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Quando a Caixa da Noite Foi Aberta (2024), de Mitsy Queiroz, com intervenção gráfica de Nina Lins baseada em Norca Soup (2024), de Caetano Costa [Foto: cortesia da artista]
Postado em 03/09/2024 - 5:17
CECI N’EST PAS UN TEXTE SUR L’ART CONCEPTUEL
biarritzzz analisa exposições recentes no Brasil para situar os conceitos de representação na era das pautas identitárias

Estamos vivendo uma revolução tardia no que diz respeito às questões raciais no Brasil. Tardia, pois aqui a diversidade étnico-cultural sempre existiu, e todos esses povos seguiram produzindo conhecimento, cultura, arte, arquitetura… e nada disso deveria ser uma “novidade”. Tardia, pois, em outros lugares de Abya Yala, línguas originárias são oficializadas perante o país (por exemplo, Equador, Peru e Bolívia com o quíchua/kichwa. Como pode, no Brasil, o guarani, presente e funcional em diversas comunidades em diferentes regiões, não ser uma língua oficial também?). Tardia, pois ainda é necessário dizer que racismo existe, que polícia é treinada pra matar pessoas pretas sem sofrer consequências, e que a supremacia branca colonial, pós-colonial e imperialista segue ditando, através dos domínios econômicos, estatais, jurídicos, midiáticos, filosóficos e espirituais, o que é dito e sentido, e como. Exposições coletivas como Dos Brasis (Sesc), Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros (IMS) ou a própria 35ª Bienal de São Paulo trazem pela primeira vez ao país curadores negros, ou mesmo não brancos, no plural, em projetos dessa magnitude (a 35ª Bienal, em 2023, teve pela primeira vez três dos quatro curadores gerais negros; foi o primeiro ano em que pessoas negras estiveram nessa função. Antes, em 2016, a 32ª Bienal de São Paulo teria a primeira pessoa negra em toda a história de seu corpo de profissionais principais, com a sul-africana Gabi Ngcobo como curadora-assistente. Em 2018, Wura-Natasha Ogunji, estadunidense de ascendência nigeriana, foi a segunda, como artista-curadora).

Importante mencionar que em 35 edições e 73 anos de trajetória, uma grande maioria desses profissionais (diretores, curadores e curadores adjuntos) que passaram pela instituição é de pessoas de ascendência italiana ou alemã, quando não de fato dessas nacionalidades. Nessa revolução tardia, que poderia ter acontecido 10, 20, 30 ou 50 anos atrás, é sentido que a necessidade da representação e da diversidade tem pautado as temáticas e direcionamentos dos projetos culturais e artísticos em diversos níveis, do privado ao estatal, em suas mais diversas linguagens. Mas onde fica a arte conceitual na era dessas pautas identitárias (que não se resumem a raça, mas estão intersecionalmente atreladas a gênero, sexualidade, território, classe etc.)? Ou, melhor, onde fica a arte que não pretende representar (um povo ou grupo)?

Norca Soup (2024), de Caetano Costa [Foto: Lucas Oliveira]

O QUE É ARTE NEGRA?
Uma anedota: em 2023 lançamos um curta doc-ficção, o qual dirigi, escrevi e montei ao lado de grande equipe, chamado Onde Está Mymye Mastroiagnne?, cuja personagem principal, atriz que atua a ela mesma em sua realidade e virtualidade, é uma travesti, cabeleireira do bairro do Pina, no Recife. Josivany Soares não é uma pessoa negra, tampouco uma pessoa branca, cuja família migrou do sertão pernambucano para as beiras de mangue da capital. Salvo algumas exceções, o filme não entrou nas programações de festivais do que hoje tem se constituído Cinema Negro.

O cinema é negro quando o protagonista é negro, o diretor é negro, ou os dois? E a arte, é negra quando fala do que é tido como negritude? Ou quando o artista é negro? Não estou aqui partindo da falsa premissa de que qualquer produção, de qualquer linguagem, possa ser apolítica, desvinculada de local social. Mas a presença de autores e autoras de diferentes realidades deveria ser apenas uma realidade, não um tema. Diversidade não é um tema. É um fato. Que historicamente, na configuração em que vivemos, é vilipendiado, extorquido, excluído etc.

Podemos imaginar justiça a partir de outros parâmetros? Talvez ainda não, uma vez que estamos vivendo essa revolução tardia, que poderia ter acontecido muito tempo atrás, mas que tem um trabalho de reparação histórica pesadíssimo a tentar cumprir.

A VIRADA RACIAL NO PIPA
Analisando esse importante (se não o maior) prêmio artístico brasileiro promovido por organização privada, o Prêmio Pipa (2010-), conseguimos, pela trajetória de ganhadores e seus trabalhos, vislumbrar um pouco desse panorama. Podemos identificar, ao longo dos seus 14 anos, certas mudanças nos perfis dos artistas e das suas respectivas linhas de trabalhos selecionados.

Na terceira edição do Prêmio Pipa, o vencedor (à época apenas um artista levava o prêmio a cada ano, característica que só mudaria a partir de 2020, o que foi, segundo a instituição, “uma decisão inédita, de acordo com esse ano histórico e atípico marcado pela pandemia: declarar todos os quatro finalistas, Gê Viana, Maxwell Alexandre, Randolpho Lamonier e Renata Felinto, vencedores); o vencedor apresentou um trabalho conceitual, no que poderíamos chamar talvez de “clássico” dentro dessa linguagem. Marcius Galan entrega então a “obra de arte em cinco vias e um contrato”, trabalho que consistia em cinco vias de impressões no estilo nota fiscal, mais um contrato que definia como aquele trabalho poderia circular e ser vendido. Segundo matéria de O Globo de 2012:

A obra consiste em cinco folhas impressas que reproduzem uma nota fiscal, em cores variadas, destinada a pessoas e instituições diferentes: o MAM, o patrocinador do prêmio, curadores, público e artista. Junto, um contrato lista cláusulas de uso e comercialização, segundo as quais as obras podem ser doadas separadamente, mas vendidas apenas em conjunto. O trabalho, enfim, obriga os envolvidos a entrarem num acordo sobre seu fim.

Num inteligente deboche perante o mercado da arte e seus meios e burocratizações capital-jurídicas, Galan reflete sobre a ideia do trabalho de arte no prêmio mais visado da época. Sem abstração nem figuração. Apenas objeto e conceito. Dez anos depois, em 2022, temos um cenário bastante diferente. Já com quatro artistas vencedores (dividindo o antigo prêmio total menos diferenças inflacionárias) temos, agora, pessoas de diferentes grupos étnico-raciais e gêneros, coisa que só passa a acontecer a partir de Paulo Nazareth, em 2016.

A mudança também passa pelos trabalhos dos artistas selecionados. Nesse ano, 2022, vencem Coletivo Coletores, Josi, Victoria Cribb e UÝRA, com trabalhos em diferentes mídias e linguagens, todos trazendo uma bagagem visual e discursiva em representação e figuratividade étnico-racial-territorial bastante forte. Talvez o único trabalho não figurativo que aparece a partir daí no prêmio é o de Iagor Peres, no ano seguinte, 2023, que, sem nenhuma visualidade, apresenta um trabalho sensorial no chão: ao pisar, os visitantes sentem tremores num piso de madeira.

Obra de Arte em 5 Vias e um Contrato (2012), de Marcius Galan [Foto: Divulgação]

PRISÃO COGNITIVA
A não visualidade é um refúgio contra a representação, como nos bem lembra Jota Mombaça em seus estudos sobre opacidade. Porém, é importante que não esqueçamos da virtualidade das coisas. O próprio conceito de raça ao qual nos vemos atados no mundo constituído é uma prisão cognitiva sem a qual deveríamos conseguir nos imaginar. Um cativeiro da compreensão, para referenciar novamente Jota Mombaça no texto A Plantação Cognitiva (2020). Um cativeiro da compreensão com o qual precisamos jogar e negociar, mas também nos entender de fora dessas categorias que são, acima de tudo, exteriores, alienígenas, ficcionais.

E ficção tem sido uma palavra-chave para existir. Se já habitamos uma ficção não desenvolvida por nós, que vem e segue sendo alimentada por alhures e implantada em nossas mentes… Matrix. Mátria. Latim. Cristianismo. Hollywood. Estamos mesmo empenhados em elaborar outros mundos. Ficção como arma de guerra, como diz Anti Ribeiro. A mesma arma. Outra munição.

Não sei se consigo, em totalidade, escrever, imagear, criar imagens, colagens, vídeos ou filmes que não pretendam representar uma pauta, uma bandeira ou um grupo. Mas sei que, definitivamente, não quero que este seja o meu fim.