A quinta edição da SP-Arte Rotas foi inaugurada nesta semana na Arca, em São Paulo, e segue aberta ao público até domingo 30/8. Nós, da redação da celeste – que lança neste sábado (29/8) uma edição dedicada a pensar dimensões da imagem na arte contemporânea de matriz yanomami e iorubá – chegamos à feira com uma questão: que tipo de visualidades se revelam nas obras reunidas nesta edição?
Muito se tem falado sobre os diálogos latino-americanos propostos pela direção da SP-Arte. Neste ano, seis galerias estrangeiras participam do evento – cinco de países latino-americanos e uma italiana. A presença desses espaços, sem dúvida, amplia o mapa mercadológico para produções que extrapolam matrizes euro-referentes. Mas um recorte baseado apenas na origem geográfica de artistas e galerias não seria suficiente para responder à nossa pergunta.

Observando as propostas de cada expositor, recorrências apareceram aqui e ali. Cerâmicas amorfas – por vezes monstruosas –, muitas. Corpos fragmentados. Figuras que se fazem presentes pela ausência. Paisagens, seres metamorfoseados, entidades espirituais. Imagens que partem da figura, mas a subvertem. Deslocam a figuração direta e objetiva sem abandoná-la por completo.
É daí que surgiu, para nós, o termo “desfigurar”.
Talvez essa seja uma palavra mais adequada para este momento do que recorrer às já estabelecidas abstração e figuração. Primeiro porque o que nos parece particularmente interessante é o espaço entre essas duas categorias. E segundo, porque elas carregam uma história específica da arte e um vocabulário que muitas vezes se mostrou insuficiente para descrever experiências visuais produzidas a partir de outros contextos – lançar mão desses conceitos implicaria reafirmar a doutrinação visual do cânone.
Desfigurando a feira
Não há aqui uma tentativa de nomear um movimento, muito menos categorizar. A palavra surge como uma ferramenta de leitura para relacionar visualidades de pesquisas distintas e, talvez, conseguir traçar um panorama mais abrangente da feira, observando algumas pistas do que há de singular nessa produção majoritariamente latino-americana.
O curador da feira e do setor Mirante, Bernardo Mosqueira, que pediu às galerias participantes que trouxessem artistas que expandem as fronteiras brasileiras, disse à celeste que sua curadoria Primeiro Estudo: Sobre a Paisagem “convida a desfigurar para reconfigurar outras dimensões de paisagem: erótica, espiritual, astral… paisagens habitadas por seres que não somos capazes de categorizar”.

No estande da Claraboia, obras de linguagens experimentais entre cera de abelha, metais e pigmentos, do artista Emer Freire, desfiguram tanto a paisagem metropolitana quanto a própria ideia de corpo. Diante da escultura composta por garra mecânica, chumbo, néon vermelho de gás neônio, resina e braçadeiras de alumínio é possível entender como a projeção de uma metrópole distópica ou pós-apocalíptica contamina o imaginário do artista paulistano. Em Mal-adaptativo (2026), ele recolhe materiais eletrônicos descartados e objetos encontrados na cidade para construir um objeto cibernético – ou destroço humano.
Na obra Primeira Natureza (IV), a cera e o látex já trazem poéticas orgânicas, podendo ser associadas ao corpo humano e até à ideia de prótese. Recém-representado pela Claraboia, Freire integra a exposição Céu da Pedra, com curadoria de Ana Roman, e participa do 39º Panorama do MAM, que inaugura em setembro.
Pedro Neves, no estande da Mitre, recorre à desfiguração para lidar com visagens – aparições, entidades e almas que povoam o imaginário do Norte brasileiro. É um tema recorrente em sua produção e relacionado à experiência entre o Maranhão, onde nasceu, e Minas Gerais, onde cresceu.
A palavra “fabulação” aparece com frequência nas leituras feitas sobre sua pesquisa – e de fato, a desfiguração parece convergir com essa aura etérea. Mas o termo também implica invenção de uma realidade alternativa, enquanto nas obras de Neves não parece haver distinção entre o que seria o mundo dos encantos e aquilo que costumamos chamar de real.

O mesmo pode ser dito sobre a pesquisa de Rodrigo Bueno sobre a Jurema, no estande da Passado Composto Século XX: tampouco há uma fronteira entre experiência religiosa e vida cotidiana. Essas dimensões permeiam concomitantemente, porque o espiritual é parte concreta da experiência do mundo. Nesse caso, desfigurar é reconhecer que a visualidade objetiva não dá conta de tudo aquilo que constitui a vivência subjetiva.
Memórias do corpo
No estande da Cerrado, na obra Fazendo Ausências (Lucidez Difusa) (2026), Helô Sanvoy reúne madeira, cacos de vidro temperado, couro e tranças. São materiais que carregam a memória do trabalho nos ciclos comerciais extrativistas coloniais. Ao mesmo tempo, o couro e as tranças evocam o corpo, sobretudo negro. A figura aqui está fragmentada. Trata-se de um corpo que foi politicamente desfigurado ao longo da história por discursos, imagens e sistemas de representação. Fragmentá-lo na obra pode ser, nesse sentido, menos uma destruição do que uma maneira de recusar sua representação totalizante.
Em La Confradia, Abuelas y Abuelos (2025), Antonio Pichillá, no estande da Luciana Brito, parte de uma estratégia ainda mais próxima da ausência. O artista guatemalteco tece vestimentas tradicionais Maia Tz’utujil e as estende sobre estacas de madeira, evocando a ancestralidade por meio da referência aos avós, como indica o título.

A pesquisa de Lucía Pizzani também parte do corpo para levá-lo a outro estado. Venezuelana, nascida em Caracas e radicada em Londres, a artista investiga relações entre narrativas femininas e processos de metamorfose na natureza. Na Marília Razuk, apresenta atualmente a individual Guardianas y Serpientes. Na feira, a galeria apresenta uma série de fotografias da série Sagrario (2015), exibida anteriormente na 2ª Bienal das Amazônias, em Belém. Nas imagens de alto contraste em preto e branco, corpos aparecem quase inteiramente encobertos por tecidos e vegetações. O corpo está a meio caminho entre o humano e o vegetal. A figura permanece como ponto de partida, mas sua identidade vai sendo permeada pela a matéria que a envolve.
Depois de trabalhar com gado e na lavoura, o mineiro autodidata Seo Constante descobriu-se artista aos 78 anos e hoje é representado pela Karla Osorio, que expõe três trabalhos seus na feira. Talvez por isso suas pinturas não tenham compromisso com a noção de representação da tradição acadêmica. Seu universo onírico é composto por pinceladas cruas e seres fantásticos, que se irmanam às formas de entidades espirituais originárias. São animais, seres, vegetação e grafismos flutuando em um universo de intensidade cromática e gestos soltos, que denotam mais presenças reais que suas representações.

Temos ainda todo um repertório de obras de artistas indígenas, entre eles, Pedro Macuxi, revelação da galeria Jaider Esbell, estreante na Rotas; Santiago Yahurcani, representado pela Flexa Galeria; e Joseca Yanomami, representado pela Almeida & Dale e presente na curadoria de Mosqueira. Como aponta o antropólogo Daniel Jabra no texto “Tornar-se Imagem: Xamanismo Yanomami e a Inelutável Realidade do Invisível”, publicado na celeste #10, “a ontologia e cosmologia yanomami são fundadas no conceito de imagem, mas de forma alguma nos sentidos da figuração ou representação”. Assim, o que temos nas pinturas yanomami não são imagem, mas “pele de imagem”.
Há ainda muitos outros caminhos de desfiguração presentes na feira, reunidos na galeria de imagens que apresentamos aqui. Mas, afinal, por que desfigurar? O que todas essas obras citadas compartilham não é uma mesma intenção, mas uma desconfiança em relação à representação direta. Em um mundo cada vez mais complexo, talvez a imagem também precise deixar de ser tão objetiva.
