“Ela é uma professora muito generosa”, diz Ana Hortides ao se referir a Anna Bella Geiger. Apesar dos sessenta anos que as separam, a relação entre as duas artistas é de longa data. Hortides foi aluna e assistente de Geiger durante 10 anos e a proximidade entre elas proporcionou um encontro frutífero no setor Base da quinta edição da ArPa, que vai até domingo 31/5, na Mercado Livre Arena Pacaembu.
O setor da feira de arte busca interseccionar projetos expositivos com uma série de conversas entre as artistas convidadas – Ana Mazzei, Anna Bella Geiger, Iole de Freitas e Mônica Nador – ao lado dos parceiros convidados por elas: Renan Marcondes, Ana Hortides, o grupo Escola Viva Guarani e o JAMAC, respectivamente.
Em “Paisagens pra lá e pra cá”, título da parede de Geiger e Hortides, a pesquisadora Gabriela DE Laurentiis definiu a paisagem contemporânea como algo amplo e em cruzamento entre suas práticas artísticas, durante a conversa no ginásio poliesportivo. Essa paisagem em trânsito vai dos subúrbios cariocas às montanhas chinesas, mas se encontram no quesito da crítica aos moldes da atualidade.
A Rota do Bicho da Seda n.2 (2026), painel belíssimo e inédito de Geiger, feito especialmente para essa edição da ArPa, reúne em cinco tempos paisagens, ilustrações, rotas e mapas em nanquim que comprou em viagens que fez a China no início dos anos 2000. Em sua pesquisa geopoética, que adentra uma reflexão política sobre o território, Anna Bella ampliou as imagens no papel pergaminho para o grande painel e interviu com colagens, costuras e outras sobreposições de mapas e silhuetas da América Latina.
Esse movimento entre geografias também aparece no trabalho de Hortides, que volta o olhar para o lugar onde nasceu e foi criada, na Vila Valqueire, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Os caquinhos, coletados em cemitérios de azulejos, funcionam como operadores poético-políticos de questões que envolvem o ambiente doméstico e íntimo, em uma espécie de colagem de cores e formas, assim como Anna Bella, além da apropriação de fragmentos da arquitetura.
Já o JAMAC, projeto criado por Mônica Nador em 2004 e espaço cultural no Jardim Miriam, na Zona Sul de São Paulo, levou flores para a ArPa. A floricultura de tecidos serigrafados é parte do inventário que fizeram das estampas do próprio acervo, criadas em momentos diferentes da trajetória do JAMAC, de Curitiba até a Noruega. No Base, eles são apresentados em displays de lojas de tecidos, vendidos por metro e enrolados como buquês, deslocando essas imagens para outros espaços e usos.
Bruno Oliveira, educador e artista do grupo, define em conversa com a celeste o JAMAC como o próprio trabalho de arte ou um coletivo-obra-coletivo. “É um trabalho de arte de 22 anos que está o tempo inteiro disputando outras imagens e outros imaginários de mundo, cidade, paisagem e cultura. É sempre um processo educativo e artístico”, explica. A conversa dos integrantes do JAMAC com a curadora Lisette Lagnado acontece hoje, sexta 29, às 17h.
Iole de Freitas, com quase sessenta anos de percurso artístico e atuação como professora em espaços de formação, como a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, é exemplo da prática de ensino não hierarquizada. “A única coisa que a gente faz na vida é a troca. Não existe outra maneira de aprender”, conta a artista. Para o estande da Raquel Arnaud na ArPa, ela convidou o grupo Escolas Vivas, movimento de apoio a projetos indígenas de fortalecimento e transmissão de saberes tradicionais. Dois Mantos inéditos produzidos por ela neste ano, um violeta e outro laranja, se encontram com as cinco pinturas da Escola Viva Guarani produzidas por Carlos Papá, Leo Wera, Alexandre Wera, Cristiano Wera Poty, Bruno Djeguaka e Alex Kar.
Na conversa no setor, a artista contou que essa não é a primeira parceria feita com seus Mantos. Ano passado, o grupo de dança Laboratório 60, realizou uma apresentação que interagia com sua exposição no Paço Imperial, no Rio de Janeiro. Os objetos escultóricos moldados em papel com contornos únicos, resultados de uma certa obsessão – como a artista pontua – com a contemplação da paisagem e do amanhecer do sol, interagem com esse mesmo retrato no ponto de vista do coletivo. “Essas obras são o acordar da Mata Atlântica, que seria a cura”, afirma Carlos Papá.
Diferente das relações estabelecidas por práticas de aprendizado, Ana Mazzei, artista multidisciplinar e professora acadêmica, e Renan Marcondes, dançarino e performer, compartilham um vínculo construído a partir de experiências de trabalho conjuntas, como na colaboração prévia de textos críticos. Pela primeira vez, eles dividem uma parede que lida com o corpo sem apresentá-lo. O interesse pelas arquiteturas teatrais e a performance atravessa ambos os trabalhos – de pintura, escultura, fotografia e vídeos – que têm certo interesse nas ausências e no desaparecimento do corpo. O corpo é um sujeito intuíto pelas lógicas espaciais da obra de Mazzei, enquanto Marcondes, na série Repouso (2023-2024), costura sobre a cortina de veludo vermelha uma imagem quase invisível, exigindo uma aproximação para enxergar os objetos deixados em repouso após o uso do corpo naquela situação.

Nos dois vídeos dos artistas, os corpos também surgem e desaparecem do espaço. “A gente aprendeu uma certa narrativa sobre performance bastante eurocêntrica e estadunidense, que vê artistas da performance como sujeitos heroicos. E quanto mais pesquisamos, mais percebemos que não é esse o caso; questões da imobilidade, passividade e do não aparecer são muito importantes para vários que trabalharam nessa linguagem. É muito diferente dessa versão um pouco neoliberal da performance que temos hoje, em que ela aparece como positividade, ativação, participação”, diz Renan Marcondes à celeste. Ele e Ana se encontram no Base hoje às 14h, com a curadora Galciani Neves.
TRABALHO X FORMAÇÃO
Na investigação de suportes não convencionais, no estande da Casa Triângulo, no chamado Setor Principal, mais um aluno de Anna Bella Geiger se destaca. Eduardo Berliner transforma a percepção do cotidiano na construção pictórica de arquiteturas afetivas – outra investigação da paisagem. No mesmo estande, o coletivo assume vivid astro focus (AVAF) – que expõe o objeto animada verdadeira antagônica fullgás (2026) – também está entre os artistas que formam artistas. AVAF é tutor de nomes significativos da pesquisa pictórica, como a artista Raabe Campos e o duo O Verso Coletivo, formado por Lucas Almeida e Bruno Alves. Assistentes do coletivo, desde 2019 realizam uma pesquisa sobre seus roteiros de circulação na paisagem urbana paulistana. A pintura experimental, expandida e sobretudo colorida do AVAF – também nutriu a poética de Thiago Barbalho, outro ex-assistente que hoje é representado pela Galeria Nara Roesler. E se o tema é a cidade, observe-se no estande da Lume o conjunto de obras de Rodrigo Sassi. Os rizomas cindidos com materiais brutos da construção civil como o aço, o ferro e o concreto e outros metais, há mais de 15 anos vastamente explorados pelo artista, são uma referência incontornável para artistas de novas gerações que pensam e escavam a memória urbana.

Ainda no setor principal da feira, destacamos outras algumas referências históricas para muitas gerações da arte brasileira, como Antonio Dias, com Arid (1969) no estande colaborativo da Athena e a Verve, e o pintor e escultor Farnese de Andrade, que tem o centenário celebrado no estande solo da Pinakotheke.

SERVIÇO
ArPa Feira de Arte 2026
Até 31 de maio
Mercado Livre Arena Pacaembu
Rua Capivari (Portão 23)