deles quanto a instrumentalização dessa luta contra o antissemitismo para calar muitos artistas que estavam participando. A maneira com que lidamos com isso foi conversar. Na arte contemporânea você não trabalha só com obras, mas com pessoas que produzem obras. Não fizemos uma análise somente das imagens, mas queríamos falar com quem produziu as obras. Seria uma pena reduzir o trabalho a essa espécie de cancelamento”, analisa Seroussi, explicando as motivações da ponte estabelecida com o grupo formado pelos artistas Aris Prawaba, Bayu Widodo, Dudi Irwandi e Hestu Nugroho.
O cancelamento mencionado por Seroussi dispensa introduções. Na mídia tradicional e em bolhas do público especializado da arte, a parceria do MST com o coletivo ganhou contornos de horror. A tônica geral era: agora o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra está abrigando antissemitas, um tipo de condenação muito próximo dos discursos que reduzem a terra à propriedade. “A ideia era se aproximar, conversar mais, para poder cuidar tanto dos erros quanto das violências que surgiram ali, coletivamente. Estreitar os laços para formar uma comunidade, uma forma de lutar contra preconceitos. A base estava na convivência e o que fazemos nas artes para conviver? Uma residência – temos um repertório limitado (risos). E na residência, o que a gente faz? Pinta, trabalha, produz, almoça, toma café, ocupa latifúndio… (risos)”, continua o diretor da Casa do Povo.
Em conversa com a seLecT_ceLesTe, Aris Prawaba disse que o que mais lhe chamou a atenção durante as três semanas de residência na ENFF foi a maneira como as pessoas se comunicavam, apesar da diferença de idioma. Na Escola Nacional, o coletivo realizou, além de oficinas com os estudantes, o painel colaborativo de grandes dimensões Rebut Tanah Kita (Retomar Nossa Terra).
A função da arte no Taring Padi está articulada a uma dimensão pedagógica e formativa que vai ao encontro dos princípios do MST: “Para nós, essa experiência de conexão histórica também foi muito importante”, diz Estevam à seLecT_ceLesTe, lembrando do processo colonizador presente também na Indonésia. Há um tempo, o coletivo de pesquisa Tricontinental já havia investigado coletivos artísticos da Indonésia e a relação estreita de luta pela terra e contra governos autoritários.

O que se extrai dessa aproximação é que a parceria entre trabalhadores e trabalhadoras do MST e artistas com atuação no circuito especializado é uma maneira de fortalecimento e divulgação da bandeira não só da reforma agrária, mas de outras formas de relação humana sem o atravessamento utilitarista do capitalismo. Fala da Terra (2022), da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, registra o Coletivo de Teatro Banzeiros, grupo formado por militantes do MST da região amazônica. O trabalho foi apresentado na exposição Five Times Brazil, no New Museum, em Nova York, na programação da sala de vídeo do Masp e na coletiva Quilombo, também no ano passado em Inhotim. Militantes do movimento também integraram a ópera Café, de Felipe Senna, dirigida pelo dramaturgo Sérgio de Carvalho, apresentada em 2022 no Theatro Municipal de São Paulo. De acordo com Estevam, iniciativas como essas incentivam o público a conhecer o MST de outra forma que não pela caricatura da violência e do roubo.
CIRCUITO
Já a via internacionalista está presente, desde a criação do MST, por meio de brigadas em outros países, que culminam na influência direta do movimento no calendário global de luta pela reforma agrária, como é o caso da Via Campesina Internacional (entre as principais organizações pela luta da soberania alimentar), e outros projetos artísticos que ganham espaço nesse pilar constitutivo do movimento. A residência com o Taring Padi, por exemplo, foi realizada por ocasião da exposição Tanah Medeka, individual do grupo em cartaz até 10/9 na Framer Framed, em Amsterdã, nos Países Baixos. Outra parceria em andamento é a montagem, híbrida entre vídeo e teatro, de Antígona na Amazônia, junto ao grupo de teatro NTGent, coordenado pelo diretor suíço Milo Rau. A peça, sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, que completou 27 anos em abril, segue em exibição em países da Europa.