Tijuana Maid
Martha Rosler, trad. Mônica Hoff e Regina Melim, plataforma parentesis, 500 cópias
No início da década de 1970, a artista estadunidense Martha Rosler escreveu três textos fragmentados, enviados na forma de postais para personalidades do circuito artístico da época. O terceiro deles, Tijuana Maid, é originalmente escrito em espanhol, na perspectiva de uma mulher mexicana. Vinda de Tijuana, região fronteiriça com os Estados Unidos, ela opta por viver em casas americanas para não atravessar a fronteira todos os dias, levando a todos os tipos de abusos e exploração. Cinquenta anos depois, a prosa em primeira pessoa permanece realista e seu formato, verossímil. Editado pela parentesis como livreto, esta edição limitada mantém a característica de cards sequenciais.
O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial: Consideravelmente Revisado e Devidamente Ampliado
Patrícia Lino, Círculo de Poemas, 352 págs., R$ 94,90
O tom irônico do título não é mera estratégia de promoção: esta coletânea de verbetes é repleta de trocadilhos, jogos entre imagens e palavras e ironias impiedosas que ridicularizam mitos e monumentos colonialistas, persistentes na mentalidade portuguesa contemporânea. Cada verbete descreve um objeto fictício, acompanhado por uma imagem e modo de usar. Por baixo dos jogos linguísticos, como as “Pastilhas descobriMENTOS” e a “Espingarda de Cânone Cerrado”, brilha um subtom de revolta insubmissa. A edição da Editora Círculo de Poemas traz uma versão mais atualizada e completa deste kit.
O Livro de Fazer Livros: Produção Gráfica para Edições Independentes
Cecilia Arbolave, ilustrações de João Montanaro, Lote 42, 212 págs., R$ 160
Um guia de produção gráfica cuidadosamente ilustrado, contendo materiais e técnicas de impressão, encadernação, corte, diagramação e editoração industriais e manuais. Este metalivro disseca uma publicação em todas as etapas de criação, permitindo uma aproximação acessível ao novo produtor independente. Já que em casa de ferreiro o espeto nem sempre é de pau, é também um objeto primoroso, com capa que permite escolher entre três cores, costura aparente em linha que permite abertura completa do miolo e inclusão de bolso com um livreto – o livreto de fazer livros.
Arte Pernambucana no Arquivo Paulo Bruscky
Paulo Bruscky e Yuri Bruscky, MEPE, 146 págs.
Este catálogo foi publicado um ano depois da exposição Panorama da Arte Pernambucana – Arquivo Paulo Bruscky, realizada em agosto de 2023 no Museu do Estado de Pernambuco (MEPE). Bruscky, “artistarquivista”, reuniu durante 50 anos um acervo extenso, dividido aqui em núcleos voltados a acontecimentos, movimentos, linguagens e autores relevantes no cenário pernambucano. Na publicação, as reproduções de diversas formas de documentação são contextualizadas por textos de Paulo e Yuri Bruscky. Para os leitores, é uma oportunidade de perscrutar os documentos, deixando-se contagiar pela curiosidade arquivística.
Desreceitas: Dez Processos Artísticos
Org. Rose Klabin e Rodrigo Villela, trad. Barbara Andrade, WWF Martins Fontes, 296 págs., R$ 260
Um livro de receitas e de discussões sobre arte, idealizado por Rose Klabin e realizado em conjunto com o curador Rodrigo Villela. Cada uma das nove receitas gastronômicas acompanha um diálogo entre um artista contemporâneo e um convidado de algum campo do conhecimento – psicanálise, arquitetura, cinema, agricultura orgânica ou gastronomia. A dinâmica do livro espelha as trocas que fazemos à mesa, considerando o alimento como um elemento central de nossa identidade social, subjetiva e artística. A décima receita-processo, de acordo com Klabin, é o próprio livro: o ato de colocar em diálogo.
A Viagem de Hanno e Ganda
Tadeu Sarmento, ilustrações de Samuel Casal, Editora Peirópolis, 64 págs. R$ 66
Nesta fábula infantil, o recifense Tadeu Sarmento usa os personagens animais, comuns no gênero, para inverter seu sentido através de um narrador não humano. Sarmento parte de um fato histórico inusitado, mas real: em 1515, um rei de Portugal decide presentear o então papa com um elefante, sem saber o que era um elefante. A essa anedota, une referências como bestiários, textos de época e influências hindus. Diagramado em referência ao bestiário medieval e ricamente ilustrado por gravuras de animais e bestas, o livro é uma introdução apropriada a diversos temas, como a diferença entre fato e ficção e as relações interespécies.
Manifestações Ambientais de Hélio Oiticica
Celso Favaretto e Paula Braga, Coleção Prismas, Edusp, 88 págs., R$ 82
Este denso livro teórico, escrito por dois pesquisadores de Hélio Oiticica de longa data, volta-se para o conceito “ambiental” e suas ramificações na obra e teoria do artista. Seguindo proposições de Oiticica, como a morte da pintura, a antiarte e a abertura do espaço, e passando pelas referências artísticas e teóricas que atravessam suas elaborações, o livro encontra na obra o ponto de interseção em que teoria e prática artísticas são, afinal, a mesma coisa.
davi de jesus do nascimento: mau da língua
davi de jesus do nascimento, Beatriz Lemos e Brenda K. Souza, Museu Paranaense, 120 págs.
Realizada no fim de 2023, no Mupa, a individual de davi de jesus do nascimento traz obras inéditas que versam sobre memória familiar e passagem do tempo, sobre as margens do São Francisco e as manifestações ribeirinhas, sobre objetos que carregam e são carregados pelo rio. Com poética delicada, mas corajosa, os trabalhos são reunidos em um catálogo cuidadosamente montado, disponível digitalmente no site do museu.
Coleção Subúrbio Singular: Jovens Artistas Contemporâneos
Org. Joana Nantes e Ana Hortides, Atelier Cultura, três publicações com 80 págs. cada, R$ 89,90
Esta tríade inaugura a Coleção Subúrbio Singular do Atelier Cultura, voltada a documentar a produção de jovens artistas que trabalham o subúrbio do Rio de Janeiro como lugar de origem, espaço de intervenção ou temática artística. As edições passam pelo corpo das obras de Ana Hortides, Andréa Hygino e André Vargas, acompanhadas, respectivamente, pelos textos críticos de Pollyana Quintella, Raphael Fonseca e Silvana Marcelina.
Moderno Contemporâneo Popular Brasileiro: O Olhar de Vilma Eid
Lorenzo Mammi, Nelson Kon, Daniel Rangel e Germana Monte-Mór, WWF Martins Fontes, 320 págs., R$ 199
Em conversas com Rangel e Monte-Mór, Vilma Eid narra uma memória de infância. Sua mãe a leva para uma galeria para escolher, como presente de aniversário, uma obra de arte. Ela escolhe um quadro onde dois boizinhos pastam em uma relva. Sua mãe, Odette Eid, e o galerista a desaconselham, já que o artista, José Antônio da Silva, é um “primitivista”. O episódio marcará a trajetória da colecionadora e galerista, levando-a a abrir a Galeria Estação (SP) em 2004. Esta publicação, que também conta com introdução de Mammi e ensaio fotográfico de Kon, homenageia Vilma Eid na ocasião dos 20 anos da galeria.
Leonilson: Agora e as Oportunidades
Org. Adriano Pedrosa e Teo Teotonio, Masp, 426 págs., R$ 249
O catálogo é dedicado à exposição retrospectiva do artista, que contempla os últimos cinco anos de sua vida – entre 1989 e 1993, período que também serve de enquadramento do livro. Além dos textos assinados por Carlos Eduardo Riccioppo, Irene V. Small, Julia Bryan-Wilson, Miguel A. López e Pablo Lafuente, destaca-se uma entrevista realizada em 1991 com Leonilson pelo amigo Adriano Pedrosa, hoje diretor artístico do Masp. Ouvindo a voz do artista de forma espontânea, numa conversa que se dá entre São Paulo e Nova York, a entrevista explora sua obra, referências, viagens e novas leituras.