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Detalhe de Território (2020), de Claudio Tozzi (foto: cortesia Museu de Artes Visuais da Unicamp)
Postado em 11/08/2026 - 9:51
Claudio Tozzi e a sociedade do espetáculo
Curadoria investiga produção e pós-produção da imagem na obra de um dos principais expoentes da Nova Figuração

Nos anos de formação da indústria cultural no Brasil, Claudio Tozzi iniciava uma pesquisa artística por meio das artes gráficas, explorando técnicas de reprodução da imagem e vocabulários da sociedade de consumo com finalidade política. Sua produção dos anos 1960-70 já foi associada ao pop estadunidense de Lichtenstein, mas na exposição Pós-imagem, no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (Macc), Tozzi ganha uma leitura que lhe confere mais intimidade com o pensamento do francês Guy Debord e a crítica à sociedade do espetáculo. “Uma sociedade na qual as imagens se autonomizam e passam a mediar as relações sociais, como sucedâneas da mercadoria”, diz o historiador da arte Gabriel Ferreira Zacarias, curador da exposição e diretor do Museu de Artes Visuais da Unicamp (MAV). A curadoria apresenta um recorte abrangente da produção gráfica de Tozzi, organizando a leitura de trabalhos dos anos 1960 aos 2020 não cronologicamente, mas sob a ótica de diferentes tonalidades da ideia de pós-imagem.  

De entrada, o conceito é definidor dos trabalhos de crítica social que Tozzi faz por meio da manipulação de imagens da cultura de massa, nas serigrafias da fase da Nova Figuração. Letreiros, peças publicitárias, histórias em quadrinhos, fotonovelas, etc., são retirados de contexto – num procedimento não distante do desvio situacionista – e ganham novos sentidos, tornando-se “imagens que não são mais apreensões perceptivas do real, mas reelaborações de uma ordem visual já existente”, segundo Zacarias. 

Astronauta (1969-2012), de Claudio Tozzi (foto: cortesia Museu de Artes Visuais da Unicamp)

A exposição argumenta também que há nas serigrafias, especialmente dos anos 1960, um uso da pós-imagem próximo ao sentido fisiológico do termo – a imagem que resta na retina mediante o excesso de luz. Isso ocorre quando o artista opera uma “violência luminosa”, por meio da solarização, intensificando contrastes e efeito gráfico da imagem. Finalmente, o fenômeno da pós-imagem se manifesta quando o artista se afasta da figuração que demarca suas paisagens urbanas, midiáticas e rurais. Nas geometrias da última fase, o trabalho entra em estado de pós-imagem, os grafismos perdem o lastro com a figuração e avançam em direção a uma imagem sem referentes claros, sem imagens pré-existentes.  

“O fio condutor entre esses diferentes momentos parece ser um único impulso: o da busca por uma criação visual contrária à instrumentalização mercantil da imagem”, afirma Gabriel Zacarias, autor de uma curadoria sensível e arguta que não divide a trajetória em fases nem blocos, mas inter-relaciona tempos e linguagens, tornando o percurso não linear e desafiador. Dispostos na entrada da galeria, como um statement curatorial, Astronauta (1969) e Território (2020) revelam a simbiose entre figuração e abstração na poética de Claudio Tozzi. Os dois trabalhos foram doados por Tozzi ao MAV, juntando-se a importantes coleções de Geraldo de Barros e Anatol Wladyslaw, em um acervo que vem sendo pesquisado e revelado pelo grupo de pesquisa conduzido pelo curador.  

Sem título (1971), de Claudio Tozzi (foto: cortesia Museu de Artes Visuais da Unicamp)
Sem título (1977), de Claudio Tozzi (foto: cortesia Macc)
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Cláudio Tozzi   pós-imagem