Embora efêmera, com a duração de cinco dias que projetos curatoriais realizados em feiras de arte têm, Brazil Beyond Brazil não surgiu ontem. A curadoria de Igor Simões que inaugura o setor curado da feira 1-54 – Contemporary African Art Fair, em Nova York, nasce de duas perguntas-chave, lançadas nos últimos anos para pesquisadores, curadores e historiadores da arte estadunidenses que trabalham especificamente com arte afrodiaspórica: o que você sabe sobre arte afro-brasileira e por que você não sabe sobre arte afro-brasileira?
Durante pesquisas de pós-doutorado com bolsas da Getty Center Foundation, de Los Angeles (dentro do programa Connecting Art Histories), e do The Clark Art Institute, de Massachusetts, Simões entrevistou autores referenciais na área. Entre eles, figuram o historiador da arte Steven Nelson, então reitor do Centro de Estudos Avançados em Artes Visuais da National Gallery of Art, de Washington, e a acadêmica Kanitra Fletcher, primeira curadora de arte afro-americana e diaspórica da mesma National Gallery. “Foi ficando evidente que a maior parte deles não sabia muito sobre o Brasil. Estavam falando sobre arte afrodiaspórica sem citar o Brasil”, diz Igor Simões à celeste.

A percepção foi confirmada na análise de programas curatoriais dos últimos dez anos nos EUA que trabalhavam com diáspora: quando não encontrava uma completa ausência, Simões notou que a presença tímida da arte afro-brasileira estava associada a algumas chaves específicas que configuram uma certa expectativa de Brasil. “Eu gosto muito de números. Gosto de pegar o livro e contar quantas vezes o autor citou o Brasil e aí eu vou olhar como ele falou. Quantos artistas negros brasileiros tem aqui e quem são?”, continua ele. “É possível perceber que existe um tipo de escolha por um tipo de artista e eu fui tentando entender essa escolha: uma seleção de artistas que nós não lemos como primitivos ou populares, mas que aqui são apresentados dentro dessa moldura curatorial. Uma ideia sempre conectada à religiosidade negra, orixás e samba”. Conclusão da pesquisa: a teoria e a arte mostrada como afrodiaspórica no mundo é um debate anglófono. Feito por teóricos de língua inglesa abordando artistas que falam inglês.
Está montado o argumento de Brazil Beyond Brazil: se o Brasil é o maior país negro fora do continente africano e o principal destino da diáspora, a noção básica de arte afrodiaspórica deve necessariamente passar por aqui. Sim, é uma questão de números. O Brasil recebeu 5 milhões de pessoas negras escravizadas em três séculos e, hoje, 57% de seus mais de 203 milhões de habitantes se auto-identifica como negro, contabiliza Simões em seu texto curatorial.
Dessa forma, com 11 artistas, a exposição na 1-54 tem o mesmo compromisso de formação de conhecimento que teve Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, a monumental e disruptiva mostra com 240 artistas e criadores que está rodando o Brasil há três anos. Mas com um foco específico: dá seguimento a uma pesquisa em processo com artistas negros que trabalham a abstração e que não necessariamente lidam com questões raciais – ou que as discutem, mas sem se utilizar de estratégias figurativas ou representativas.
Arte amefricana
Dentro desse recorte, Brazil Beyond Brazil coloca em cena Rommulo Vieira Conceição, Ana Claudia Almeida, Mônica Ventura, Luana Vitra, Helô Sanvoy, Jaime Lauriano, Lidia Lisboa, Rebeca Carapiá, Diego Mouro e No Martins.
Sobre o desvio da figuração em Lidia Lisboa, por exemplo, que apresenta trabalho da série Tetas que Deram de Mamar ao Mundo (2022), Simões pontua: “A Lídia é uma artista do têxtil e da manualidade, que tem uma maneira muito sofisticada de lidar com a ideia dos legados negros. Retire o título desse trabalho. Olhe pra ele enquanto objeto, materialidade, a maneira como ele se coloca. O título não é necessário e isso me interessa”.

No Martins participa com o autorretrato Zona de Conforto (2024), que aborda figurativamente a fragilidade de sua condição artista, e com Regras do Jogo (2018), que conceitualiza num tabuleiro de xadrez como a questão racial pauta a injustiça social e a luta de classes na sociedade brasileira. Já Rommulo Vieira Conceição traz a Nova York três trabalhos da série Physical Space Requires that the Other Be Either Ally or Enemy (2025) – um deles na curadoria de Igor Simões e dois no estande da galeria Aura, que também participa da 1-54 –, em que tanto mapeia questões de fronteira e polarização tanto de ordem geopolítica, quanto alude aos exclusivismos da tradição do modernismo branco brasileiro.

A crítica da formação do imaginário da sociedade brasileira, desde uma perspectiva decolonial, escrita por Jaime Lauriano em Invasão de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro (2022), já havia sido apresentada no Chelsea nova-iorquino na mostra Por Que Vocês Não Sabem do Lixo Ocidental?, individual do artista na Galeria Nara Roesler, curada por Igor Simões, em 2024.

“Essa exposição é um movimento dentro de uma plataforma de pensamento que é pensar uma noção de arte amefricana”, continua Igor. “Amefricana por causa da noção da Lélia Gonzalez de que Améfrica é tomar para nós a nossa pertença como americanos”. A 1-54, a primeira e única feira de arte internacional dedicada à arte contemporânea da África e afrodiaspórica. É portanto uma plataforma importante para expor esse projeto. O fato de a feira inaugurar seu programa curado com o projeto Brazil Beyond Brazil também favorece.
Da diversidade
O Vilanismo também foi convidado realizar um projeto especial na 1-54, o que permite à irmandade [leia a entrevista publicada na celeste #9 aqui] a ampliação do olhar sobre seu trabalho e sobre o circuito da arte contemporânea afro-brasileira, em um contexto global. O grupo apresenta em Nova York “um espaço de conspiração”, como define Ramo Negro à celeste. A mostra é composta por um recorte de obras do Vilanismo da coleção de Tukufu Zuberi, sociólogo e professor de Estudos Africanos na Universidade da Filadélfia.

A poucos quarteirões da 1-54, na 15ª Frieze New York – que divulgou este ano ter foco especial na América Latina e conta com a participação de oito galerias brasileiras –, Rafael RG apresenta no estande da Mitre um trabalho – não figurativo – que tem como linguagem a contação de histórias. RG parte de um anúncio publicado na página de classificados do jornal The Florida News, em junho de 1833. No texto, oferece-se um prêmio de US$ 75 pela apreensão de três jovens escravizados fugidos de uma plantation no interior da Flórida. RG sequestra essa história, criando a própria versão, poética e comovente, que diz assim:
“Quando Jake, Dan e Morris fugiram três estrelas brilhavam no céu formando o Summer Triangle, uma configuração estelar que sinaliza a chegada do verão no hemisfério Norte. Eles eram jovens, pouco mais de 20 anos, quando eles cruzaram a noite em busca de liberdade. Em memória dessa luta, eu renomeio essas três estrelas aqui. Agora, quando olhamos para o céu numa noite de verão, vemos a luz daqueles que ousaram sonhar com a liberdade”.
