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Postado em 17/12/2025 - 3:10
Celeste seleciona
Livros que a redação da celeste quer que você conheça

Histórias Reais

Sophie Calle, Relicário Edições, 152 págs., R$ 89,90

Na capa, uma Sophie Calle de poucos anos de idade, de óculos e pernas cruzadas, disfarçada de titia. No miolo do livro, o texto que se refere a essa imagem traz o comentário da mãe, em visita ao vernissage de uma exposição em que participou no MoMA-NY: “Você enganou bem o pessoal!”. Lançado originalmente na França, em 1994, Histórias Reais é um livro que atesta a capacidade persuasiva da artista francesa, cuja obra completa é um ensaio ficcional sobre a vida real. Composto de narrativas breves em diálogo com fotografias, este é um livro de artista que não conta histórias corriqueiras, embora se disfarce como tal. Calle expõe aqui casos de drama, erotismo, fetiche, morte, assédio, morbidez e muitas coincidências macabras, em que cada história real contada soa mais como performance.

Emmanuel Nassar

Org. Mateus Nunes, Instituto Teart e Cosac, 400 págs., R$ 310

O mais novo livro dedicado à obra de Emmanuel Nassar é fruto do encontro intergeracional entre dois paraenses. A obra do artista que nos anos 1990 disparou para todo o Brasil a visualidade explosiva da geometria pop de Belém é aqui revisitada pelo jovem crítico e curador Mateus Nunes, recentemente acolhido no corpo curatorial do Masp. Sobre a relevância de Nassar em iniciar pioneiramente um processo de descentralização da arte brasileira, Nunes aponta: “Sua produção reitera que o pensamento e a arte amazônicos devem ser lidos em redes de conexão ampliadas, analisando cuidadosamente seus hibridismos culturais em contexto global, ao mesmo tempo que respeitam as particularidades locais”.

Laura Lima: Balé Literal

Cobogó e Macba, 288 págs., R$ 168

Um desfile de cerca de 150 imagens abre o livro que documenta a obra em que Laura Lima performa toda a sua obra. Como uma espécie de La-boîte-en-valise, de Duchamp, o Balé Literal coloca em trânsito, numa engrenagem instalativa espetacular, um glossário de objetos representativos de boa parte da obra da artista, desde os anos 1990. “Ao ser aplicado nos dias atuais, o glossário cresce e se transforma. É como uma parafalagem, que pode ser anotada como instrução ou como decorrência de cada experiência de montagem”, diz Laura Lima em conversa com Elvira Dyangani Ose, publicada no livro. O Balé Literal teve apresentação em encruzilhada diante da Galeria A Gentil Carioca, no Rio, numa noite de junho de 2019; e temporadas no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (Macba), em 2023, e na Galeria Tanya Bonakdar, em Nova York, em 2025.

Parada

Iatã Cannabrava, curadoria de Manauara Clandestina, 96 págs., R$ 120

A reportagem em modo retrato do fotógrafo paulistano Iatã Cannabrava deu origem ao fotolivro que registra uma década da Parada do Orgulho LGBTQIA+ na Avenida Paulista. A galeria de retratos contra-plongée, ou de baixo para cima, exalta sujeitos montados e adornados que encaram a lente de sua câmera analógica, inscrevendo essa produção como um ato visual e político de afirmação e celebração. No texto, Manauara Clandestina relembra ter perguntado ao fotógrafo por que ele se interessou pela Parada durante tanto tempo, ainda que não fosse um membro da comunidade LGBTQIA+. Ele conta que já fotografava as periferias da cidade há muito tempo, procurando olhar para essa diversidade do povo brasileiro, e que reconheceu essa mesma força nas pessoas que ocupavam a imponente Avenida Paulista durante a festa do Orgulho.

Gordon Parks, A América Sou Eu

Org. Janaína Damaceno, Iliriana Fontoura Rodrigues, Instituto Moreira Salles, 312 págs., R$ 180

O jovem de 15 anos, morador do Méier, pegava o bonde até a Cinelândia e ia a pé até o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, para mergulhar nas revistas e livros da banca de jornal. Walter Firmo não tinha dinheiro para comprá-los nem sabia o que era um museu, mas, ao se deparar com o trabalho de um tal Gordon Parks, “via que ali estavam as asas que eu precisava para voar”. A entrevista com o artista compõe o catálogo que acompanha a exposição no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e apresenta a produção fotográfica e fílmica de Parks no Brasil, com imagens feitas nas décadas de 1940 e 1970, que lutavam pela emancipação e vitalidade das culturas negras nas Américas.

Tadáskía, Ave Preta Mística, Lua Coelho Negra

Cobogó, 128 págs., R$ 88

O livro-obra reúne dois trabalhos da artista, um deles apresentado em sua primeira exposição individual em um museu, no MoMA, em Nova York, e outro exibido na 35ª Bienal de São Paulo, que hoje faz parte do acervo da Pinacoteca de São Paulo. Na reprodução, cada trabalho vai em direção ao outro, encontrando-se no centro da publicação, como um convite para adentrar um universo sensível e caleidoscópico dos poemas e desenhos de Tadáskía.

Pidginização como Método Curatorial

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, GLAC Edições, 152 págs., R$ 59,50

Para o curador à frente da 36ª Bienal de São Paulo, se o espaço expositivo pode ser repensado como território de dissenso, a pidginização emerge como método insurgente. Inspirado nas práticas híbridas do pidgin – linguagens de contato entre duas ou mais línguas, como o camflanglês –, Ndikung inscreve a prática curatorial na arte contemporânea em uma gramática que resiste às convenções coloniais. A edição brasileira tem texto de apresentação de André Pitol e posfácio de Diane Lima, que ampliam as reflexões da narrativa anedótica ao conectá-la com o contexto político e cultural do país.

Sobrevivência da Beleza

Eduardo Muylaert, Fotô Editorial, 216 págs., R$ 250

O que acontece quando a pintura é capturada pela fotografia? E por outras técnicas de reprodução de imagem? Este livro, em que o fotógrafo Eduardo Muylaert pesquisa e interfere sobre reproduções de fotogravuras da coleção da Pinacoteca dos Mestres Antigos, de Dresden, na Alemanha, poderia tomar emprestado o título do texto definitivo de Benjamin, “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”. Com textos e imagens do autor, este livro (de artista) trilíngue português-inglês-francês, de produção gráfica primorosa, é uma pesquisa de fôlego sobre a permanência e a destruição da arte ao longo do tempo.

Histórias LGBTQIA+

Org. Adriano Pedrosa e Julia Bryan-Wilson, Masp, 440 págs., R$ 259

Arquivo histórico e contemporâneo da arte queer, este livro é o capítulo das Histórias do Masp. Com design gráfico superarrojado, o catálogo acompanhou a exposição coletiva homônima, que destacou a multiplicidade de narrativas e visualidades queer, valendo-se também da fabulação para reescrever histórias silenciadas. O arquivamento foi utilizado como uma ferramenta para preservar a memória da comunidade LGBTQIA+; o museu convidou 13 arquivos mantidos pela população queer do Sul Global dedicados à sua memória. A iniciativa constituiu um dos oito núcleos expositivos – organizados no livro no mesmo formato –, assim como a Biblioteca Cuir, idealizada por um grupo de artistas, pesquisadores e ativistas chilenos, que reúne um acervo de publicações voltadas às memórias dissidentes.

Gustavo Piqueira

Coorg. e textos de Adolfo Montejo Navas, Edusp, 256 págs, R$ 200

Este é um livro sobre a matéria dos livros. Tipografia, ilustração, “ilustragrafia”, paratextos e outras grafias compõem este livro sobre o trabalho gráfico do designer Gustavo Piqueira, realizados para capas, páginas de livros, libretos de ópera, cartazes, até chegar, finalmente, aos muitos projetos de livros em que Piqueira exercita seu pensamento artístico. Entre eles, A Queda de Satã (WMF Martins Fontes, 2022) e O. (Lote 42, 2021), definido no verbete da publicação como “um livro ilustrado, mas sem ilustrações”. Em cartaz “prefácio”, encartado, Sebastião Nunes faz uma genealogia intersemiótica dos precursores de Piqueira, entre os quais situa Millôr Fernandes e Kurt Schwitters.