icon-plus
Ríos de gente (2021), ação coletiva liderada por Regina José Galindo e Abelino Chub Caal, que relembrou os locais onde um rio já fluiu, foi desviado ou poluído pela indústria extrativista que retira os recursos dos povos nativos da Guatemala, com intervenção gráfica de Nina Lins [Foto: Reprodução]
Postado em 20/03/2025 - 6:51
Arte política: um conceito anacrônico?
Nossa colunista baseada em Berlim discute a atualidade de práticas artísticas como meio de transformação social

Entre 2020 e 2023 ministrei um curso on-line, outrora presencial e bastante procurado, intitulado Arte e Política: Uma Introdução. Ano passado, porém, anunciei de novo o tal curso, mas não teve quórum. Ao questionar o inesperado fracasso, fui alertada por algumas pessoas que o título (ou tema) soava anacrônico. O mundo mudou, os artistas são outros e a arte política também.

Contudo, a explicação não me satisfez. Afinal, hoje vemos práticas artísticas e curatoriais apoiadas em teorias críticas acerca de várias problemáticas. As abordagens decoloniais, antirracistas, ecológicas, de gênero e sexualidade, entre outras, estão nas exposições globais e espaços independentes, em vias públicas ou galerias comerciais, além das feiras, que são lugares capitalistas e naturalmente acríticos. E se a política se tornou também uma commodity no meio artístico, então por que o termo “arte e política” de repente soa enfadonho em 2024?

A história da arte política é uma narrativa rica e dinâmica que se estende por séculos, refletindo as lutas, ideologias e aspirações das sociedades. Em 1793, o pintor francês Jacques-Louis David pintou a tela A Morte de Marat, retratando o amigo e líder revolucionário Jean-Paul Marat assassinado em sua banheira por Charlotte Corday, uma opositora política. Pela sua crueza e mensagem indignada, esta é considerada uma das primeiras obras de arte moderna abertamente políticas.

Como explicar imagens para uma lebre morta (1965), performance de Joseph Beuys na Schmela Gallery, Dusseldorf, em 26 Novembro 1965 [Foto: Reprodução]

Ao longo do século 20, enquanto as tecnologias da comunicação e reprodutibilidade avançavam junto com muitas revoluções, inúmeros movimentos artísticos e artistas com obras de temáticas políticas proliferaram como formas de denúncia ou enfrentamento ao status quo. Movimentos como o suprematismo russo – proibido pelos dirigentes soviéticos – o futurismo, dadaísmo, o muralismo mexicano, os Centros Populares de Cultura no Brasil, os Panteras Negras ou a arte feminista nos Estados Unidos, entre 1960 e 70, foram fundamentais na formação da opinião pública, inspirando transformações na arte e na sociedade.

Após a Segunda Guerra Mundial, diante da desilusão com o projeto civilizatório moderno ocidental, a própria ideia de discutir o belo e fazer poesia, especialmente na Europa, parecia para muitos intelectuais e artistas uma atividade inútil caso não estivesse ligada a alguma vontade crítica. Um dos expoentes dessa geração foi o artista alemão Joseph Beuys (1921-1986), um ex-piloto do exército nazista sobrevivente à queda de seu caça alvejado em combate, em 1943. Após recuperar-se, pelos cuidados de uma família de camponeses na Criméia (segundo ele), que o trataram com banha animal, mel e mantas de feltro, Beuys se dedicou profundamente à arte e ao ativismo.

Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim (1974), performance de Joseph Beuys fotografada por Caroline Tisdall, realizada na René Block Gallery, em Nova York [Foto: Reprodução]
A obra de Joseph Beuys eliminou as fronteiras entre arte, vida e política. Hoje, porém, o modelo do homem branco europeu sofre declínio, enquanto a revolução digital e a mercantilização exacerbada da arte parecem suplantar o modelo conceitual antroposófico e anti-capitalista de Beuys

Joseph Beuys estudou arte em Düsseldorf entre 1947 e 1951, tornando-se professor de escultura na Academia de Artes em 1961 sem, contudo, se restringir a uma só linguagem ou forma. Atento à crise do homem contemporâneo, sua prática reunia filosofia, sociologia e ecologia, acreditando na educação como uma atividade intimamente ligada à política. Seus alunos participavam de debates sobre questões atuais em paralelo às aulas de criação artística, e com eles formou o Partido dos Estudantes Alemães. Em 1979, co-fundou o Partido Verde alemão. Para Beuys, a política era arte e vice-versa, enquanto a vida era uma grande obra de arte esculpida por todos, continuamente.

Uma de suas teorias, a da “plástica social”, influenciada pela antroposofia, afirmava que cada pessoa podia contribuir para o bem-estar da sociedade por meio de uma ação criativa. Desta ideia surgiu o conceito da “escultura social”, com o qual Beuys diz que cada pessoa, por sua criatividade e imaginação, é um artista.

Joseph Beuys cria uma persona ativista e xamânica. Em instalações e performances rituais, invoca a natureza usando gordura, cera e mel de abelhas, pedras, troncos, sementes e até animais, vivos ou mortos. Exemplos notórios são as performances Como Explicar Arte para uma Lebre Morta (1965), na qual o artista, besuntado em mel e folhas de ouro, passeava com uma lebre morta por uma exposição em uma galeria fechada ao público; e Eu Amo a América, e a América Me Ama (1974). Nela o artista viajou para Nova York e foi direto para a galeria René Block, permanecendo por uma semana enrolado em feltro e convivendo com um coiote nativo. Jornais com as notícias do dia eram entregues e, em parte, sujados e destroçados pelo animal.

Rotary Bits And Blasthole Drillings (2019), de Marcela Moraga [Foto: Reprodução]

A obra de Beuys elimina as fronteiras entre arte, vida e política, ajudando a moldar a visão contemporânea dos artistas como agentes de transformação social. Hoje, porém, o modelo do homem branco europeu sofre declínio, enquanto a revolução digital e a mercantilização exacerbada da arte parecem suplantar o modelo conceitual antroposófico e anticapitalista de Beuys. Sua estética não espetacular é difícil de ser apreendida por novas gerações, moldadas no ativismo de internet e nos espaços de consumo. A sua estética, por vezes sombria, não é cativante, e o processo de museificação e historicização de sua obra a distanciam do público jovem que questiona cânones hegemônicos.

Mas, Joseph Beuys também desconstrói essa hegemonia, pensando a atividade do artista dentro de um ethos próprio, para além de mercados ou da academia. Seus temas, como criação coletiva, a relação interespécies, ecologia, o anti-imperialismo ou a crença na educação, estão presentes nas práticas artísticas atuais, somados a novas discussões e técnicas.

A arte política não se tornou anacrônica, mas pensá-la como uma doutrina, sim. Por outro lado, o simples fato de uma obra conseguir captar a sensibilidade de alguém já é um efeito político neste mundo materialista de tempos acelerados e superficiais. Seja por meio de performances, pinturas, grafites, ações comunitárias, fotografias ou até memes, a arte política continua existindo como ferramenta de conscientização, denúncia, comunhão, espiritualidade e revoluções. Não fosse assim, os artistas não mais incomodariam conjunturas de poder com proposições que escancaram realidades difíceis, estimulam pensamentos críticos e geram formas novas ainda capazes de desestabilizar estruturas de controle.

Zebra mussel (2022), pintura de Marcela Moraga com água de rio [Foto: Reprodução]