O vento ajuda a caminhar. Porque ele atravessa tudo, não cessa o movimento – ou não seria vento. Na Trienal Frestas, inaugurada no final de fevereiro no Sesc Sorocaba, os caminhos e rituais do caminhar são tema, são forma e, ao mesmo tempo, são participantes da exposição. O vento, encontro em uma esquina do primeiro andar, logo antes da ponte que leva à segunda parte da exposição. Nesta ponte está exposto um trabalho de No Martins, uma cruz vermelha de grandes dimensões na qual se lê, em letras brancas, “Deus tá vendo”. Nesse ponto ficava, na edição anterior, a instalação de Jaider Esbell, duas cobras grandes entrelaçadas com o topo da estrutura. Um e outro fazendo de altar contranarrativo este ponto elevado da arquitetura do Sesc Sorocaba. O recado na cruz é claro: uma religião punitiva tem por objetivo o controle social. O de 2021 era: as cosmologias indígenas não se contaminam de disputas de poder.
Mas, antes dessas reminiscências de trabalhos que já habitaram a passagem suspensa, detenho-me nesta esquina de varanda, onde venta muito. A obra instalada aqui é de autoria dupla: assinam a obra o Rio Sorocaba e o artista Douglas Emilio. Dança um Rio Onde Eu Nasci (2026) se organiza como um jogo coreográfico de interação do público com mementos do rio, com o qual Emilio convive na cidade de Votorantim. Histórias do território atravessam os corpos do rio e do artista, ensina a curadoria. E os atravessamentos são tanto da ordem da contemplação quanto da denúncia, como é o caso da reprodução do rastro da grande enchente de 1982, que deixou marcas de água barrenta nas paredes de sua casa. As parcerias, como esta, que cruzam os caminhos da exposição dão testemunho de que caminhar, no sentido de construir novos sentidos para a vida e de ampliar o horizonte emancipatório da arte, se faz em comunidade.
ARTE RELACIONAL X ARTE SOCIAL
Esta edição da trienal será lembrada como o auge da interlocução entre comunidade artística e comunidades sociais. A prática que vimos surgir com força desde a exposição Parábola do Progresso, concebida por Lisette Lagnado para o Sesc Pompeia no ano em que se celebrava o centenário da Semana de Arte Moderna; passando pelas curadorias do Pavilhão Brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2023, que recebeu por ele o Leão de Ouro; e da mostra Dos Brasis (2023), culmina nesta proposição de Luciana Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares. Atentar para a diferença entre esse caminhar-junto que vemos em Sorocaba e a arte relacional, que corresponde à emergência de coletivos dos anos 2000. No contexto de surgimento de grupos de criação e/ou atuação, testemunhamos o advento de diversos espaços independentes, que nascem de e para uma coletividade, assim como a presença destes coletivos em mostras de grande porte. Na década de 2020, o que vemos são espaços sociais ligados ao território e à comunidade que, convidados a estar dentro das exposições, agenciam os termos de como essa presença pode ser dar.

Entre elas, destaco a instalação que reúne a Irmandade de São Benedito de Itu (em memória), a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Sorocaba (em memória), o Quilombo do Cafundó, e o coletivo Cartografia Negra. Na sala circular, na qual se entra atravessando uma cortina de fitas coloridas, vemos projetados sobre nichos com objetos de culto vídeos que registram as formas de vida da comunidade quilombola e relatos das festas e tradições das irmandades negras. A solução audiovisual instalativa da Cartografia Negra resulta sensível e apropriada para o ambiente expográfico, equalizando uma convivência por vezes problemática entre obras de arte contemporânea e objetos da cultura material.
ANTECEDENTES E ANCESTRAIS
Criada pelo Sesc Sorocaba em 2017, a Trienal Frestas é uma somatória de processos que se desenrolavam na cidade do interior paulista desde 1950, quando a instituição aportou ali, apenas quatro anos depois de sua fundação, em São Paulo, em 1946. Como a sede definitiva só ficou pronta em 2012, o Sesc Sorocaba operou predominantemente de forma itinerante, em franco contato com as ruas da cidade, e assim decidiu seguir trabalhando, com a sede servindo de centro irradiador das ações culturais. Inspirada também pelo festival Terra Rasgada, que teve três edições nos anos 1990, a Trienal tem uma história que remonta a muito antes da história do evento.
A quarta edição da mostra, portanto, tem muitos antecedentes e ancestrais. Do Caminho um Rezo é uma exposição que propõe pensar o que é tradição de maneira crítica e também afetiva. A curadora Luciara Ribeiro afirma que as três edições anteriores se fazem presentes de alguma forma, sobretudo a terceira, O Rio É uma Serpente (2021-22), já que a presença do Rio Sorocaba no imaginário cultural e social da cidade é determinante. Dona Lucia Maria de Oliveira, que expõe esculturas feitas de papel, argila e madeira, representando orixás e personalidade da vida cotidiana, responde à minha pergunta sobre a admirável singularidade de sua técnica: “Ninguém nunca inventa nada. Eu me reconectei com um modo de fazer que era da minha mãe. Ela enrolava a palha assim, como agora faço com o papel. Quando as filhas estavam na faculdade, para não ficar muito sozinha, ela confeccionava cestos e outros objetos dessa forma”.

O tributo a quem veio antes se traduz ainda no trabalho com dois conselhos no processo de concepção da mostra, o Conselho Curatorial e o Conselho Territorial. Naine Terena pontua que um “conselho”, etimologicamente, tem relação com aquelas pessoas a quem pedimos “conselhos”, os sábios, experientes, os vividos. Esse diálogo teve um vetor público no programa Sendarias, de conversas abertas, em que foram ouvidos Tadeu Kaingang e Silvia Cusicanqui, entre outros. O conselho ligado ao território de Sorocaba teve um papel importante na indicação de agentes culturais e comunitários na cidade e região. Na exposição, a presença de registros em vídeo e áudio de Nêgo Bispo (1959-2023) comunicando suas ideias sobre natureza, educação, resistência e contracolonialidade enfatiza os caminhos dos ensinamentos que se cruzam, do passado ao presente e de volta. Nas palavras de Bispo, a vida é “começo, meio e começo”.
COMUNIDADES DEF
É esse ensinamento da filosofia de Nêgo Bispo que me faz olhar de outra perspectiva as obras de artistas def, integrantes do coletivo Plataforma Demonstra, que estão posicionadas bem no centro da exposição (se pudermos dizer que tem centro essa exposição que desterritorializa tudo; mas penso mesmo no espaço central da grande galeria – que funciona como estacionamento do Sesc Sorocaba quando não há Trienal). A imagem comovente do traçado do Rio Sorocaba antes e depois da retificação, obra de Jeff Barbato, convida a pensar sobre as normatividades estruturantes da nossa sociedade desigual e preconceituosa: o que é retificar, senão defender que as coisas precisam de “conserto”? Conserta-se o que está quebrado, errado, estragado. Consertar o rio, do ponto de vista dos conhecimentos ecológicos de hoje, seria restabelecer a sua forma sabiamente serpenteante que controla o fluxo das águas. Em 1950, data em que foi iniciada a alteração no trajeto e canalização do rio, consertar era domar, subjugar, destruir, transformando as curvas do saber da Terra em reta do “saber” (da racionalidade cartesiana kantiana habermasiana) humano.

A Plataforma Demonstra reúne artistas com deficiências (defs) que se dedicam a ações e projetos em arte, educação e “acessibilidade poética”. É mapeamento, difusão e fomento das práticas artísticas na comunidade def. A legenda expandida anuncia, sobre as pesquisas de Bruno Vital, Jeff Barbato, João Paulo Racy, Lari Ferreira, Lua Kixelô Cavalcante, e Nara Rosetto: “As obras, em diferentes suportes e materialidades, ocupam um espaço-dispositivo concebido como antipicadeiro: um ambiente que recusa o regime espetacular da exibição para afirmar presenças plenas, convocadas pela força singular de cada trabalho”. A projeção em escala 1:1 da artista da dança Lari Ferreira descoloniza a noção autoritária de um padrão de corpo ou de forma de dançar, enquanto a instalação de Lua Kixelô Cavalcante reinvindica futuros aleijados.
Comecei falando de altares e termino com uma catedral: a instalação de Carolina Cordeiro, Dizem Que Há um Silêncio Todo Negro (2019/2026), no primeiro andar do Sesc, escondida atrás de uma imensa cortina preta, revela-se apenas a quem lhe dedica tempo, silêncio, espera. Uma área retangular com pé direito alto, à primeira vista vazia, tão logo as nuvens no céu se dissipam, é preenchida de luz em forma de grid. A projeção nas paredes vem das perfurações nas placas de zinco instaladas na claraboia. Dependendo do repertório mobilizado para ler o trabalho, o visitante pode se sentir dentro de um monumento minimalista ou debaixo do telhado de zinco do samba, tão sofisticado quanto o movimento vanguardista do alto modernismo. A grandeza desta catedral celebra a luminosidade que brota das quebras encontradas pelo caminho, e dali elevo às deusas um rezo para as belezas, ainda que dolorosas, da arte.