A primeira obra com que se depara o visitante da mostra Geopoéticas é a instalação de Leslie Shows, Display de Propriedades, que ocupa um imenso painel logo na entrada do Armazém A4 do Cais do Porto: sequência de bandeiras brancas, esvaziadas de seus símbolos como a pedir trégua; as manchas de tinta que aparentam escorrer pela parede são, na realidade, colagens que a artista realizou no local, derramando tinta com diferentes tonalidades e diluições em cones de papel posteriormente recortados para se tornarem as manchas escorridas e os emblemas heráldicos dispostos por último perto da base do painel. Esta obra dá o tom da principal exposição da bienal, tanto porque se vale de elementos de identificação de territórios e nações quanto porque poeticamente desfaz e refaz ou ressignifica estes mesmos elementos.
A videoinstalação de Cristina Lucas, exibida logo a seguir, um tableau vivant da pintura histórica de Delacroix (A Liberdade Guiando o Povo, famosa alegoria da República em que uma mulher simbolizando a Liberdade empunha a bandeira da Revolução Francesa para conduzir barricada afora a população parisiense que se insurgiu contra o absolutismo na Revolução de Julho de 1830), põe a nu a construção ideologicamente carregada das narrativas históricas. Assim como o vídeo do jovem artista Guilherme Peters, intitulado Robespierre e a Tentativa de Retomar a Revolução (2010), que evidencia dimensão patética das ações do revolucionário francês à luz dos desdobramentos contemporâneos da história republicana. No vídeo, o artista travestido de Robespierre encena rituais nonsense como girar em círculos com a cabeça apoiada a uma baioneta até cair ou percorrer uma pista de skate dentro de um cômodo estreito até a exaustão.
Confira na galeria acima outros destaques do Armazém A4
(Fotos: Juliana Monachesi/Estúdio seLecT)