Madrugada no Rio de Janeiro, 12 mil pessoas dentro do quarto de Caetano Veloso falam freneticamente enquanto o artista canta e toca violão de pijama xadrez. Paula Lavigne veste uma camisola preta de seda e pede ao marido que não pare de tocar. Eu estava lá, conversei com a Alice Caymmi, paquerei a Bebel Gilberto e pude enxergar as mãos do artista nas minhas mãos. Em uma outra noite, seus filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso participaram da farra junto com a gente. Teve política, afeto e música. Todo mundo junto reinventando nossa forma de convívio.
As transmissões ao vivo e as videochamadas têm possibilitado a continuidade das relações interpessoais em meio à necessidade do isolamento. A interação através das telas, ainda que aparentemente solitária, nos aproxima de pessoas e realidades distantes, proporcionando aglomerações sem nenhum risco de contaminação viral.
Por isso, saí da casa do Caetano Veloso e embarquei rumo a Toronto para entrevistar meu sobrinho. Na manhã seguinte, em Ribeirão Preto, estava sentada junto à cama da minha analista aguardando o final de mais uma sessão. Fiz várias viagens desse tipo no último ano. Sem máscara. Descalça. Dentro da minha casa.
“Atenção! Gravando!”

O ator Tom Hulshof mora no Canadá, está no auge dos seus 11 anos e já foi dirigido por Frank van Keeken e Douglas Aarniokoski. Há um ano, por causa do coronavírus, precisou ter um canto da sua casa transformado em set de filmagem para poder continuar trabalhando. Ele, que é filho de brasileiros, escuta da sua irmã mais nova no meio da gravação: “Tom, posso show you what eu fez?”. “Corta! Não interrompa novamente a gravação do seu irmão”, intercede o pai.
Além da estrutura que precisou ser montada dentro do ambiente doméstico, agora equipado com iluminação profissional e tela de chroma key, a agenda de trabalho de Tom teve que se ajustar não só à rotina escolar como a familiar. Seu pai o auxilia nas gravações dos testes de elenco, que são feitas pela manhã, antes de começar as aulas na escola, e os personagens e textos são estudados à noite junto com a mãe. Durante as filmagens, o silêncio e a organização do espaço são negociados com sua irmã de seis anos, que, em troca, ganha hambúrgueres ou passeios no parque.

Durante a pandemia, o ator participou da série Clarice e, em cinco dias de atividade presencial, foi submetido a três testes de Covid-19. A energia do set, ele lembra, estava completamente diferente. Havia um clima de tensão pelo risco de contágio e os protocolos de segurança impediram o convívio entre a equipe. Antes disso, Tom gostava muito da interação que acontecia nos bastidores, principalmente no refeitório, onde tinha a possibilidade de lanchar junto com diretores e figurantes, desconstruindo as hierarquias e descobrindo os sabores do dia. Hoje, em contrapartida, o pedido é feito pelo telefone e ele precisa buscar sua comida na porta do trailer culinário, o que é muito chato.
O ator também faz parte do Balé Nacional do Canadá e teve suas apresentações de dança transferidas dos teatros para a sala de estar. Apesar dessa mudança possibilitar que a gente o assista ao vivo e de longe, Tom sente falta da adrenalina dos palcos e, principalmente, dos aplausos.
“Corta!”
A psicanalista Luciana Torrano diz que nunca imaginou ter pacientes entrando no seu ambiente domiciliar. Em uma inversão de papéis, na qual sou eu quem guia a sessão, minha terapeuta responde às poucas perguntas que faço e fala com detalhes da sua rotina, das práticas de ioga às travessuras de seus três cachorros.

Anteriormente, entrar na casa – e na vida – do próprio analista era impensado. No máximo poderíamos fantasiar histórias, mas nunca ter uma concretude sobre elas. Hoje, essa distância deixou de ser tão importante e a aproximação durante o distanciamento social tornou-se mais necessária do que o setting de análise.
Muitas pessoas não se renderam às interações virtuais por sentirem que há um enfraquecimento do vínculo interpessoal. É fato que a conexão não é igual, mas o mundo digital se apresenta como alternativa para o convívio. Se Freud atendia alguns pacientes caminhando com eles em praças públicas, fazer terapia on-line ou assistir à espetáculos via internet é apenas mais uma das possibilidades trazidas pelo isolamento.

“A busca pela saúde mental está alta. Muitas pessoas perceberam que o mundo gira em torno da mente humana e passaram a se preocupar mais com isso. O isolamento é um lugar de introspecção e, se sua mente não está tranquila, fica mais difícil”, diz Luciana, que durante a pandemia tornou público o seu perfil no Instagram para propor reflexões e contar histórias, acolhendo um número muito maior de pessoas do que seria possível atender no consultório. A analista afirma que a arte é matéria-prima da psicanálise e que as pessoas com menos contato com práticas artísticas foram as que tiveram maior agravamento do estado de saúde mental.
O peso da situação que estamos vivendo é realmente indiscutível. Enquanto tento colaborar para conter o avanço de uma pandemia que parece longe de acabar, investigo as oportunidades que surgiram nesse caos tentando não perder a sanidade e a esperança. Invento outras formas de transitar nos bastidores, analiso a intimidade dos meus artistas prediletos e converso com pessoas que talvez eu nunca vá conhecer pessoalmente.
Em tempos pandêmicos, a internet virou o meio de transporte ideal, o álcool em gel é o companheiro mais fiel e a casa se tornou um grande palco onde os sons, a iluminação e o tamanho de cada residência são o pano de fundo para uma vida inteira. Os aplausos inaudíveis do público definitivamente não determinam mais a qualidade do engajamento entre o artista e o espectador, assim como o divã pode estar no quarto do analista e isso só será mais uma questão para se olhar durante as sessões.

Ana Clara Joly é artista plástica e arte educadora graduada pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Coordenadora da ONG FINAC, desenvolve esculturas, performances e trabalha como cenógrafa e iluminadora. Em 2017 foi contemplada pelo edital PROAC Obras e Exposições. Seu processo criativo propõe a tradução da sua existência; tradução como equivalência; traição; transmutação; deslocamento; homenagem.