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O mais importante é inventar o Brasil que nós queremos (2021), de Elian Almeida, parte da curadoria de Brasil Futuro [Foto: Agência Brasil]
Postado em 12/01/2024 - 3:49
Brasil Futuro e o espírito-cão, um ano depois
E se o primeiro espaço a ser invadido pelos golpistas do 8 de Janeiro não fossem os palácios e sim uma exposição?

No dia primeiro de janeiro de 2023, o Brasil despertou tomado por ânsias. Toda a nação revelara suas apostas e sonhos nas urnas eletrônicas no ano anterior. Toda a nação apostara em um dos dois projetos políticos, filosóficos e civilizatórios que foram apresentados a uma só nação mas que, no entanto, eram, como ainda são, essencialmente divergentes. Sendo assim, o dia primeiro de janeiro enchia a nação de gosto e desgosto, celebração e repulsa, orquestração e medo. Sim, absolutamente comum era a sensação de que algo aconteceria ao presidente democraticamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que subiria à rampa e oficialmente seria reconhecido como Presidente da República Federativa do Brasil. Especulações apontavam para tentativas de golpe ou planos não executados, como o descoberto pela Polícia Federal, segundo a qual o mesmo acusado de planejar o ataque a bomba no aeroporto da Capital Federal também havia arquitetado um plano para assassinar Lula na cerimônia de posse, como revelou o Ministro da Justiça, Flávio Dino. O que se decobriu, no entanto, é que também haviam planos golpistas para depois que Lula tomasse posse e, com ele, a democracia fosse oficialmente reconquistada.

 

Palácio do Supremo Tribunal Federal destruído, após distúrbios antidemocráticos em 8/1/2023 [Foto: Agência Brasil]
 

Embora pareça generalista, não seria ingênua a afirmação de que grande parte da nação assistiu ou reagiu absolutamente atônita ao imenso estrago feito nos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Não há surpresa alguma, tendo em vista o “copia e cola” do declínio estadunidense, que a invasão não significava apenas a tentativa de tomar a Presidência da República, mas sim de ocupar o símbolo. Digo, como os cristão fizeram com as esculturas romanas e Napoleão fez com ícones culturais de inúmeras nações. Trata-se de um saquear símbolos para esvaziá-los do poder “emanado” por aquele que se imagina ser o inimigo. É então, após o esvaziamento, que símbolos, construções e monumentos geralmente são convertidos, de forma mais ou menos célere ou radical, em meros espelhos do poder que lhes saquearam. Espelhos de quem tornou-os vazios. Sendo assim, podemos compreender a produção de efeitos simbólicos decorrente da invasão. Dois dos espaços invadidos merecem especial atenção. O primeiro é o Supremo Tribunal Federal, que recebeu extraordinária fúria golpista porque revelou-se competente para cumprir a função de preservar a democracia, quando o bolsonarismo ameaçou-a enfaticamente. 

O segundo espaço está localizado antes da Esplanada dos Três Poderes. Foi na intitulada Zona Cívico-Administrativa que a horda antidemocrática encontrou seu primeiro alvo: o Museu Nacional da República (MuN). Projetado por Oscar Niemeyer, o MuN faz parte do Conjunto Cultural da República e abrigava Brasil Futuro: As Formas da Democracia, exposição que tem como razão de existir a celebração da democracia reconquistada com a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva.

Retomadas (2021), de Edgar-Kanayko-Xakriaba , parte da curadoria de Brasil Futuro [Foto: Divulgação]
A mostra é construída com uma série de reflexões e propostas para a reconstrução de pilares políticos, sociais, econômicos e culturais que foram profundamente rejeitados pelo grupo que, naquele 8 de janeiro, se propôs a ocupar (e tomar) os símbolos máximos da democracia do país. Em razão da invasão, o Museu da República e, consequentemente, a mostra Brasil Futuro: As Formas da Democracia, ficaram fechados por 15 dias, até que a coordenação da exposição, em conjunto com a primeira dama, Janja Silva, conseguiram que a Guarda Nacional protegesse o Museu, a exposição e o público visitante.

Essa, digamos, “atenção especial” dada pelos golpistas à mostra seria facilmente explicada pela ideia de que bolsonaristas odeiam a cultura, seus mecanismos de fomento e expressões populares e, portanto, arremeteram contra uma exposição que busca refletir as formas da democracia. Embora essa linha de raciocínio possa se mostrar verdadeira e correta, ela torna a questão mais simples do que parece. Afinal, existem sim obras de arte enaltecidas e referenciadas pela direita reacionária no Brasil. Um exemplo é aquilo que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de “monumentos coloniais”. No texto “O que fazer com as estátuas e monumentos coloniais”, o autor aponta uma relação nítida entre a celebração a monumentos e a dominação. Mbembe afirma que “não existe dominação sem uma espécie de culto dos espíritos, nesse caso o espírito-cão, o espírito-de-porco, o espírito-canalha tão característicos de todo imperialismo, tanto ontem como hoje. Por sua vez, o culto dos espíritos requer, por completo, uma maneira de evocação dos mortos – uma necromancia e uma geomancia”. Segundo o autor, necromancia é o feitiço para os mortos praticado pela branquitude que, no caso do Brasil, é guardiã do atraso e operária incansável da empresa colonial. 

Para Mbembe, a adoração é facilmente explicada, pois “vendo essas faces de ‘morte sem ressurreição’, é fácil compreender o que foi o poder colonial – um poder tipicamente funerário, tanto que tendia a retificar a morte dos africanos e a negar qualquer valor à sua vida”. Ou seja, a presença dos monumentos coloniais e a forma como as cidades e centros são organizados ao redor destes produzem a noção de que as nossas sociedades só existem graças aos corpos brancos colonizadores e que são essas as vidas dignas de celebração, respeito e enaltecimento. Apenas essas. Segundo essa perspectiva, todos os símbolos que pareçam contrários a tal dominação e “poder tipicamente funerário” ou genocida não merecem respeito e, no auge da inconsequência, deveriam ser destruídos. Foi o que aconteceu com a invasão da Praça dos Três Poderes e do Museu da República. Contudo, esse desprezo pelo diferente não está tão distante da perspectiva ocidental de arte.

Segundo a historiadora de arte Estela Ocampo, autora do livro Apolo y la Máscara, a Europa Ocidental construiu conceitos capazes de fundamentar um circuito de produção e consumo de arte. Tais conceitos, no entanto,  “produtos de uma peculiar situação histórica e social, portadores de uma particular cosmovisão, não eram, nem são, suficientemente amplos para poder incluir fenômenos de uma cosmovisão diferente ou mesmo contraditória”. Ou seja, o discurso de universalismo eurocristão e ocidental é tão universal quanto eram democráticos os grupos que invadiram o Museu da República. 

"O DISCURSO DE UNIVERSALISMO EUROCRISTÃO E OCIDENTAL É TÃO UNIVERSAL QUANTO ERAM DEMOCRÁTICOS OS GRUPOS QUE INVADIRAM O MUSEU DA REPÚBLICA"
Detalhe da obra agitprop, de Aline Albuquerque, na exposição Brasil Futuro [Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil]

Em cartaz no Museu de Arte no Rio (MAR), até 3/3, a mostra Brasil Futuro: As Formas da Democracia não apenas celebra a democracia política, mas também a artística. A mostra conta com inúmeros artistas, entre os/as quais negros/as, LGBTs, nordestinos, mulheres e indígenas formam absoluta maioria. Os suportes utilizados são diversos. Não há apenas aquilo que se aprende e ensina nas faculdades de Belas Artes, por exemplo. Tampouco há uma hierarquia entre suportes, matérias, técnicas e narrativas “clássicas” e as ditas populares, jovens e/ou periféricas. A curadoria também é diversa e vai se alterando à medida que a exposição faz sua itinerância. Em Brasília, onde foi montada a primeira versão, a curadoria foi formada por Lilia Schwarcz, Rogério Carvalho, Paulo Vieira e Márcio Tavares. De Belém, a artista Roberta Carvalho faz parte da curadoria adjunta. Em Salvador, Daniel Rangel, Adriana Cravo, Lázaro Roberto e José Carlos Ferreira, do ZUMVÍ Arquivo Afro-Fotográfico, e Vilma Santos e José Eduardo Santos, do Acervo da Laje, integram a curadoria adjunta.

 

Manifestação contra o genocídio no Afoxé Kori-Efan (2019) [Foto: Lázaro Roberto / Arquivo Afrofotográfico Zumvi]
Rogério Carvalho, um dos curadores da exposição Brasil Futuro e curador dos acervos do Palácio do Planalto e do Palácio do Alvorada, em conversa com a celeste, afirma que “o planalto ter sido atacado e ter ‘símbolos’ do patriarcado branco burguês e europeu maculados me fez refletir ainda mais naquilo que para mim era importante enquanto curador de Palácios em Brasília: de quem é esse Palácio? Quem o representa? Para que ele serve? Agora meu foco está em politica de aquisição e adequação do acervo da Presidência da República no intuito de termos artistas negros, LGBTQIAPN+, artistas de rua, indígenas, que de fato constituem nosso país e que por direito são representantes do que é ser brasileiro”.

Tanto o Acervo da Laje quanto o ZUMVÍ são instituições de arte fundadas por pessoas negras nas periferias de Salvador. Ambas realizam, na prática e no discurso, aquilo que melhor podemos conceber em termos de democracia e arte no Brasil e no mundo. Ou seja, a exposição Brasil Futuro: As Formas da Democracia propõe uma reflexão sobre a democracia em inúmeros sentidos. A mostra nos garante que a arte realmente preserva. O poeta carioca Vinicius de Moraes, em crônica publicada no Jornal do Brasil, em dezembro de 1969, conclui que “a arte não ama os covardes: e essa afirmação não pode ser mais antifascista”. 

"O POETA CARIOCA VINICIUS DE MORAES, EM CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL DO BRASIL, EM DEZEMBRO DE 1969, CONCLUI QUE “A ARTE NÃO AMA OS COVARDES: E ESSA AFIRMAÇÃO NÃO PODE SER MAIS ANTIFASCISTA”