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Capa da edição brasileira, recém-lançada pela Ikrek (Foto: Divulgação)
Postado em 18/01/2024 - 4:32
O BRANCO DE NIEMEYER E A MIOPIA DO MUNDO
Maior referência sobre arquitetura brasileira, catálogo de Brazil Builds (1943) é editado em português com 80 anos de atraso e (ainda) pede leitura crítica

“O que associamos ao Brasil – café, borracha, madeiras raras, papagaios, orquídeas?” Abre-se assim, perfumada, a história contada no livro-catálogo Brazil Builds: Architecture New and Old, de 1943, agora traduzido e reeditado como Brasil Constrói: Arquitetura Moderna e Antiga, pela Ikrek Edições. Três séculos de desenvolvimento da arquitetura brasileira, da era colonial à moderna, foram narrados por Philip Goodwin e Kidder Smith, enviados do MoMA-NY ao Brasil para a pesquisa que resultaria na exposição histórica e historiográfica Brazil Builds, no incensado templo da arte moderna em Nova York. A viagem de pesquisa, articulada pela Comissão de Relações Exteriores do American Institute of Architects, era parte de um projeto político de aproximação com o Brasil, que viria a ser aliado dos EUA na Segunda Guerra Mundial. A exposição homônima foi histórica pela repercussão e historiográfica pela vocação. Debrucemo-nos sobre essas velhas páginas, agora renovadas, sem nos esquecer do que são: narrativas lineares de um Brasil pintado de branco, por gringos e para gringos.

Por que essa relíquia nunca havia sido publicada no Brasil? A exposição, sim, itinerou por aqui e nos serviu como um reflexo de nós mesmos, de como somos vistos lá de cima. Lá dos Nortes. Mas as palavras não vieram, seguiram sendo relíquias, envelhecendo como cachaça em barril de uísque. Contudo, o livro tornou-se referência para a história e a crítica da arquitetura nacional, simplesmente porque na época do lançamento, no Brasil, não tínhamos outro. De acordo com o novo posfácio de Mônica Junqueira, chefe do Departamento de História e Estética do Projeto da FAU-USP, “Brazil Builds foi a primeira publicação a estabelecer uma linha do tempo na arquitetura brasileira”, dentro e fora do país.

Capa do catálogo original do MoMA-NY (Foto: Divulgação)

E que linha do tempo! Com belos textos introdutórios à dicotomia “antigo” vs. “moderno”, com belos comentários às obras, mais belas ainda, conta-se um Brasil que impressionou. Um “país que foi verdadeiramente incrível”, como afirma Francesco Perrotta-Bosch, doutorando da FAU-USP, em resenha do livro publicada no jornal Folha de S.Paulo, na qual elogia e se deixa enamorar por esse discurso antigo de Brasil. Afinal, com tom encantado, pouco tecnocrático e breve, o livro ainda se apresenta como majoritariamente visual. É uma história fácil.

Mas, diante da nova edição, vale a pergunta: é referência para o Brasil, mas nos representa? Felizmente, não. Brasil Constrói picota a história com a tesoura do branco – e não me refiro apenas à tinta que reveste fachadas coloniais e modernas. Desde os engenhos e as igrejas barrocas aos mais altos ministérios (exceto pela única e brevíssima foto das cabanas de pescadores de Olinda), a iconografia opta sempre pela representação da tradição das classes privilegiadas. E foi com esse restrito retrato arquitetônico que fomos lançados ao mundo, decerto com o consentimento de mais ninguém além das elites. 

Diametralmente oposta é a mais recente propulsão da arquitetura brasileira ao mundo. O pavilhão Terra, representando o Brasil na última Bienal de Arquitetura de Veneza – assim como o Leão de Ouro por ele conquistado –, é indicado por Eduardo Augusto Costa, professor da FAU-USP, em sua rígida resenha do livro ao Nexo Jornal, como a mais alta representação da história que foi ofuscada em Brazil Builds. Isto é, a narrativa das arquiteturas negras e indígenas, que sempre interagiram com a arquitetura branca, presente no pavilhão como coadjuvante muito contestada. Afinal, diferente do Brazil, o Brasil se constitui a partir do conflito entre essas diferentes forças, não como um perfumado compilado dos feitos de uma só.

 

Capa da edição brasileira, recém-lançada pela Ikrek (Foto: Divulgação)

 

Contudo, Brasil Constrói faz muito bem em preservar esse volume como concebido nos anos 1940, isto é, sem grandes intervenções críticas, ainda que tenha agregado três novos textos. Porque, assim, o que podemos dele analisar é a sua “miopia” (como argumenta Martino Stierli, curador-geral de Arquitetura e Design do MoMA, em seu posfácio) perante o que é supostamente da diversidade cultural do país e o que é da elite. Façamos nós, leitores, as críticas a esse livro que se tornou documento histórico, apesar de suas contradições. “Se é preciso reposicionar simbolismos e estabelecer novos sentidos ao modernismo, não será pelo deslumbre cego ao tema”, defende Costa. Será pela contestação do legado sacro de uns e pela pesquisa do legado vivo de outros. Não nos deixemos cegar diante das construções brancas. Afinal, hoje, o que grita no branco de Niemeyer são as manchas pretas da chuva que cai, caiu e sempre cairá.

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SERVIÇO
Brasil Constrói: Arquitetura Moderna e Antiga (1652-1942)
Philip Goodwin
Ikrek Edições, 216 págs., R$ 180