O Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti” (MACC) ganhou destaque no debate da arte contemporânea nas últimas semanas, em virtude de uma obra da artista suíça, radicada no Brasil, Mira Schendel (1919-1988), que volta ao radar após a exposição Nada Como um Dia Depois de Outro! com curadoria de Gabriel Zacarias, no Museu de Artes Visuais da Unicamp.
Da série Objeto Gráfico, a obra em questão compõe o acervo do MACC desde 1967, após ser premiada em um dos Salões de Arte Contemporânea de Campinas. Grande parte do acervo municipal, que hoje conta com cerca de 700 obras segundo o site do museu, foi formado durante o período destes Salões entre as décadas de 1960 e 1980, e conta com importantes nomes da arte moderna e contemporânea brasileira. Parte significativa do acervo foi discutida e documentada na dissertação de mestrado da Profª Drª Renata Zago, pela Unicamp, “Os Salões de Arte Contemporânea de Campinas”, em 2007. Num contexto de raras pesquisas publicadas sobre o MACC, o debate suscitado pelo trabalho de Zago é rico e traz à tona a importância deste patrimônio cultural de valor inestimável, que diz sobre a memória de Campinas e de seu setor cultural, mas também traz importantes contribuições para análise do cenário cultural brasileiro em meio à ditadura civil-militar.
Matérias publicadas sobre a descoberta em alguns meios de comunicação têm provocado questionamentos a respeito da infraestrutura disponível no museu municipal para cumprir sua função social de conservação, pesquisa, formação, difusão e fruição; inclusive com opiniões favoráveis a retirada da obra do acervo por meio de comodato. Gerido pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Campinas, que conta hoje com menos de 1% do orçamento municipal, na contramão do previsto no Plano Municipal de Cultura que prevê idealmente 3%, o MACC conta com equipe reduzida e demandas infraestruturais constantes. Apesar disso, importantes mudanças têm ocorrido no museu nos últimos anos e não ganharam destaque no debate, como a formação de profissional de conservação, mudanças de chefias, reformas elétricas, climatização da reserva técnica e adequações de acessibilidade.
Mudanças estruturais
Enquanto gestora cultural e conselheira municipal de política cultural, representante do setor das artes no município, tenho acompanhado grande parte dessas melhorias que foram possíveis por meio da parceria com a Universidade, mas também devido ao maior diálogo entre a Sociedade Civil e a Gestão Pública na última década. Isso tem reforçado o interesse da população pelo museu e o engajamento de agentes culturais locais na captação de recursos para melhorias da instituição por meio de projetos e editais de fomento.
Existe uma luta contínua pela melhoria do museu da nossa cidade. Hoje a reserva técnica está organizada, catalogada, mas demanda mais equipe para revisão e digitalização, além de insumos. Esta não é uma realidade isolada. Grande parte dos museus nacionais, principalmente aqueles fora das capitais ou centros turísticos, sofrem com falta de recursos. Frente a isso, termos como ‘um acervo perdido’ não reconhecem a legitimidade desse museu e os esforços para manutenção dessas instituições museais.
O aprofundamento crítico a respeito da gestão e do financiamento de museus no Brasil são fundamentais. Grandes instituições museais, com infraestrutura robusta de conservação, exposição e reserva técnica, contam com recursos privados de empresas ou de mecenato de pessoas muito ricas. A distribuição do recurso é desigual no setor cultural. Ao trazer à tona a presença da Mira Schendel no acervo de um pequeno museu no interior de São Paulo sugerem de cara a remoção da obra, mas como cidadã engajada no desenvolvimento local pergunto: quem tem a proposta de investir aqui? Centenas de obras seriam beneficiadas se outras soluções fossem consideradas na equação.
Sobre centro e periferias
O que se coloca aqui em torno do Objeto Gráfico, afinal, é um debate acerca da relativização das relações centro-periferias. A 90km de São Paulo, Campinas não é outro mundo. A surpresa com o descobrimento do Objeto Gráfico aqui talvez diga mais sobre onde o cenário da Arte Contemporânea põe atenção, do que sobre o MACC. Estamos mais à margem do circuito da Arte Contemporânea, mas não estamos fora. Campinas é uma cidade com setor cultural articulado e participativo. A cidade é conhecida pela presença de importantes universidades, mas também como território de outros saberes que inspiraram importantes políticas públicas de cultura, como os Pontos de Cultura e a Política Cultura Viva.
A organização dos grupos culturais em Campinas é bem forte, outros setores como o teatro também tem uma longa tradição de organização. Com a implementação do Conselho Municipal de Política Cultural nós das artes visuais também passamos a nos organizar mais e a participar ativamente na construção das políticas culturais locais. A cidade conta com artistas, curadores, museólogos e espaços independentes, que desenvolvem importante papel na conservação de acervos de artistas locais, no incentivo ao desenvolvimento das artes, na arte-educação e na vivência comunitária.
Desde 2021, o Segmento de Artes Visuais de Campinas percebe que além da sua mobilização pela sustentabilidade das práticas artísticas, deve também se engajar de forma ativa no debate sobre os equipamentos públicos das artes. Ter uma obra desta importância num acervo público, em espaço de entrada gratuita, em uma comunidade que zela por seus bens culturais, deve ser devidamente valorado. Sabemos que nosso engajamento não soluciona os problemas estruturais do MACC, mas entendemos que o museu vive um contexto histórico de retomada de sua importância e com comprometimento da gestão pública e apoio tem plenas condições de zelar pela obra.
Eu e a curadora Andrea Mendes, somos uma das agentes que geriram projetos de investimento no MACC. Entre os anos de 2024 e 2026, idealizamos o projeto Repertório Aberto dedicado à estruturação da recepção e sala educativa do museu, a proposta contou com diversas ações de acessibilidade e educação com foco na aproximação da comunidade e reforço que Campinas tem um potencial enorme para ações educativas em arte contemporânea.
Que diálogo está sendo feito com a comunidade local sobre seu patrimônio? Temos nos dedicado a essa reflexão nos últimos anos atuando no município. Organizamos um livro com estas e outras questões de ordem estrutural do direito à cultura, que formam parte da publicação Repertório Aberto: Arte-Educação e o Direito ao Museu no MACC, com lançamento no sábado 23/5, às 11h, no MACC em Campinas com distribuição gratuita de exemplares e como parte da 24ª Semana Nacional de Museus.
Serviço
Lançamento do livro Repertório Aberto: Arte-Educação e o Direito ao Museu no MACC
MACC – Av. Benjamin Constant, 1633 – Centro, Campinas – SP, 23/5, das 11h às 13h
Classificação indicativa: livre
Gratuito, com intérpretes de Libras
Repertório Aberto
Paula Monterrey é gestora cultural e conselheira de política cultural