A entrevista que vem a seguir é uma obra-texto. Segue uma modalidade de entrevista criada por mim em 2017, ocasião em que, após uma visita à Escritexpográfica, individual de Fabio Morais na Galeria Vermelho, convidei o artista para um tête-à-tête diferenciado. Trata-se mais, na verdade, de uma mão à mão, uma vez que, ainda que tenhamos nos comunicado com olhares e risos, toda a construção verbal desta entrevista deu-se a partir da escrita manual. A primeira entrevista lacunar foi publicada na revista Arte Contexto, em julho de 2017, na edição número 13.
Como projeto, as entrevistas lacunares dão-se de forma indisciplinar, em intervalos de tempo irregulares e com aberturas textuais que quase comprometem o sentido das perguntas e respostas. A premissa é estabelecer uma conversa no modelo de escrita ao vivo, com mesa ou bancada como suporte para um bloco de anotações, situação na qual duas pessoas alternam o papel de escrever entre si (ambiguidade intencional), intercalando perguntas e respostas redigidas a fim de convidar o outro a intervir em sua formulação. Como? Através da inserção de lacunas (______) e da possibilidade de preenchê-las. Assim, a entrevista pressupõe a colaboração na autoria de perguntas e respostas e, a meu ver, também acena ao desejo do próprio entrevistado no convite à colocação de palavras e temas de seu interesse.
APOSTO X APOSTA
Rafael Amorim, como Fabio Morais, é um artista que tem amor à palavra e que não escapa à sina de trazer, em muitos de seus trabalhos, a presença textual. É artista visual, poeta e atualmente compõe a equipe curatorial do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, lugar onde passamos mais de dois meses convivendo durante a Residência Pública. Rafael respondeu ao meu interesse em realizar uma entrevista lacunar consigo me oferecendo uma seleção de trabalhos representativos da sua produção artística.
A prática artística de Rafael Amorim passeia por diferentes proposições e materiais, de performances a objetos e instalações, atravessando artes visuais e escrita sob perspectivas homoafetivas, periféricas e suburbanas. Ao longo da última década, o artista adentrou diversas instituições acadêmicas e de cursos livres, centros culturais e museus, tanto no Rio de Janeiro, onde hoje reside, como em outras paragens: Salvador, Juiz de Fora, Fortaleza, São Paulo etc. O deslocamento entre cidades pareceu definir ainda mais os deslocamentos que Rafael já experimentava dentro de seu contexto original, entre subúrbio e centro da cidade, e as profundas desigualdades que enfrentam os sujeitos periféricos na partilha urbana que cabe extrapola cada um.
AO NOMEAR, DOU CONTORNO A UM TERRITÓRIO?
Na obra de Rafael, a palacra parece próxima do nomear, tanto de um território que se firma pelas identidades subjetivas e coletivas quanto pelo território como terreno físico, que pode ser percorrido pelos pés e meios de transporte. Em “as fronteiras que existem entre a gente”, Amorim desafia a perfeição técnica dos mapas, trazendo na tridimensionalidade o encaixe (e desencaixes) dos fluxos urbanos. Seus retralhos de mapas trazem inscrições relacionadas às áreas que circunscrevem, os nomes dos bairros, principais ruas e acidentes geográficos. A continuidade do mapa é interrompida por recortes, que transformam a cartografia plana em peças de encaixar, conferindo uma tridimensionalidade à peça.
[Tenho como prática artística textual a inscrição da vocabuleta no meu texto corrente. A vocabuleta é uma coleção de neologismos acidentais, espécie de arquivo de neologismos que surgem em minha escrita (e falas e escritas de outres) de forma acidental, iniciada em 2015. Tento preservar em suas situações de origem, demarcando-os, mas também mantenho o trabalho em atividade incluindo as entradas desse “glossário lúdico” em diversos textos de minha autoria. Alguns dos neologismos apresentados na vocabuleta são: palacra, desabrotar, existiria, leita, introvoltada, robra, filiarquia.]
Transitar é como dialogar, repartir o espaço ou percorrer com a palavra. Há, também, obras que, com o uso de materiais populares e de baixo custo, como a ráfia, remetem à instauração de cenas em uma arquitensura política, caso de “letra preta em página branca”. Duas faixas horizontais de ráfia na cor branca são marcadas por letras negras garrafais, com os dizeres “A gente vinha de mãos dadas/ Viver nos custa o fígado”. No espaço expositivo do Centro Cultural São Paulo, a junção que conecta as duas faixas no espaço é uma aresta que separa os ambientes da mostra, um paredão que tem a continuidade quebrada. Nesses dois trabalhos descritos, vemos diferentes cortes, o literal recorte geográfico dos mapas e o corte espacial de uma quina atravessada por uma quebra na narrativa.
São formas que falam de violências, desde as segregações veladas do espaço quanto do que se quebra na passagem de uma esquina a outra. Há também nas palavras o semear da expansão desse território espremido às margens para uma ocupação mais justa, que se abra em comunhão entre outros e iguais. É o caso da instalação “como propor um monumento”, de 2018, que sugere, com palavras de ordem, a abertura de generosidade radical e coletiva. Outra faixa com dizeres, desta vez em tecido de algodão, mergulhada em uma piscina de uso coletivo em um clube do subúrbio do Rio de Janeiro. É nessa coletividade que se faz a arena onde hoje Rafael mistura obra artística e ocupação profissional, em um território de intensos acontecimentos, memória e uma história que continua se escrevendo na centenária Colônia Juliano Moreira.
Sem mais delongas, vamos ao que interessa: a pórpria entrevista lacunar.