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Curadora Manuela Moscoso durante a montagem (Foto: Ana Dias)
Postado em 01/09/2025 - 2:48
Distância não é ausência, é matéria
Manuela Moscoso, curadora-geral da 2ª Bienal das Amazônias, afirma a necessidade de a instituição contemporânea cuidar e apoiar outros cânones, além do ocidental

Com 24 brasileiros, todos de estados amazônicos, entre os 74 artistas e coletivos de oito países pan-amazônicos, a 2ª Bienal das Amazônias, que acontece em Belém até 30/11, é uma plataforma para pensar as diásporas da Minoria Global, sustenta a curadora-geral do evento. Em entrevista à celeste, a equatoriana Manuela Moscoso manifesta interesse pelas múltiplas identidades e cosmologias da região – guardadas as suas aproximações e distâncias –, afirmando que instituições do Norte estão se abrindo a auto-questionamentos, ao reconhecer o compromisso de atentar, cuidar e apoiar outros cânones, além do ocidental. 

Manuela Moscoso é a atual diretora executiva do CARA (Centro de Pesquisa e Alianças em Arte), em Nova York. Já atuou como curadora sênior no Museu Tamayo, no México, foi curadora da Bienal de Liverpool de 2021, intitulada The Stomach and The Port; e curadora associada da Bienal de Cuenca, em 2014, no Equador. Em Belém, ela assimila à sua equipe a historiadora da arte colombiana Sara Garzón, a filósofa e arte-educadora mexicana Mónica Amieva e o curador e ativista brasileiro Jean da Silva, paraense do bairro do Jurunas, confundador do Gueto Hub, que atua entre cultura periférica e justiça climática na Amazônia urbana.

celeste: Ao se colocar como uma plataforma de diálogo Pan-Amazônico, a Bienal das Amazônias se mantém um campo de debates para América Latina e Sul Global?

Manuela Moscoso: Esta é uma bienal com um olhar específico sobre um território, que é a Pan-Amazônia. Mas obviamente este é um lugar para pensar sobretudo a América Latina, onde estamos, mas também o Sul Global, que também se chama hoje Global Minority, que são as diásporas. Então, estamos falando de trajetos, formas de contaminação, intercâmbios, acessos… Afinal, há certas influências que estão geograficamente mais ligadas ao Caribe, outras ao pensamento pan-amazônico e outras ao pensamento andino. Isto é uma convergência de lugares, em que o mais interessante são as conversas que acontecem: temos muitíssimos idiomas e muitíssimos passados coloniais. Isso em um contexto latino-americano em que viajar é difícil. Tivemos apoio institucional para fazer as viagens de que a gente precisava – por Equador, Colômbia, Peru, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e os estados amazônicos brasileiros. Do Brasil, os estados presentes são só os amazônicos. Esse tipo de relações na América Latina, em que nos reconhecemos no outro, não ocorre habitualmente. As instituições que de fato apoiam esse tipo de intercâmbio são muito poucas na região.

Manuela Moscoso (Foto: Ana Dias)

Reconhecer-se no outro. Isso toca um aspecto importante da arte hoje. Como vê o fato de as questões ditas identitárias pautarem a arte contemporânea? 

Nós não nos regemos pelo identitário nesta bienal. É uma questão, mas não um eixo central, que gere uma pulsão. Mas, por exemplo, a partir da memória, que é um eixo, você poder falar de identidade. Levamos os conceitos a outros lugares, onde a identidade pode fazer parte ou não desses questionamentos. A Pan-Amazônia não tem uma identidade, são milhares de identidades com diferentes cosmologias, formas de pensamento, educação, economias. Acre e Macapá, apesar de serem floresta, são lugares muito diferentes; ou Macas, no Equador; ou Iquitos no Peru; ou Leticia, na Colômbia. 

Mas o artista contemporâneo tem a capacidade de se reconhecer no outro, apesar das diferenças?

Acho que a arte contemporânea está abrindo fissuras em muitos lugares, sobretudo desde a morte de George Floyd. Instituições do Norte estão se abrindo a autoquestionamentos. Isso gerou uma série de movimentos localmente a partir da consciência institucional da necessidade de ser mais inclusiva a questões de identidade e gênero. Algumas instituições estão trabalhando com cotas, outras estão olhando para si mesmas e questionando a própria institucionalidade. Umas mais, outras menos. Mas sinto que houve uma mudança institucional de um modo geral – sobre quem representamos, que memória guardamos, quem fala por quem. Em relação à minha geração, pré-internet, hoje há redes muito mais empoderadoras. São forças geracionais que têm outras formas de conectividade. 

A instituição de arte está buscando ultrapassar os modelos da modernidade europeia? 

Estão buscando pelo menos se auto-questionar. Não todas e não totalmente. Mas, sim, há um questionamento da modernidade como único eixo. E isto não está sucedendo somente no Sul Global, ou no Lower East Side de Nova York. Eu, aos quase 50 anos, e outros de minha geração, estamos tratando de gerar outros posicionamentos sobre o que é a curadoria, o que é a colaboração. Mas isso é algo intergeracional: um momento histórico de empoderamento não somente nas artes mas em outros setores. Jean da Silva é um grande exemplo. Ele vem do ativismo social da periferia de Belém e começa a se interessar pela ideia de que a cultura faz parte do meio ambiente. São questões trazidas por uma geração, para as quais as instituições estão abertas a dar espaço. 

Equipe curatorial_Cocurador do programa público Jean da Silva, curadora pedagógica Mónica Amieva, curadora chefe Manuela Moscoso e curadora adjunta Sara Garzón (Foto: Ana Dias)


Na visita guiada que a curadoria realizou, vocês apontaram em certas obras a ideia de um conhecimento fractal, parte de um pensamento não ocidental, que aproxima noções tidas como paradoxais – como o geométrico e o orgânico, por exemplo.  Essa visão se insere em perspectiva mais ampla de um pensamento não binário?

Sim. Porque se vamos nos questionar sobre o que é aprender, é preciso desaprender. Aprendemos a ver as coisas de uma certa forma e desaprender é questionar esses dados onde há binarismos, que colocam valores nas coisas. Talvez isso tenha a ver com a sua pergunta anterior: trata-se de um exercício de valoração, ou seja, valorizar tanto uma coisa quanto a outra. Ou seja, o trabalho de Dayro Carrasquilla aqui é uma tecnologia. São exercícios de desaprender. 

Em trabalhos de artistas como Roberto Evangelista, por exemplo, esta bienal evidencia aproximações entre o orgânico e o geométrico. Nesse sentido, como você vê o eixo que a última Bienal de Veneza dedicou à geometria?

Humm… Talvez eu não fale a partir da Bienal de Veneza, mas  partir da minha perspectiva. Para começar, não sou tão disciplinada, então para mim o geométrico pode ser orgânico e o orgânico pode ser geométrico. Mas esse tipo de categorização, aí sim posso dizer, desde o Sul Global ou de lugares em que você tem economia de meios, todas as categorias são um pouco mais fluidas. O que eu estou tratando de evitar, como um exercício político, é ressignificar dentro dos cânones que já existem, ou seja, me interessa menos expandir o cânone, que é mais ou menos o que a Bienal de Veneza está fazendo. Me interessa mais pensar que há muitos cânones e de que maneira existiram apesar das instituições, apesar de terem sido valorizados ou não, apesar de terem tido recursos econômicos ou não. Apesar disso tudo, existiram muitos cânones que devemos cuidar e apoiar, em vez de simplesmente incorporar ao cânone que já existe. Porque, novamente, isso vem de uma valorização desde cima, mas eles podem vir de outros tipos de valorizações, saberes e formas de pensar.

Como a multiplicidade de gêneros que se abrem a partir do que já foi binário?

Sim, na curadoria, o que me interessa é que todo artista é mais e é menos do que aquilo pelo qual eu o convoco. Todo artista é um universo. Eu o convoco em relação a algo, uma ideia, um conceito, mas sua investigação é mais do que aquilo sobre o qual eu lhe convoco. A mim interessava, por exemplo, trazer a cosmologia das montanhas, de Mali Salazar. Mas Mali tem outros trabalhos e outros saberes. Todos os artistas são mais do que aquilo pelo qual nós, curadores, os convidamos. A exposição funciona muito melhor quando as obras respiram. Essa é minha posição. Isso é algo que às vezes conseguimos, outras vezes não. Não somos infalíveis.