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Postado em 25/05/2023 - 1:06
Como nasce uma galeria
Os passos e as estratégias de Almeida, Dale e Albuquerque para abrir a Cerrado Galeria, em Goiânia

O cerrado é um bioma de topografia suavemente ondulada, com campos de baixa densidade arbórea, vasta vegetação de arbustos, árvores, esparsas, morros não muito altos. Com esse terreno suave, no cerrado se enxerga ao longe. É justamente isso que os galeristas Antônio Almeida, Lucio Albuquerque e Carlos Dale estão fazendo, ao inaugurar a Cerrado Galeria, no coração de Goiás: enxergar longe.
“Não tenho dúvida de que Goiânia é a porta do Centro-Oeste”, afirma Almeida nesta entrevista concedida à seLecT_ceLesTe, em Goiânia, na ocasião da abertura da galeria no início de maio. “Nos próximos 15 anos, a economia de Goiás praticamente dobrará”, completa Albuquerque. Com mais de 30 anos de atuação no mercado de arte – Almeida e Dale, da A&D, em São Paulo; e Albuquerque, da mineira Celma Albuquerque e hoje na Casa Albuquerque, em Brasília –, os três sócios escolheram um ponto histórico nevrálgico da cidade para sua chegada ao Centro-Oeste brasileiro.

Da esq. para dir.: Antonio Almeida, Lucio Albuquerque e Carlos Dale [Foto: Marcus Camargo]

A galeria está instalada em uma casa modernista, de 500 metros quadrados, projetada pelo arquiteto David Libeskind (que desenhou, entre outros emblemas modernistas, o Conjunto Nacional, em SP), para uma família goiana, e que depois abrigou a sede do IPHAN-GO (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Para inaugurar esse espaço que já nasce histórico, foi chamado o mais icônico dos artistas goianos, Siron Franco. A exposição Pensamento Insubordinado tem curadoria do espanhol Angel Calvo e se expande para o MAC Goiás. Depois, ganha itinerância para Curitiba, sinalizando o foco dos diretores da Cerrado Galeria em fortalecer o circuito institucional fora do eixo Rio-São Paulo.

seLecT_ceLesTe: Por que escolheram Goiânia como sede de uma galeria no Centro-Oeste? Por que não Brasília, ou Cuiabá?

Antônio Almeida Porque, em Brasília, já existe a Casa Albuquerque, de Lucio.

Lucio Albuquerque Quando eu estava em Belo Horizonte, a gente já tinha esse desejo de ampliar um pouco. Só que não podíamos ir de forma alguma para São Paulo, meu principal  mercado, nem para o Rio, porque a gente trabalha com o mercado primário de representação de artistas. Os artistas que a gente tem em Belo Horizonte já tem as suas representações em São Paulo. Tínhamos que buscar uma outra alternativa. A SP-Arte fez uma edição, em Brasília, em 2014, em que pouquíssimas pessoas venderam durante a feira. Mas naquela semana que passamos aqui, fomos convidados por várias pessoas de Brasília para coquetéis à noite, e tudo o mais, e nas casas que fomos, nenhuma tinha uma obra de arte. Quando você vai pra uma feira em São Paulo ou no Rio, o colecionador te chama para que você tenha acesso à coleção dele. E pra gente é muito educativo isso. Mas eles não tinham nada. O Waltércio [Caldas, artista] tem uma definição boa de mineiro, que diz que o bom mineiro é aquele que ouve duas vezes antes de não falar nada. Então fiquei pensando: ninguém compra ou não compram por que não foi ofertado? Fiquei com aquilo na cabeça e convenci minha irmã a abrir a galeria em Brasília. Fizemos isso num período muito difícil que foi o início da pandemia. É sempre muito desafiador trabalhar com o mercado primário. E o trabalho dos dois [Antônio Almeida e Carlos Dale] sempre despertou muito minha atenção, porque acho que eles foram os que melhor fizeram esse diálogo entre a arte contemporânea e a arte moderna. Ficou muito visível que os dois estão fazendo isso com muita maestria. O mercado primário é mais difícil para você manter. Se você for só no secundário, quando você vende, você tem um estresse na reposição, porque é finito. Diante disso, fiz um convite a eles, porque a gente já fazia negócios com frequência, de fazermos duas exposições importantes em Brasília, que foram a do Burle Marx e a do Di Cavalcanti. Na exposição do Di, a gente ficou muito entusiasmado pela frequência de pessoas importantes e comentei: Olha, mercado não tem só aqui, não, tem Goiânia. Quando eu comentei isso, o Antônio e o Carlinhos disseram que estavam mapeando Goiânia. Foi muito  interessante, sabe, aquele pensamento coletivo?

Vista do espaço interno da Cerrado Galeria [Foto: Marcus Camargo]

Vocês já tinham clientes do Centro-Oeste nas suas galerias no Sudeste?

AA Nós temos alguns clientes aqui de Goiânia que já compram conosco há uns quatro anos. Começou na exposição de Flávio de Carvalho, quando um casal esteve lá [na Almeida & Dale, em São Paulo] para ver uma obra do Portinari. Foi engraçado, porque estava sendo apresentada na galeria uma peça de teatro do Flávio Carvalho e eles ficaram loucos com aquilo. Pediram até para adiar o voo do jatinho deles, porque queriam ver aquela peça. Depois subiram para ver a obra e compraram o Portinari. E aí nós começamos a atender aqueles clientes de Goiânia. Naquele ano, as melhores vendas da SP-Arte também foram feitas para Goiânia. E aí nós realmente vimos que tinha chegado o momento.

Goiânia é a quarta cidade que mais cresceu em extensão territorial no Brasil, entre 1985 e 2020. A nova geração de colecionadores da região, além de ruralistas, inclui os construtores que fazem essa cidade crescer? Qual a relação deles com arte?

LA Eu te coloco outro dado: nos próximos 15 quinze anos a economia de Goiás praticamente dobrará. O crescimento do último ano foi de oito por cento a nove por cento. O Hospital Albert Einstein criou aqui um hotel para abrigar os pacientes que vêm do Norte do Brasil inteiro, não só do Centro-Oeste. O Einstein teve uma sacada absurda porque a estrutura dele já está inchada em São Paulo. E ele monta onde? Em Goiânia. Então, você tem o turismo médico. Essa cidade vai dobrar de tamanho em 15 anos. Isso é um dado absurdo. Aliado não só à agricultura, mas a todas as indústrias: a indústria farmacêutica, as indústrias de manutenção de máquinas e equipamentos. Não sei como as pessoas não despertaram antes, mas, gente, aqui é pra onde o Brasil está indo.

"Essa cidade vai dobrar de tamanho em 15 anos. Isso é um dado absurdo. Aliado não só à agricultura, mas a todas as indústrias: a indústria farmacêutica, as indústrias de manutenção de máquinas e equipamentos."

Como a galeria vai mediar duas realidades opostas: agropecuaristas e artistas que trabalham pela regeneração das vegetações nativas do Cerrado, como Dalton Paula e seu Sertão Negro, por exemplo? Há uma receptividade do colecionador goiano para a visão crítica de mundo, do artista contemporâneo?

AA Eu acho que há, por um motivo muito simples. Nós vamos lidar com a segunda ou terceira geração do agronegócio. Se você fosse tratar com a primeira geração, quem chegou aqui há 50, 60, 70 anos, de burro, de caminhão, como muitos dizem… Hoje, estamos tratando com pessoas que foram estudar fora, que fizeram do campo uma indústria de negócios.

Carlos Dale
Eu digo até que é uma necessidade. Eles têm total consciência da importância da cultura, da educação, da arte.

LA
Ao mesmo tempo que o pai fazendeiro passa as diretrizes do negócio para o filho – Olha, trabalha-se dessa maneira –, o filho fala – Olha, mas vive-se dessa maneira. Tem outras alternativas. Esse rapaz está em São Paulo, está num grupo de investimento e volta para o pai e fala – Olha, nós temos que apoiar a cultura, apoiar a arte. É uma reserva de valor também.

Vista do espaço externo da Cerrado Galeria [Foto: Paula Alzugaray]

O morador que construiu, em 1955, a casa que hospeda a Cerrado Galeria, Abdala Abrão, com projeto do arquiteto David Libeskind, tinha um gosto muito sofisticado. Esse perfil estético e cultural é frequente em Goiânia?

LA Nós visitamos ontem um arquiteto muito importante aqui, fomos ao escritório dele e ele nos disse que o prédio construído aqui ao lado, foi feito com as janelas viradas para o lado de lá porque o arquiteto do prédio queria respeitar essa construção do David Libeskind.

AA Existe uma sensibilidade muito grande ao patrimônio histórico do seu estado, sabe? E você vê isso na Cidade de Goiás [antiga capital do estado]: o orgulho que o goiano tem da história dele.

LA Além de um senso de preservação do patrimônio, eu acho que eles também têm uma uma visão muito bacana do futuro, com prédios subindo com uma arquitetura muito arrojada.

CD Nesse período que tenho acompanhado aqui, vejo que existe um investimento muito grande das pessoas com arquitetura. A quantidade de escritórios de arquitetura aqui é enorme, você tem também uma cena de moda muito ampla. E a conexão entre arquitetura, moda e artes visuais é um movimento mundial. Só estava faltando aqui uma galeria desse porte. Todo grande espaço feito por um grande arquiteto, hoje, está abrigando algum projeto de arte ou cultura.

E a feira FARGO? Que papel tem neste contexto?

AA A FARGO está na quinta edição. A Wanessa é uma guerreira. Eu acho que a feira despertou o olhar do público da cidade e do estado. Se não tinha uma galeria fazendo um trabalho de fôlego, tinha uma feira trazendo gravuras de Di Cavalcante, de Volpi, de artistas modernistas… Então, acho que isso começou a fomentar, inclusive fortaleceu a SP-Arte, porque despertou as pessoas que frequentam a feira daqui a irem ver a feira de lá. Eu acho que ela tem um papel fundamental aqui na cidade e nós vamos participar este ano com a Cerrado.

CD O papel da FARGO é semelhante ao papel da SP-Arte, porque quando você agrupa todas as galerias ali, é a chance de o colecionador ver as diversas opções que ele tem, ele entender um pouco o mercado, e visualizar que existe esse mercado, tem gente querendo comprar, gente querendo vender, checar preços, olhar as referências, olhar todas as possibilidades, conhecer novos artistas….

"O papel da FARGO é semelhante ao papel da SP-Arte, porque quando você agrupa todas as galerias ali, é a chance de o colecionador ver as diversas opções que ele tem, ele entender um pouco o mercado, e visualizar que existe esse mercado (...)"

É interessante que há um movimento inverso. As feiras de São Paulo e do Rio cada vez mais ampliam suas relações com os outros estados. E agora a feira do Centro Oeste traz o Sudeste pra cá.

CD Nós temos uma estrutura bem estabelecida em São Paulo, mas você vem pra cá e encontra uma produção artística incrível, que é representada no Sudeste, mas pouco conhecida aqui. Dalton Paula talvez não seja tão conhecido aqui no Centro-Oeste. Então, fomentar a produção dele aqui, fazer uma exposição dele aqui, mostrar o projeto dele para a cidade, ver o quão importante ele tá sendo para essa segunda, terceira geração, todas as ações que ele tá fazendo… recuperação das tradições de plantas medicinais, proteção da mata nativa, o manejo sustentável dos espaços, com construções ecologicamente corretas e por aí vai, toda trajetória de não deixar morrer a história dos quilombos aqui, pegando todas as principais lideranças do movimento negro, representando através dos retratos, da pintura. O Paulo Herkenhoff convidou todos os integrantes do coletivo Sertão Negro, do Dalton Paula, para fazer uma exposição no Museu Nacional de Belas Artes.

AA Mas o Paulo [Herkenhoff] é tardio! (risos). Há um mês atrás, nós já tínhamos proposto para Dalton fazer no ano que vem uma exposição aqui com os artistas do Sertão Negro.

Tudo bem! Uma coisa não elimina a outra (risos)! Vocês vão trabalhar mercado primário ou secundário?

CD Hoje em dia, as principais galerias do mundo, além de viver um processo de profissionalização – as galerias não são mais extensão das casas dos marchands –, trabalham no mercado secundário e primário junto. Nós, inclusive, atuamos no mercado secundário de outras galerias.

LA Vai haver também um intercâmbio muito grande entre o que se produz em Brasília e Goiânia. A primeira ideia é fazer esse intercâmbio entre as duas cidades. De Goiânia, com Siron Franco, Dalton Paula, Mateus Dutra, Luiz Mauro de Deus, que estava fazendo uma exposição aqui no Museu da Universidade. De Brasília, com artistas como o Christus Nóbrega, que está fazendo uma exposição belíssima agora em Brasília, Matias Mesquita, Adriana Vignoli e vários outros artistas que a gente mapeou. A partir daí, eles vão ter a possibilidade de estar nas outras galerias que são nossas parceiras, não só em São Paulo, mas em Salvador, em Recife…

AA A cidade de Goiânia, Paula, tem muito mais artista do que esses cinco que nós citamos. Até aqui estávamos reformando a casa e montando a galeria. Agora nós vamos nos focar em conhecê-los. Daqui a seis meses, a galeria vai ter 15, 16 nomes, porque nós vamos abraçar todos os artistas. Alguns vão ser representados e outros vão participar dos projetos. E aí nós vamos entendendo a maturidade de cada um, qual caminho vamos tomar…

A galeria vai trabalhar só com artistas do Centro-Oeste?

AA, LA, CD Não, não, não, não, não, não, não, não.

Mas vai ter um equilíbrio?

LA É claro que, nas feiras, a gente vai levar o que não foi mostrado ainda, que é exatamente essa produção daqui. Então, da mesma forma que nós estamos ofertando, para o goiano, obras de outras regiões que ele não teve acesso, nós vamos ofertar para o público paulista, nas feiras, obras dos artistas que estão produzindo aqui. Tomando cuidado com os que já estão representados localmente. Porque uma coisa que nós pensamos é o seguinte: ter concorrência é ruim, mas não ter, é muito pior. É necessário que você tenha diferentes galerias para fortalecer o mercado. É fundamental ter concorrência.