O que será da arte no futuro? Diante da provocação feita por Daniel Roesler, sócio e diretor da galeria Nara Roesler, a curadora convidada Magalí Arriola responde com obras que se comportam como oráculos, quimeras e figuras simbólicas para falar, de forma codificada, da incógnita sobre o que será do amanhã.
A resposta está longe de ser clara e cristalina. Ao contrário, “aquilo que se apresentava como futuro deixa de ser o lugar das grandes narrativas, previsões, promessas ou adivinhações e passa a ser, em vez disso, um campo conjectural”, escreve Arriola no texto curatorial de Speaking in Tongues [Falando em Línguas].

A exposição coletiva retoma o projeto Roesler Hotel que, entre 2004 e 2019, recebeu hóspedes estrangeiros – curadores e artistas convidados a realizar projetos –, com o objetivo de promover diálogos entre a produção artística brasileira e a comunidade internacional.
Esse espaço de experimentação demarcou o início do processo de internacionalização da galeria inaugurada por Nara em 1989, em São Paulo. Depois de expandir para o Rio de Janeiro, a Nara Roesler chegou em 2016 a Nova York, tornando-se a primeira galeria brasileira a abrir uma filial fora do país e uma das principais plataformas para a arte brasileira no circuito global.

O cinquentenário da atuação de Nara como galerista – que começa em Recife, em 1976, com a abertura da galeria e loja de design Arte Espaço – ganha programa comemorativo nas três sedes ao longo de 2026. Além de exposições coletivas que abordam as fases emblemáticas da trajetória, está previsto o lançamento de um livro no final do ano, editado pela Nara Roesler Books. A editora foi criada em 2011 com a finalidade de guardar a memória dos artistas representados pela galeria, que hoje somam 50.
Com curadoria do conterrâneo Moacir dos Anjos, Festa das Falas abriu o ano reunindo artistas nordestinos, em particular do Recife, entre os quais José Patricio, Paulo Bruscky, Jonathas de Andrade e o pintor e desenhista José Cláudio (1932-2023). Com o último, Nara começou a trabalhar muito jovem, aos vinte e poucos anos, expondo trabalhos na sala de sua casa, quando sequer existiam no Brasil mercado de arte e colecionismo estabelecidos.
Mas “trabalhar”, aqui, não significa tão somente vender. Compreendendo desde o princípio a importância de realizar o acompanhamento dos artistas a longo prazo, a interlocução curatorial e a inserção institucional, Nara colocou Recife no raio da grande mídia sudestina ao convidar Frederico Morais, na época crítico de artes plásticas no jornal O Globo, para ir ao Recife conhecer Zé Claudio, Samico e os artistas pernambucanos.
Falando em códigos
Na história contada pelas exposições, o regional e o universal se entrelaçam. Se, em Recife, Nara já trabalhava com artistas de outras regiões do Brasil, como Iberê Camargo, Siron Franco, Tomie Ohtake e Sérvulo Esmeraldo, fronteiras geopolíticas nunca foram um impeditivo para sua atuação, e idiomas estrangeiros sempre foram atrativos em seus projetos.
Mostra disso é a representação de Sheila Hicks (nascida em Nebraska, em 1934, e residente na França), uma das pioneiras da arte têxtil, hoje em cartaz na individual Autobiografia de um Fio. “A disponibilidade para o ancestral em Sheila aponta para tempos múltiplos – o tradicional, o moderno e o contemporâneo”, diz o venezuelano Luis Pérez-Oramas, diretor artístico da Nara Roesler e curador da exposição.
Com a mesma disposição de Hicks em “dilatar as temporalidades do material”, a programação deste ano tece uma narrativa múltipla da atuação de Nara Roesler. Decodificada, como sugere fazer a curadoria de Magalí Arriola, a sucessão de exposições assemelha-se a uma biografia escrita a várias mãos, com importante inflexão ao futuro no desenho dessa trajetória.
Entre curadores e artistas de diferentes gerações e geografias, que incluem ainda Bernardo Mosqueira, Ariel Jimenez e Agnaldo Farias, compõe-se aqui um retrato da figura dinâmica, destemida e pioneira que é Nara Roesler. Uma mulher “que fala pouco e age muito”, como definiu o amigo Miguel Chaia, em conversa na SP-Arte, em abril último.
“Sou uma mulher de ação, não posso ouvir um não”, concorda Nara Roesler, antes de contar o caso do transporte de uma obra que fez sozinha, colocando-a no bagageiro do carro, quando se viu impedida de avançar devido a um problema de logística. Nara vai longe.
Speaking in Tongues [Falando em Línguas]
Até 24/10
Nara Roesler São Paulo
Avenida Europa, 655
Sheila Hicks: Autobiografia de um Fio
Até 24/10
Nara Roesler São Paulo
Avenida Europa, 655





