Antecipando a inauguração da mostra Pedra Viva, em abril de 2023, o Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia (MuBE) publicou em seu perfil de Instagram uma foto da instalação TERRA, de Carmela Gross, originalmente exposta na instituição em 2017, e desde então obra integrante do acervo do museu. A imagem da TERRA, escrita em letras garrafais, brilhando sobre a marquise do edifício de Paulo Mendes da Rocha, permanece fixada na minha memória, ainda que a obra não esteja exposta. O luminoso azul, instalado no contexto da mostra coletiva Pedra no Céu (2017), só podia ser visto do alto – de um helicóptero, um avião, um drone, um homem voador –, aludindo à cor da Terra vista do espaço.
Em declaração que integra o livro Carmela Gross (Editora Cobogó), a artista enumera referências de néon presentes no tecido urbano, concluindo com “(…) a luz colorida que tinge de azul uma esquina à noite. Isso interessa. Notar como essas luzes, multiplicadas de muitas maneiras nas frestas da cidade, vêm junto com as condições mais degradadas da vida”. Se é este o mote das intervenções luminosas de Gross, como SE VENDE (2008), que ganha diferentes sentidos se instalado no Matadero, em Madri, ou no Pavilhão da Bienal de São Paulo, o que acontece à TERRA (2017), se pensado no contexto da exposição Pedra Viva: Serra da Capivara, o Legado de Niède Guidon, que terminou em 20/8?
Concebida pelo curador Guilherme Wisnik, em parceria com a arqueóloga Gisele Felice e o botânico Ricardo Cardim, a mostra apresentou 134 peças da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), como ossos de megafauna [animais gigantes que foram extintos entre o Pleistoceno e o Holoceno – há 11 mil anos], artefatos líticos [fragmentos minerais empregados na confecção de utensílios] e cerâmicos dos sítios arqueológicos da região, além de espantosos três fragmentos de pedra com pinturas rupestres originais de cerca de 12 mil anos de idade. Como as mais instigantes mostras descoloniais que se têm feito por aqui, Pedra Viva mistura temporalidades, ampliando a reflexão sobre a importância do Parque Nacional com obras de artistas contemporâneos, que enriquecem o passeio pela impressionante trajetória da pesquisadora franco-brasileira Niède Guidon, revolucionária dos estudos sobre a ocupação humana na América. Não há maneira melhor de apreciar conceitos de arqueologia, paleontologia, geologia e botânica do que ter, lado a lado aos objetos históricos, as pinturas de Nilda Neves e de Gustavo Caboco, as instalações de Lidia Lisbôa e de Carmela Gross [Larvas, 1994].
Lição Serra da Capivara (1991), de Fernando Limberger; Projeto Piauí (2015), de Mauro Restiffe; as pinturas e Marina Rheingantz e de Rodrigo Andrade; a fotoperformance Ocre-Pele e Pedra (2019), de Anita Ekman, entre outros, são obras feitas in loco, que denotam a onipresença daquela paisagem no imaginário recente da arte brasileira. No caso de Ekman, que há anos desenvolve uma investigação estético-arqueológica no local, as duas pontas de Pedra Viva – a pré-história e o presente – se conectam sobre o corpo de uma mulher indígena, a atriz Sandra Nanayna Tariano, que assina a obra com Anita Ekman. Para encenar a emaranhada relação que existe, para os povos indígenas, entre a pintura corporal e a pintura rupestre, Ekman recuperou “a tecnologia de carimbos de cerâmica para pintura corporal (que surgiu na Amazônia, no Sambaqui de Bacanga, há 6,6 mil anos) para criar meus próprios carimbos, que estampam o corpo de Nanayna na frente da representação de uma mulher grávida na Toca da Pinga do Boi”, conforme ensaio da artista e escritora na seLecT_ceLesTe #52.
Pedra Viva é um marco na história recente do MuBE, em sua ousada estratégia curatorial de mesclar megafauna com arte contemporânea de ponta, fazendo jus ao nome que o museu assumiu em 2016, Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia. Uma das primeiras mostras deste novo ciclo do museu, quando Cauê Alves foi curador-chefe (2016-2020), assim como nas gestões que se seguiram, de Galciane Neves (2020-2021), Diego Matos (2022) e Guilherme Wisnik (2023), Pedra no Céu aludia à arquitetura brutalista de Paulo Mendes da Rocha. Acompanhar o ciclo de reflexões sobre uma “pedra suspensa” até esse corpo arquitetônico abrigar “pedras vivas” e prenhes de histórias, faz pensar que finalmente o MuBE encontrou sua vocação.
Pedra Viva: Serra da Capivara, o Legado de Niède Guidon
Encerrada
MuBE – Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia