No dia primeiro de janeiro de 2023, o Brasil despertou tomado por ânsias. Toda a nação revelara suas apostas e sonhos nas urnas eletrônicas no ano anterior. Toda a nação apostara em um dos dois projetos políticos, filosóficos e civilizatórios que foram apresentados a uma só nação mas que, no entanto, eram, como ainda são, essencialmente divergentes. Sendo assim, o dia primeiro de janeiro enchia a nação de gosto e desgosto, celebração e repulsa, orquestração e medo. Sim, absolutamente comum era a sensação de que algo aconteceria ao presidente democraticamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que subiria à rampa e oficialmente seria reconhecido como Presidente da República Federativa do Brasil. Especulações apontavam para tentativas de golpe ou planos não executados, como o descoberto pela Polícia Federal, segundo a qual o mesmo acusado de planejar o ataque a bomba no aeroporto da Capital Federal também havia arquitetado um plano para assassinar Lula na cerimônia de posse, como revelou o Ministro da Justiça, Flávio Dino. O que se decobriu, no entanto, é que também haviam planos golpistas para depois que Lula tomasse posse e, com ele, a democracia fosse oficialmente reconquistada.

Embora pareça generalista, não seria ingênua a afirmação de que grande parte da nação assistiu ou reagiu absolutamente atônita ao imenso estrago feito nos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Não há surpresa alguma, tendo em vista o “copia e cola” do declínio estadunidense, que a invasão não significava apenas a tentativa de tomar a Presidência da República, mas sim de ocupar o símbolo. Digo, como os cristão fizeram com as esculturas romanas e Napoleão fez com ícones culturais de inúmeras nações. Trata-se de um saquear símbolos para esvaziá-los do poder “emanado” por aquele que se imagina ser o inimigo. É então, após o esvaziamento, que símbolos, construções e monumentos geralmente são convertidos, de forma mais ou menos célere ou radical, em meros espelhos do poder que lhes saquearam. Espelhos de quem tornou-os vazios. Sendo assim, podemos compreender a produção de efeitos simbólicos decorrente da invasão. Dois dos espaços invadidos merecem especial atenção. O primeiro é o Supremo Tribunal Federal, que recebeu extraordinária fúria golpista porque revelou-se competente para cumprir a função de preservar a democracia, quando o bolsonarismo ameaçou-a enfaticamente.
Estava no Museu Nacional da República, em Brasília, para ver a exposição “Brasil Futuro” e um grupo de patriotários começou a tocar nas obras. Por segurança, o museu foi fechado e ninguém mais entra hoje. pic.twitter.com/511MR99mIo
— Cayo (@cerrativista) January 8, 2023
O segundo espaço está localizado antes da Esplanada dos Três Poderes. Foi na intitulada Zona Cívico-Administrativa que a horda antidemocrática encontrou seu primeiro alvo: o Museu Nacional da República (MuN). Projetado por Oscar Niemeyer, o MuN faz parte do Conjunto Cultural da República e abrigava Brasil Futuro: As Formas da Democracia, exposição que tem como razão de existir a celebração da democracia reconquistada com a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa, digamos, “atenção especial” dada pelos golpistas à mostra seria facilmente explicada pela ideia de que bolsonaristas odeiam a cultura, seus mecanismos de fomento e expressões populares e, portanto, arremeteram contra uma exposição que busca refletir as formas da democracia. Embora essa linha de raciocínio possa se mostrar verdadeira e correta, ela torna a questão mais simples do que parece. Afinal, existem sim obras de arte enaltecidas e referenciadas pela direita reacionária no Brasil. Um exemplo é aquilo que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de “monumentos coloniais”. No texto “O que fazer com as estátuas e monumentos coloniais”, o autor aponta uma relação nítida entre a celebração a monumentos e a dominação. Mbembe afirma que “não existe dominação sem uma espécie de culto dos espíritos, nesse caso o espírito-cão, o espírito-de-porco, o espírito-canalha tão característicos de todo imperialismo, tanto ontem como hoje. Por sua vez, o culto dos espíritos requer, por completo, uma maneira de evocação dos mortos – uma necromancia e uma geomancia”. Segundo o autor, necromancia é o feitiço para os mortos praticado pela branquitude que, no caso do Brasil, é guardiã do atraso e operária incansável da empresa colonial.
Para Mbembe, a adoração é facilmente explicada, pois “vendo essas faces de ‘morte sem ressurreição’, é fácil compreender o que foi o poder colonial – um poder tipicamente funerário, tanto que tendia a retificar a morte dos africanos e a negar qualquer valor à sua vida”. Ou seja, a presença dos monumentos coloniais e a forma como as cidades e centros são organizados ao redor destes produzem a noção de que as nossas sociedades só existem graças aos corpos brancos colonizadores e que são essas as vidas dignas de celebração, respeito e enaltecimento. Apenas essas. Segundo essa perspectiva, todos os símbolos que pareçam contrários a tal dominação e “poder tipicamente funerário” ou genocida não merecem respeito e, no auge da inconsequência, deveriam ser destruídos. Foi o que aconteceu com a invasão da Praça dos Três Poderes e do Museu da República. Contudo, esse desprezo pelo diferente não está tão distante da perspectiva ocidental de arte.
Segundo a historiadora de arte Estela Ocampo, autora do livro Apolo y la Máscara, a Europa Ocidental construiu conceitos capazes de fundamentar um circuito de produção e consumo de arte. Tais conceitos, no entanto, “produtos de uma peculiar situação histórica e social, portadores de uma particular cosmovisão, não eram, nem são, suficientemente amplos para poder incluir fenômenos de uma cosmovisão diferente ou mesmo contraditória”. Ou seja, o discurso de universalismo eurocristão e ocidental é tão universal quanto eram democráticos os grupos que invadiram o Museu da República.
Em cartaz no Museu de Arte no Rio (MAR), até 3/3, a mostra Brasil Futuro: As Formas da Democracia não apenas celebra a democracia política, mas também a artística. A mostra conta com inúmeros artistas, entre os/as quais negros/as, LGBTs, nordestinos, mulheres e indígenas formam absoluta maioria. Os suportes utilizados são diversos. Não há apenas aquilo que se aprende e ensina nas faculdades de Belas Artes, por exemplo. Tampouco há uma hierarquia entre suportes, matérias, técnicas e narrativas “clássicas” e as ditas populares, jovens e/ou periféricas. A curadoria também é diversa e vai se alterando à medida que a exposição faz sua itinerância. Em Brasília, onde foi montada a primeira versão, a curadoria foi formada por Lilia Schwarcz, Rogério Carvalho, Paulo Vieira e Márcio Tavares. De Belém, a artista Roberta Carvalho faz parte da curadoria adjunta. Em Salvador, Daniel Rangel, Adriana Cravo, Lázaro Roberto e José Carlos Ferreira, do ZUMVÍ Arquivo Afro-Fotográfico, e Vilma Santos e José Eduardo Santos, do Acervo da Laje, integram a curadoria adjunta.

Tanto o Acervo da Laje quanto o ZUMVÍ são instituições de arte fundadas por pessoas negras nas periferias de Salvador. Ambas realizam, na prática e no discurso, aquilo que melhor podemos conceber em termos de democracia e arte no Brasil e no mundo. Ou seja, a exposição Brasil Futuro: As Formas da Democracia propõe uma reflexão sobre a democracia em inúmeros sentidos. A mostra nos garante que a arte realmente preserva. O poeta carioca Vinicius de Moraes, em crônica publicada no Jornal do Brasil, em dezembro de 1969, conclui que “a arte não ama os covardes: e essa afirmação não pode ser mais antifascista”.