icon-plus
Diane Lima, Rosana Paulino e Adriana Varejão [Fotos: Wallace Domingues, Rodrigo Ladeira e Tinko Czetwertynski]
Postado em 09/10/2025 - 11:00
Brasilidade em compasso
Pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza 2026 tem curadoria de Diane Lima e participação das artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão

Sintonizada em frequências menores, Koyo Kouoh afirma em seu texto curatorial que embora muitas vezes perdida na cacofonia ansiosa do caos atual que assola o mundo, a música continua. “As canções daqueles que produzem beleza apesar da tragédia, as melodias dos fugitivos que se recuperam das ruínas, as harmonias daqueles que reparam feridas e mundos”. É nesse terreno que a 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, intitulada In Minor Keys, passa a reverberar o projeto da primeira mulher africana a ser nomeada para o cargo de curadora-chefe, na esteira de sua morte inesperada em maio deste ano.

A mostra será conduzida pela equipe selecionada por Kouoh, um coletivo formado pelos consultores Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Helene Pereira e Rasha Salti, pelo editor-chefe Siddhartha Mitter e o assistente curatorial Rory Tsapayi.

O Pavilhão do Brasil também escuta os sussurros do chamado curatorial, que parece ser escrito em outro tempo, como observa Diane Lima, curadora da representação brasileira. A Fundação Bienal de São Paulo anunciou nesta quarta-feira, 8/10, a participação nacional na mostra, junto com as artistas selecionadas para integrar o projeto Comigo Ninguém Pode: Rosana Paulino e Adriana Varejão.

A convocação de um movimento que encoraja os artistas a pensar como uma composição musical, como o jazz, imaginando universos que transcendem os limites da forma e proporcionam experiências expositivas sensoriais, inspirou Lima a propor o projeto coletivo da dupla inesperada. “Esse movimento está presente quando a gente analisa a trajetória das artistas, especialmente quando pensamos nessa produção da beleza, apesar da tragédia, do trauma colonial e da violência na história. Esse diálogo também passa por paredes da memória e ruínas que encontramos nas obras”, completa a curadora em entrevista à celeste.

Pavilhão do Brasil © ReportArch/ Andrea Ferro/ Fundação Bienal de São Paulo

No título, Lima explora uma metáfora ambígua que evoca tanto a planta homônima quanto a expressão popular. Comigo ninguém pode habita a entrada de muitas casas brasileiras e é ao mesmo tempo símbolo de proteção, resiliência e toxicidade. Segundo a curadora, esse estado de espírito reflete o contexto contemporâneo e emerge como um gesto de manifestação, denúncia, transcendência e metamorfose.

As aproximações entre Paulino e Varejão foram observadas por Lima pela primeira vez em um texto do catálogo da exposição Suturas, Fissuras, Ruínas, da artista carioca, apresentada na Pinacoteca de São Paulo em 2022. Mais do que afinidades temáticas – como a iconografia colonial –, a curadora destaca convergências cromáticas e de materialidade, ressaltando que as fricções entre as obras intensificam o diálogo e ampliam o campo de reflexão sobre suas diferenças. 

Ao refletir sobre a questão da representação feminina no pavilhão, Rosana Paulino observa que, em seus 30 anos de trajetória, seria impensável imaginar esse espaço ocupado por três mulheres, sendo uma delas uma curadora negra. “É significativo pensar que o Brasil tem a oportunidade de se apresentar a partir de uma produção bem brasileira – que revise a história e formação do país, mas que também traga esses elementos de proposição a partir do território nacional, para pensar qual papel o Brasil ocupa ou pode vir a ocupar nesse cenário. Eu o sentia como um país que importava as tendências e reagia a elas. Agora, podemos nos tornar propositores desde o nome [Comigo ninguém pode] que é muito instigante”, afirma a artista.

Paulino e Varejão afirmam que as discussões sobre comissionamentos para a mostra ainda estão em curso, já que dependem de definições práticas da expografia do pavilhão. As artistas adiantam, contudo, que consideram inclusive a possibilidade de colaborações em obras inéditas. “Esta Bienal tem um protagonismo feminista, sobretudo do feminismo negro. Estou aqui como parceira, em um lugar de escuta e diálogo, e acredito que o diálogo deve se sobrepor às obras individualmente – como um exercício de coletividade para habitar esse espaço afetivo”, comenta Varejão, retomando o pensamento de Koyo Kouoh sobre artistas que trabalham com melodias intrincadas a serem ouvidas tanto coletivamente quanto em seus próprios termos.

Serviço
Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – Bienal de Veneza
Giardini Napoleonici di Castello, Padiglione Brasile, 30122, Veneza, Itália
De 9 de maio a 22 de novembro de 2026