Devo admitir que hesitei por um bom tempo antes de decidir visitar a Bienal de Veneza deste ano. A morte trágica e repentina da diretora artística, que ocorreu há um ano – pouco antes de haver anunciado o tema da edição –, junto ao cenário de um mundo em colapso diante de conflitos globais, não parecia o momento mais adequado nem estimulante para visitar tal evento. Como criticar seriamente um projeto que não chegou a ser plenamente curado por sua autora? É possível emitir um julgamento baseado apenas no esboço conceitual elaborado por seus co-curadores? Trata-se, de fato, de um exercício delicado: qualquer crítica à exposição recai, de maneira indireta, sobre quem infelizmente já não está aqui para se defender. Por puro respeito, parece que pouco pode ser dito que não seja positivo – a não ser para chamar a atenção para os aspectos em que sua visão e seu conceito originais não foram respeitados.
Koyo Kouoh, nascida nos Camarões e formada na Suíça, era amplamente reconhecida como uma personalidade marcante no mundo da arte, exercendo grande influência internacional. Foi a primeira mulher africana a curar a Bienal de Veneza, sendo muito inspirada por organizações dirigidas por artistas, sempre dando um enfoque particular às artistas mulheres africanas. Em seu conceito para a Bienal, ela nos convidava a “respirar fundo, expirar” e a “mudar para um passo mais lento e sintonizar-nos com as frequências das tonalidades menores. Pois, apesar de estarmos muitas vezes perdidos no meio de uma cacofonia ligada ao caos atual que se espalha pelo mundo, a música continua”. Essas tonalidades menores são também vistas como “pequenas ilhas” – ou mundos paralelos criados pelos artistas, universos íntimos e acolhedores que nos restauram e nos apoiam mesmo em momentos de crise.
Kouoh afirmou explicitamente que esta edição não pretendia ser um comentário sobre os acontecimentos do mundo ou a crise atual. O resultado final, ao contrário, deveria ser motivado pelo desejo de privilegiar uma espécie de “dissonância do free jazz” e de reconectar a arte ao seu habitat natural e ao seu papel na sociedade: o emocional, o visual, o sensorial, o afetivo e o subjetivo. Antes de falecer, ela conseguiu definir a estrutura básica e os fundamentos da exposição por meio da equipe curatorial composta por Gabe Beckhurst Feijoo, Siddhartha Mitter, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti e Rory Tsapayi, que reuniu no Raw Material Company de Dacar – um centro de arte transdisciplinar experimental que ela própria fundou anos atrás.
JARDINS EXPERIMENTAIS
Todas as Bienais de Veneza se parecem: uma maratona frenética e correria de um espaço a outro, de uma reunião para a outra, tentando não perder nada, mas sabendo, no fundo, que isso inevitavelmente acontecerá. Escolhi começar pelo Arsenale, a fim de entender claramente como a equipe de Kouoh havia realizado sua visão através de uma abordagem centrada na cura, na escuta minuciosa, na ressonância espiritual e nas baixas frequências – representadas no trabalho de 111 artistas e coletivos. No entanto, apesar da orientação curatorial geral que se propõe a evitar gestos abertamente políticos, a primeira coisa que encontramos é uma faixa com o poema I Will Die, do escritor palestino Refaat Alareer, morto em Gaza em 2023.
Mas como a vida deve ter prioridade nesta exposição, o texto introdutório promete “jardins experimentais e metafóricos” repletos de “resistência coletiva e de cura”. As salas no início do percurso evocam o místico e o espiritual por meio de uma profusão de tecidos suspensos no teto, penas, cerâmicas e uma enorme variedade de objetos cerimoniais ligados às celebrações do Mardi Gras do Grande Chefe Demond Melancon, de Nova Orleans. Não muito longe, encontramos a instalação do artista brasileiro Ayrson Heráclito, Juntó, 2023–25, composta de uma série de esculturas em aço inoxidável e desenhos em aquarela que evocam os utensílios e os emblemas dos orixás, divindades da tradição do culto afrobrasileiro do candomblé.
Uma grande parte das obras abordam o colonialismo e o legado da escravidão, enquanto outras exploram histórias de família. Um número significativo de peças evoca a agricultura, as plantas e a água. Corpos híbridos e temas ligados a rituais estão omnipresentes nas pinturas e esculturas em toda exposição. O som também ocupa lugar de destaque, sobretudo como meio para estimular uma experiência corporal. Embora as primeiras salas estejam extremamente bem montadas – dando uma grande atenção à cor, à disposição geral e à justaposição e ao diálogo entre diferentes tipos de obras –, a coerência se perde à medida que se avança pela galeria principal do Arsenale. Encontramos, assim, espaços enormes superlotados apresentando aglomerações de trabalhos que simplesmente não dialogam entre si, em confusão e distantes da ideia de tons menores.
Apesar dessa experiência repetitiva e cacofônica, algumas obras se destacaram trazendo agradáveis surpresas. Especialmente porque muitos dos meus trabalhos favoritos eram, curiosamente, instalações de vídeo, muito raros nessa bienal.
A ligação com a poesia e o jazz é extremamente importante na obra de Cauleen Smith, The Wanda Coleman Songbook (2024), que propõe um ambiente acolhedor e multissensorial com sofás e tapetes persas dispostos diante de quatro enormes projeções de vídeo – um espaço de repouso e meditação. Smith presta homenagem a Wanda Coleman (1946–2013), poetisa originaria do bairro operário de Watts, em Los Angeles, cujos escritos abordavam o racismo, a pobreza e as contradições sociais da cidade. Enquanto escutamos a trilha sonora composta de sete interpretações da poesia de Coleman por compositores negros, nos deparamos com cenas cotidianas de Los Angeles e de suas comunidades negras, indígenas e latinas: helicópteros da polícia sobrevoam a vizinhança, fisiculturistas passam diante das janelas de uma academia, pessoas seguem suas rotinas e fazem entregas, vemos o Watts Towers à distância. Todos esses elementos criam um retrato fascinante de uma cidade enigmática.
De forma semelhante, o filme de Rose Salane, Mercurial New York (2026), constrói um retrato psicológico de uma cidade em perpétuo movimento. A câmera se aproxima e escuta conversas íntimas entre os diversos grupos sociais que a habitam – um casal negociando o noivado, um grupo de amigos lidando com uma situação traumática. Passamos de uma língua a outra à medida que uma imagem se dissolve na seguinte, para cima e para baixo, de um lado a outro, tecendo uma paisagem híbrida, complexa e subjetiva da cidade a partir das esperanças, memórias e ansiedades de seus habitantes.

Com grande senso de humor, Guadalupe Rosales constrói um ambiente escultural em aço com iluminação dramática para apresentar um arquivo da cultura jovem chicana na Los Angeles dos anos 1990 – um mundo do qual ela própria fez parte. O arquivo inclui panfletos de festas e raves, cartas de amor manuscritas e camisetas feitas à mão, ao lado de fotografias da artista inseridas numa série de espelhos iluminados que evocam a atmosfera de uma boate. É um trabalho sobre amizade, memória, irreverência juvenil e pura alegria.
Tive também o prazer de descobrir uma série de imagens hilárias manipuladas por Raed Yassin – entre elas Yassin Haute Couture (2018), Playmate of the Month, Princess of Oblivion e Proposal for a Proposal – nas quais ele veste imagens vintage da revista Playboy com padrões de bordados pintados à mão, que imaginou como obra de seu pai, um estilista que trabalhou na Arábia Saudita até ser assassinado durante a Guerra Civil Libanesa. A prática de Yassin está fundada na sua história pessoal com histórias secretas, misturando realidade e ficção, incorporando rumores e fabulações para construir assim uma dramaturgia própria. No pavilhão principal dos Giardini, ele apresenta Warhol of Arabia (2016–2018), uma série de imagens baseadas em pura especulação, inspiradas em anedotas em torno da visita de Andy Warhol ao Kuwait em 1977 – quando o artista buscava modelos para retratos –, imaginando quem poderiam ter sido essas pessoas e evocando um conjunto inteiramente novo de cenários delirantes.
Usando um outro registro, o cineasta Avi Mograbi apresenta uma instalação de vídeo complexa, Between a River and a Sea, que narra uma história comovente de deslocamento e de sonhos perdidos através de duas listas telefônicas comerciais – uma ligada ao Líbano, à Palestina e à Síria a partir de 1938, e outra de Gaza em 2023 – e de suas histórias familiares divergentes. Em registro de documentário, a obra traça as jornadas de Ali al-Azhari e Avi Mograbi, professor e aluno, enquanto seguem os passos de suas famílias por Damasco, Beirute, Safuriyya, Jaffa e Tel Aviv: lugares que faziam parte de uma única região há tempos atrás.
Também vale a pena mencionar a instalação de vídeo monumental de cinco projeções de Eric Baudelaire, Death Passed My Way and Stuck This Flower in My Mouth. Filmada no gigantesco armazém de flores holandês, aonde chegam diariamente 46 milhões de flores da África e da América do Sul, para serem leiloadas todas as manhãs, esta obra em estilo documentário é ao mesmo tempo assustadora e sedutora, pois nos lembra até que ponto esse tipo de comércio globalizado é devastador para o meio ambiente. As imagens apresentam operações semiautomáticas e desumanizadas que contrastam profundamente com a dedicação e a concentração dos trabalhadores. Inspirada na peça de Luigi Pirandello O Homem com uma Flor na Boca (L’uomo dal fiore in bocca), o trabalho intercala sequências documentais com a presença de um personagem noturno que vagueia pelas ruas – figura inspirada no protagonista da peça, um homem fugindo da morte. A instalação opera em vários níveis; descobrimos também o grande senso de encenação e dramaturgia do artista pois, logo atrás do espaço de projeção, trechos emoldurados da peça estão pendurados na parede diante uma fotografia do protagonista fictício segurando uma flor.

Bem mais animado é o espaço ocupado pelo BlaxTARLINES KUMASI, coalizão artística experimental formada por um coletivo intergeracional de artistas, curadores, escritores e profissionais da cultura que se define, simultaneamente, como experiência pedagógica, centro de apoio e rede underground de emancipação. Fundado há mais de vinte anos na Universidade de Ciência e Tecnologia (KNUST) de Kumasi, Gana, o grupo tem se dedicado a redefinir o artista – não apenas como criador de objetos, mas como organizador de exposições e co-construtor de públicos. O espaço irradiava uma energia de propaganda política: livros de Angela Davis e Kwame Anthony Appiah nas prateleiras, ao lado de um mapa em grande escala do continente africano, onde pequenas telas de vídeo apresentavam as atividades do coletivo.
Apesar dos apelos de Koyo Kouoh ao silêncio e à introspecção, esta edição da Bienal certamente será lembrada por suas perturbações, protestos e controvérsias. Antes mesmo de sua abertura, em abril, o júri internacional do Leão de Ouro renunciou por unanimidade em protesto contra a inclusão da Rússia e de Israel. A organização da Bienal respondeu improvisando, de última hora, um prêmio de voto popular como substituto – típico gesto populista –, rebatizando-o de Leão do Visitante e adiando a cerimônia para 22 de novembro, dia de encerramento, numa tentativa de evitar mais controvérsias. As repercussões foram consideráveis: inúmeros artistas e pavilhões retiraram-se da competição. O Pussy Riot organizou protestos contra a presença da Rússia, os pavilhões da Estônia, Letônia e Lituânia realizaram uma marcha conjunta com faixas exigindo “Morte em Veneza, Rússia, vá para casa”, e, pela primeira vez em toda a sua história, a Bienal foi paralisada em 8 de maio por uma greve geral que fechou muitos de seus pavilhões.
À medida que a realidade do presente se impõe com força, o tom de introspecção parece, de certa forma, desmoronar. No fim das contas, esta Bienal funciona como uma esponja – absorvendo e refletindo, com precisão incomoda, a violência e o caos do nosso mundo atual.
Cristina Ricupero é curadora e crítica de arte independente. Foi curadora de exposições em diferentes partes do mundo e é conhecida por seu interesse especial em questões sociais e pela construção de uma narrativa por meio das exposições. Vive e trabalha em Paris, França.