Começar pelo desejo pode ser uma opção para o encontro, mas também para uma enorme estrutura de expectativas que revela muito mais sobre a própria limitação do que sobre o desfrute da troca. Prefiro, aqui, me despir do desejo e chegar com saudade… Coreografias do Impossível é uma exposição que desenvolve teses em várias facetas dos campos das artes. E, para tomar posse de algumas delas, é pertinente iniciar o caminho considerando a proposta e o pensamento impregnador do título; partimos das próprias palavras que o compõem.
As palavras, unidades fundamentais da linguagem, são uma cola social, chave para a passagem de conhecimento, de pensamentos, emoções e múltiplas transmissões possíveis. Portadoras de significados, cada qual com suas próprias gradações, podem, inclusive, carregar o peso histórico e cultural de uma geração. As palavras, elas mesmas e suas acepções, estão em constante mudança, novos conceitos necessários se aplicam e se adaptam aos limites cotidianamente colocados, e, com a mesma força, limites ampliados que exprimem constante movimento. Demonstrando, assim, que as próprias palavras, mesmo como liga estrutural, não são suficientes para abarcar tudo e o todo.
A etimologia da palavra coreografia: escrever para mover junto. O termo coloca-se em um pensamento que parece construído para a dança, mas, na mesma proporção, tem a intenção direta na coletividade: junto. Ainda nela mesma, na coreografia, agregam-se as ondas sonoras (também chamadas de música ou ritmo, em alguns casos) por vezes inexistentes, e os traços a serem percorridos pelos corpos a partir deste som. A dança, então, manifesta-se como ideia e conceito. E, aqui, no plural. E no plural por não se comprometer com a totalidade nela mesma, e sim em acompanhar métodos e formatos diversos.
O FEITIÇO DO TÍTULO
Mas, se o termo vem da composição de escrever para mover junto, é importante notar a condição de contrato que a palavra traz: algo ou alguém (singular ou plural) escreve. Não se faz por si só, construção com e não para algo exclusivamente.
Impossível, o que não pode existir ou ser feito. Especificamente aqui, impossível é O impossível, definitivo e dono das coreografias, referência direta de existência, apesar de e porque é sobre a inexistência.
Escrever para uma movimentação coletiva a partir do que não pode existir ou ser feito. O feitiço nesse título aponta as barreiras e se projeta como entidade artística. Torna-se um campo fértil, onde a imaginação gera não apenas obras de arte, mas afirma que os limites existem e estão aí para ser colocados em xeque. Explora as expressões artísticas, delimitando algumas de suas finitudes.
Nesse contexto, não faz sentido a ideia de arte única, de fato, talvez nunca tenha feito. A unidade, normalidade ou totalidade apresentam potencial de agressão. As palavras têm papel incontornável, algumas permanecendo não ditas, mas sendo compreendidas de maneira ainda mais profunda. A linguagem, nesse cenário, encontra parcerias em múltiplas vozes, possibilitando colocar no plural e dançar (mover-se) ao som das ideias. As coreografias não se limitam à dança física, abarcam formas, formatos, soluções e resultados artísticos – cada disciplina artística em disputa com ela mesma, desafiando expectativas.
A coletividade desempenha um papel fundamental e inegavelmente perceptível nesse processo. Não é, absolutamente, uma empreitada solitária, e sim um esforço – ênfase na palavra ESFORÇO – coletivo. E também não é uníssono, são pessoas, corpos, ideias e coletividades se propondo a realizar.
E, mesmo depois da exposição aberta, segue encontrando-se em fluxos com seus públicos, suas próprias interpretações, emoções e rotas.

SILÊNCIOS COMO A NOTA MAIS ALTA
A dança é um veículo poderoso que, mesmo antes de ser formalmente chamada da dança, permitiu que expressões pudessem ser parte deste mundo, sem que as palavras contornassem tudo. Talvez das mais antigas expressões que foram capturadas pela arte; nesta edição da Bienal de São Paulo, agrega sofisticação não apenas como convite, mas com a presença do público que percorre o pavilhão como proposta de diálogo. As coreografias, linguagens das danças, são estruturas que se colocam como possibilidade de interação, contato e improvisação com as obras de arte pelo e no espaço. Bem-vindas, as coreografias desafiam a complacência e a conformidade. Um conjuro já pronto por estar em longa cocção por séculos. E se move sem desvios, em deslocamentos circulares, curvilíneos e poeticamente.
Se, ao citar dança, a música surge de forma intrínseca, como citar os silêncios? Não como pausa, mas como a nota mais alta, que foi recusada a ser escutada. A 35ª Bienal de São Paulo não é um convite a dançar no silêncio, mas, sim, afirma que o silenciamento sempre esteve potente e normalizador, e que na contraescuta ficamos aquecendo, alongando e aprendendo os mais antigos movimentos de manutenção da presença em práticas enquadradas como externas a um padrão.
A colaboração entre diferentes campos artísticos permite uma multiplicidade de ideias e abordagens, diversas formas de expressão dão resultados que permitem que a exposição seja complexa e, de algumas maneiras, ofereça leituras de conceitos abstratos e emocionais por estar ligada à dança e aos movimentos. Assim, mesmo não sendo absolutamente egoísta, a entrega da exposição – e a realização dos trabalhos – não é, de forma alguma, altruísta, ela arrecada, por estar em comunicação e em comunhão, a salvaguarda da possibilidade de encontro de integralidades. Arrebatamento e saúde são possibilidades de buscas objetivas conjuntas no campo da arte.
Das muitas formas de escrever sobre a 35ª edição da Bienal de São Paulo, uma delas está no percorrer. E não se trata do percurso, mas das respostas que podem ser desenvolvidas com as propostas do percurso. É sobre o ato de percorrer.
AFETO COMO ARMA DE DEFESA
O pavilhão, como propositor específico para várias experiências artísticas, nos convida não apenas a explorar as obras em exposição, mas também a nós mesmos. À medida que se caminha, o labirinto cai por terra e cada trabalho é um encontro, um ponto de partida. Ao nos determos diante de cada obra, cada trabalho entrega perspectivas que podem ser diferentes ou não, além de nos deter em performatividades de trabalhos pelo pavilhão e performances per se, uma ventura ao encontrar e estudar a programação proposta.
Das pinturas, esculturas, vídeos, performances, instalações: o afeto está presente na curadoria. Afeto como arma de defesa e como estrutura pedagógica. A coletividade das pessoas que imaginaram juntas esta exposição reforçou a integridade de cada uma delas como curadora. Nada isenta e tampouco normativa, mas definitiva e conclusiva. É forte o convite não somente para apreciar e fruir, mas para receber e se deixar envolver pela exposição. Celebração das expressões individuais, coletivas e comunitárias, celebração essa que podemos perceber como artes, em definitivo plural.

Chegamos. E entre o pulo ou o desvio já ganhamos opções não só para passar ao longo da exposição, mas também para perceber algumas soluções. Rigor absoluto. É possível ficar parado por alguns segundos ou horas apenas no primeiro metro da exposição. Esta exposição, como uma boa aula, nos abre para mais questões. Agradeço por isso.
Esta é a 35ª edição. Foram 35 tentativas. E o mais belo e, na mesma medida, o mais intenso é que é sobre tentar. Tentar nunca foi sobre a falha nem vago e automático exercício facilmente esvaziado. Mas esta específica edição não se autoproclama de sucesso. Mas o é. Quem diz é quem viu, viveu e percorreu. É um marco e uma marca. Uma possibilidade de assumir uma elegância no diálogo e na disputa.
São 30 mil metros quadrados de propostas e encontros, que não se ocuparam da dinâmica de ser preenchidos, pois não se trata de divagar sobre as ações epistemológicas do vazio: estão ocupando e se movendo. Cada passo foi pensado, traçado e construído, é um mergulho, mesmo na superfície de cada trabalho, nos fazendo dançar no fio da navalha com o estabelecido e o silenciado, o mistério e o segredo.
E, com um sorriso no canto da boca, o orgulho de ter passado por aqui e abrandado minha saudade. Que escolha, que risco… Risco como traço, corte, aventura e objeto.
SERVIÇO
35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do Impossível
Fundação Bienal de São Paulo
Até 10/12
35.bienal.org.br