Luis Pérez-Oramas, curador da 30ª Bienal de São Paulo, faz discurso apocalíptico ao divulgar lista de 110 artistas da mostra

Legenda:One Forward Two Back Pink (2010), obra de David Moreno, artista norte-americano que integra a mostra
Sob o título A Iminência das Poéticas, a 30ª Bienal de São Paulo vai ser organizada em “grupos constelares”, apostando em “obras que se apresentem como experiência”, explicou hoje em entrevista coletiva à imprensa o curador-geral da mostra, o venezuelano Luis Pérez-Oramas. “Esta é uma bienal baseada em vínculos, não em listas ou alinhamentos”, afirmou ele.
Por isso mesmo os trabalhos dos 110 artistas selecionados por Pérez-Oramas e sua equipe curatorial – formada por André Severo, Tobi Maier e Isabela Villanueva – estarão dispostas em constelações, segundo agrupamentos de sentidos. As cinco constelações curatoriais recebem os nomes de Sobrevivências, Alterformas, Derivas,Vozes e Reverso.
Antes de a sessão ser aberta às perguntas dos jornalistas presentes, o curador fez uma breve explanação em que compartilhou suas preocupações sobre o mundo: “Correm pelo mundo algumas ilusões”, começou, passando a elencar uma série de “devastações” em curso no mundo, cada uma delas resultado de uma das tais ilusões referidas.
A devastação do corpo das coisas é promovida pela onipresença das imagens na cultura contemporânea. Estamos tão cercados e mergulhados em imagens planas que nos esquecemos que as coisas possuem corpo. A devastação da confidência e da intimidade é causada pela cultura da superexposição de tudo e todos. A memória está sendo devastada por dispositivos de memória virtual, que também ocasionam “uma epidemia de perda de memória natural”, sentenciou Pérez-Oramas.
A exposição que começa no dia 7 de setembro no Pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera, vai contrapor a tanta devastação alguns antídotos: “obras e artistas que questionam o limite da noção de imagem, que reivindicam a espera, que privilegiam a ideia de lugar, que questionam a memória pública, que reconhecem a linguagem como instância do silêncio”, contou ele, finalizando com a frase beligerante “as poéticas são as nossas armas”.
Em resposta a pergunta sobre seu tom apocalíptico no discurso de abertura e sobre a impressão de que a exposição teria um caráter nostálgico, Pérez-Oramas afirmou ainda que “as imagens são a coisificação da experiência” e, citando Marx, exaltou-se em defesa apaixonada de sua bienal, que “não é contra a imagem”, mas é, sim, contra “a ideologia da imagem. A ideologia, aquilo que impede que as coisas mudem. Por isso a arte é uma arma crítica tão fundamental para que o mundo mude”. Haverá obras de teor imagético na exposição, garante, “mas imagens que questionam o controle dos corpos”.
Sobre a insinuação de um dado nostálgico na seleção de imagens que foi apresentada à imprensa, chamou a atenção para a diferença entre memória e nostalgia: “A memória é um exercício experimental. A nostalgia é uma doença. Não há nada de nostálgico nesta bienal”.
Confira a lista completa de artistas aqui.