Entre 2020 e 2023 ministrei um curso on-line, outrora presencial e bastante procurado, intitulado Arte e Política: Uma Introdução. Ano passado, porém, anunciei de novo o tal curso, mas não teve quórum. Ao questionar o inesperado fracasso, fui alertada por algumas pessoas que o título (ou tema) soava anacrônico. O mundo mudou, os artistas são outros e a arte política também.
Contudo, a explicação não me satisfez. Afinal, hoje vemos práticas artísticas e curatoriais apoiadas em teorias críticas acerca de várias problemáticas. As abordagens decoloniais, antirracistas, ecológicas, de gênero e sexualidade, entre outras, estão nas exposições globais e espaços independentes, em vias públicas ou galerias comerciais, além das feiras, que são lugares capitalistas e naturalmente acríticos. E se a política se tornou também uma commodity no meio artístico, então por que o termo “arte e política” de repente soa enfadonho em 2024?
A história da arte política é uma narrativa rica e dinâmica que se estende por séculos, refletindo as lutas, ideologias e aspirações das sociedades. Em 1793, o pintor francês Jacques-Louis David pintou a tela A Morte de Marat, retratando o amigo e líder revolucionário Jean-Paul Marat assassinado em sua banheira por Charlotte Corday, uma opositora política. Pela sua crueza e mensagem indignada, esta é considerada uma das primeiras obras de arte moderna abertamente políticas.
Ao longo do século 20, enquanto as tecnologias da comunicação e reprodutibilidade avançavam junto com muitas revoluções, inúmeros movimentos artísticos e artistas com obras de temáticas políticas proliferaram como formas de denúncia ou enfrentamento ao status quo. Movimentos como o suprematismo russo – proibido pelos dirigentes soviéticos – o futurismo, dadaísmo, o muralismo mexicano, os Centros Populares de Cultura no Brasil, os Panteras Negras ou a arte feminista nos Estados Unidos, entre 1960 e 70, foram fundamentais na formação da opinião pública, inspirando transformações na arte e na sociedade.
Após a Segunda Guerra Mundial, diante da desilusão com o projeto civilizatório moderno ocidental, a própria ideia de discutir o belo e fazer poesia, especialmente na Europa, parecia para muitos intelectuais e artistas uma atividade inútil caso não estivesse ligada a alguma vontade crítica. Um dos expoentes dessa geração foi o artista alemão Joseph Beuys (1921-1986), um ex-piloto do exército nazista sobrevivente à queda de seu caça alvejado em combate, em 1943. Após recuperar-se, pelos cuidados de uma família de camponeses na Criméia (segundo ele), que o trataram com banha animal, mel e mantas de feltro, Beuys se dedicou profundamente à arte e ao ativismo.

Joseph Beuys estudou arte em Düsseldorf entre 1947 e 1951, tornando-se professor de escultura na Academia de Artes em 1961 sem, contudo, se restringir a uma só linguagem ou forma. Atento à crise do homem contemporâneo, sua prática reunia filosofia, sociologia e ecologia, acreditando na educação como uma atividade intimamente ligada à política. Seus alunos participavam de debates sobre questões atuais em paralelo às aulas de criação artística, e com eles formou o Partido dos Estudantes Alemães. Em 1979, co-fundou o Partido Verde alemão. Para Beuys, a política era arte e vice-versa, enquanto a vida era uma grande obra de arte esculpida por todos, continuamente.
Uma de suas teorias, a da “plástica social”, influenciada pela antroposofia, afirmava que cada pessoa podia contribuir para o bem-estar da sociedade por meio de uma ação criativa. Desta ideia surgiu o conceito da “escultura social”, com o qual Beuys diz que cada pessoa, por sua criatividade e imaginação, é um artista.
Joseph Beuys cria uma persona ativista e xamânica. Em instalações e performances rituais, invoca a natureza usando gordura, cera e mel de abelhas, pedras, troncos, sementes e até animais, vivos ou mortos. Exemplos notórios são as performances Como Explicar Arte para uma Lebre Morta (1965), na qual o artista, besuntado em mel e folhas de ouro, passeava com uma lebre morta por uma exposição em uma galeria fechada ao público; e Eu Amo a América, e a América Me Ama (1974). Nela o artista viajou para Nova York e foi direto para a galeria René Block, permanecendo por uma semana enrolado em feltro e convivendo com um coiote nativo. Jornais com as notícias do dia eram entregues e, em parte, sujados e destroçados pelo animal.
A obra de Beuys elimina as fronteiras entre arte, vida e política, ajudando a moldar a visão contemporânea dos artistas como agentes de transformação social. Hoje, porém, o modelo do homem branco europeu sofre declínio, enquanto a revolução digital e a mercantilização exacerbada da arte parecem suplantar o modelo conceitual antroposófico e anticapitalista de Beuys. Sua estética não espetacular é difícil de ser apreendida por novas gerações, moldadas no ativismo de internet e nos espaços de consumo. A sua estética, por vezes sombria, não é cativante, e o processo de museificação e historicização de sua obra a distanciam do público jovem que questiona cânones hegemônicos.
Mas, Joseph Beuys também desconstrói essa hegemonia, pensando a atividade do artista dentro de um ethos próprio, para além de mercados ou da academia. Seus temas, como criação coletiva, a relação interespécies, ecologia, o anti-imperialismo ou a crença na educação, estão presentes nas práticas artísticas atuais, somados a novas discussões e técnicas.
A arte política não se tornou anacrônica, mas pensá-la como uma doutrina, sim. Por outro lado, o simples fato de uma obra conseguir captar a sensibilidade de alguém já é um efeito político neste mundo materialista de tempos acelerados e superficiais. Seja por meio de performances, pinturas, grafites, ações comunitárias, fotografias ou até memes, a arte política continua existindo como ferramenta de conscientização, denúncia, comunhão, espiritualidade e revoluções. Não fosse assim, os artistas não mais incomodariam conjunturas de poder com proposições que escancaram realidades difíceis, estimulam pensamentos críticos e geram formas novas ainda capazes de desestabilizar estruturas de controle.