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[Foto: Rita Maria, com edição de Ambrosio Bandeira]
Postado em 11/10/2024 - 3:11
Barafunda

A Galeria Polvos abriu suas portas para exposição artística numa luxuosa embarcação da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. O denominado Lloyd Pará, ícone de distinção e elegância nos transportes marítimos, é destacado por acolher presidentes de repúblicas latino-americanas em seus suntuosos salões, restaurantes estrelados, galerias de arte e salas reservadas para pessoas de alta estirpe. Voltando do Mediterrâneo, percorreu todo o litoral brasileiro e atracou na Ilha de Santa Catarina: expectativa de muitos anos agora contemplada graças a demanda e apoio das grandes fortunas locais.

A mostra foi inaugurada num local central e de visão privilegiada a todas/os passageiras/os acomodadas/os nos balcões dos três andares do transatlântico que, agora, flutua nas águas contíguas a esse “pedacinho de terra perdido no mar”. Foram exibidas obras de vinte e três artistas de várias nacionalidades que participaram de uma mesma residência artística, realizada em país estrangeiro e financiada por um mecenas anônimo. Após o jantar, aconteceu o leilão milionário patrocinado por uma prestigiada casa londrina. A disputa das obras foi regada pelo mais caro uísque. Peças arrematadas por valores muito além do esperado! Grandes negócios! Evento perfeito!

Por fim, à madrugada, o comandante caminha plácido pelo convés ao som de um melancólico violino quando encontra uma senhora aparentando estar deprimida e sendo observada por um grupo de cafeeiros, plantadores de soja, banqueiros e empresários ainda vestindo trajes a rigor. Esbarra, também, com um deslumbrado e franzino personagem que, vestindo o de sempre que tinha ali por perto, passara a noite de obra em obra tecendo comentários repletos de hilárias críticas. Trocam algumas palavras, riem à boca larga e se despedem.

No entanto, a tranquilidade desse momento foi abruptamente interrompida por uma notícia bizarra e perturbadora! Os seguranças, afobados, relatam que as obras de arte desapareceram do inviolável depósito onde estavam protegidas. Imediatamente, todas/os lotam o convés e acometem-se de uma desconcertante confusão ao se esclarecer que haviam desaparecido, apenas, as películas/peles formadas pelas diferentes camadas de tintas que compunham as imagens impressas nas telas que, agora, jazem em branco, nuas, naquele compartimento. Os cavaletes e outros suportes mantêm vivas as cores.

A polícia inicia seu trabalho e, mesmo cumpridos todos os protocolos, nada desvenda sobre os meandros do sinistro. A complexidade da tarefa está centrada num detalhe específico, ou seja, localizar algo de materialidade extremamente distinta das costumeiras por tratar-se de uma pele, por assim dizer, que recobre mais do que cenas, figuras, personagens, recobre projetos reconhecidos em instituições balizadas, dados, informações e memórias resguardados em nuvens incógnitas e, com a revolução por ele trazida, vida e sociedade.

Foram chamados à delegacia: o comandante, a tripulação em geral e os simples fruidores das obras de arte. Algumas/uns, foram detidos. As/os que as arremataram não possuem motivos para tal. O lugar que ocupam na sociedade os blinda quanto a qualquer suspeita. Além do mais, são os principais investidores da transformação da região portuária, higienizando-a e garantindo a ascensão dessa provinciana cidade rumo aos avanços constatados em outras capitais do país.

A Ilha, antigo refúgio de serenidade e beleza, torna-se, agora, o centro de uma investigação intensa. Em meio ao estarrecimento de todas/os, outros fatos abalam o cotidiano: as imagens suprimidas das obras – algumas de arrepiar – começam a ser vistas nas empenas de algumas mansões e, profanamente, na própria catedral metropolitana; no depósito, algumas das telas em questão, para complicar um pouco mais, apresentam, por vezes, sinais de recuperação total ou parcial de suas cores e formas, desfigurando-se em seguida.

Inúmeros passageiros, vindos em outros navios, desembarcam na Ilha seduzidos pelo fenômeno e movidos pela curiosidade sobre a famosa e potente magia aqui reinante. Mais uma preocupação dos autóctones: gente por todos os cantos, invenções de notícias falsas confundindo os juízos, energia pesada e difusão desse material “pra lá” de esquisito.

Ilustração de Ambrosio Bandeira

As hipóteses levantadas seguem as mesmas: ora recaem sobre algo místico pela interferência de alguma divindade marítima, ora às bruxarias locais, ora relacionadas à qualidade duvidosa das tintas, ora à possibilidade de se tornarem mercadoria em outros portos. Há os que acreditam, simplesmente, que tudo se deva à vida que se vive, mesmo, onde tudo parece ser possível.

O sumiço das peles segue um mistério para grande parte da população. Desde o começo, a chegada do Lloyd Pará não lhes caiu muito bem: “cheira a mau agouro!”. Com o intuito de participar ativamente das buscas, empenha-se do jeito que pode: espreita o porto por entre os prédios e casebres da cidade ao mesmo tempo em que se sente espreitada pela tal embarcação; faz especulações; conjetura e segue na espera de notícias sobre o acontecido que dá mostras de ser coisa do outro mundo. Propõe, então, correntes de oração, visita a terreiros, benzedeiras, imbuída do mesmo objetivo: desvelar o enigma que suprime a paz.

Na prisão, restou apenas o hilário “crítico de arte” fazendo piadas sobre o fato de que, talvez, tudo isso possa ser uma “pegadinha”, intrigando mais ainda as autoridades da lei. Passaram-se meses e nenhuma solução! No dia de hoje, um grupo de mulheres e homens atordoadas/os pela opressão do inusitado e considerando que a resolução dos problemas deva ser coisa do próprio povo, invade sorrateiramente a nau, abre portas e, por sua conta, vasculha os compartimentos, o que resulta em novas prisões.

Na cadeia, o “crítico” questiona seus novos pares: “Revistaram todos os gabinetes? Tive um sonho!” Outra perícia e nada é descoberto. A polícia divulga, unicamente, que nenhuma das telas saiu do tal depósito nem antes e nem depois do acontecido, pois as câmeras de segurança nada registraram nesse sentido.

O quebra-cabeças continua a desafiar a lógica e a paciência de todas/os enquanto o piadista, quena cadeia recebe visitas sistemáticas da senhora deprimida, sonha sonhos de conteúdos variados: fetiche, progresso, linearidade, classe social, impermanência, além de outros tantos. A senhora estuda sonhos, conhece sua dinâmica e ensaia interpretações sobre o sonhado.

Das visitas, forja-se uma forte cumplicidade, acolhimento mútuo, estudos e conversas sobre a possibilidade de desvelarem essa e outras questões como, por exemplo o que, como pele e mistério, reveste aquilo que a vida social abriga e que a abriga, também. Além disso, refletem sobre as razões que levam alguéns, na barafunda da produção de seus viveres e com suas vis artimanhas, a encobrir a realidade com certas peles ou sobre àquelas razões que impõem arrancar as camadas que a transfiguram. Ainda, encontrarem respostas para uma intrigante questão: seria, a “magia das peles” e toda a comoção por ela produzida, um discurso/arte da própria Galeria Polvos que, com seus tentáculos, quer sacudir sujeiras, sujeitas/os e tudo mais?

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Silvia Zanatta da Ros é professora aposentada pela UFSC, com residência em Florianópolis. Artista visual, participando de exposições coletivas desde 1996 com expressões variadas: acrílico, carvão, encáustica, óleo; bordado livre e outros têxteis como mosaico em tecido, mantos, esculturas; poesias, textos e, recentemente, com cerâmica.