Os impressionistas Édouard Manet e Berthe Morisot retrataram um parque público de maneiras distintas no século 19. Em Dia de Verão (c. 1879), a artista representa o Bosque de Bolonha, na Zona Oeste de Paris, por meio da cena de duas mulheres bem vestidas em um passeio de barco no lago. Uma observa atentamente os cisnes; a outra, com as mãos cruzadas e uma sombrinha no colo, encara o observador. O lazer da classe média em meio à natureza domesticada contrasta com O Almoço Sobre a Relva (1863), no qual Manet subverte a tradição do nu feminino ao colocá-la ao lado de dois homens vestidos, durante um piquenique ao ar livre – composição que se assemelha à perspectiva da prostituição naquele contexto.
O curta-metragem Nightmères (2025) também se ambienta no Bosque de Bolonha, símbolo máximo da prostituição na capital francesa, para abordar a migração de travestis brasileiras para a Europa durante a década de 1980, no contexto do trabalho sexual. Nele, a artista visual Níke Krepischi entrelaça temporalidades e vozes ao estabelecer paralelos entre as pinturas, documentos históricos, trechos de livros, texto autoficcional e uma entrevista com Camille Cabral, militante e médica dermatologista franco-brasileira, reconhecida como a primeira pessoa trans eleita a um cargo político da República Francesa.
Aos 80 anos, a ativista recebeu Níke em sua casa para um mergulho no acervo pessoal – fotografias, documentos, revistas e jornais –, que registra o surgimento da PASTT (Prévention Action Santé Travail pour les Transgenres), fundada por ela em 1991 e ativa até hoje. Do trabalho de campo às ações de assistencialismo às profissionais do sexo no Bosque de Bolonha – em sua maioria migrantes –, a associação e Camille, que permanece atuando nas atividades, promovem ações de cuidado e prevenção de ISTs, campanhas de vacinação, acesso ao sistema de saúde francês, distribuição de alimentos, apoio a mulheres trans em situação de encarceramento, além de oficinas de arte e aulas de francês, entre outras iniciativas.
Registrada em um trecho do curta-metragem e em uma versão estendida de 40 minutos, a entrevista tornou-se o mecanismo disparador para o desenvolvimento da pesquisa de conclusão do curso de arte visuais na ECA-USP, no contexto do intercâmbio da artista na École de Beaux-Arts de Bordeaux, na França. Guiada por um legado histórico coletivo, Níke parte do relato potente de Camille, que deixou a Barra de São Miguel, no Cariri paraibano, testemunhou a explosão da epidemia de Aids em Paris nos anos 1980 e se consolidou como referência internacional na luta pelos direitos de pessoas trans, para criar um universo singular que ficcionaliza esse território sem se afastar da realidade, em uma poesia sensível que flutua pelas imagens etéreas do lago e do Bosque.
A intersecção entre as linguagens ficcional e documental não esclarece plenamente quem narra essa história – se é a própria artista ou uma voz constituída por várias pessoas –, mas a ambiguidade se revela como uma particularidade interessante quando observada pela ótica das referências de Krepischi, que propõe uma relação dialética entre passado e presente. “Pensando nesses deslocamentos prévios das travestis brasileiras na Europa, queria entender as nuances da violência arquival e da memória como um lugar de disputa”, diz a artista à celeste.
Enquanto pessoas trans, trabalhadoras sexuais e migrantes, a alteridade ampliava ainda mais os deslocamentos geográficos, linguísticos ou corporais dentro da sociedade francesa, onde buscavam melhores condições de vida. No período em que brésilienne, ou brasileira, era um sinônimo de trabalhadora sexual, suas histórias impactaram profundamente seu corpo social no Brasil e o imaginário francês sobre as mulheres trans. “A mudança de sexo e a migração são as duas práticas de travessia que, ao colocarem em xeque a arquitetura política e legal do colonialismo patriarcal, da diferença sexual e do Estado-nação, situam um corpo humano vivo nos limites da cidadania e até do que entendemos por humanidade”, completa Níke em sua tese.

“As brasileiras revolucionaram o trabalho sexual com a exuberância”, diz Camille Cabral na entrevista. Em resposta à escassez de documentos que registram trajetórias de mulheres trans que atravessaram o Atlântico, Níke constrói, em Nightmères, uma síntese das lutas que a precederam. O filme opera como um gesto de mobilização afetiva da memória, evidenciando o pioneirismo de Cabral na transformação radical das práticas de travessia, resistência e luta para futuras gerações da comunidade LGBTQIAP+.
Voo da beleza
Artista plástica, dançarina e performer paulista, Níke Krepischi se debruça sobre estudos de gênero, arte e política, bem como as relações entre corpo e memória, explorando sobretudo experiências íntimas – como sua vivência enquanto mulher trans – na construção de espaços coletivos de debate.
Suas práticas escultóricas de metalurgia e cerâmica também se desdobram em camadas do projeto. Em um ponto decisivo entre dois atos do filme – de um passado fragmentado e do presente –, ossos de cerâmica esmaltada são espalhados pela terra do Bosque e emergem na tela de modo enigmático, enquanto a música Princesa (1996) cresce até dominar todo o ambiente. A composição do italiano Fabrizio De André narra o processo de transição de gênero de sua personagem, da discriminação à aceitação. Na escultura Tarântula (2025), as ossadas reaparecem em uma instalação que combina terra e aço soldado, evocando a representação visual da espinha dorsal da aranha, cujas garras são moldadas em aço.
O gesto simbólico de desenterrar objetos e histórias – assim como a centralidade do corpo nesses processos – atravessa o filme por meio de uma espécie de anamnese minuciosa dos vestígios encontrados no Bosque de Bolonha: lixo, fragmentos de plástico, roupas, camisinhas. Ao revisitar esses rastros, Níke não se dissocia das histórias que ali reverberam, apesar das diferenças sociais e geracionais que a separam dessas experiências, chegando até mesmo ao se colocar diante da câmera em uma cena de perseguição. “Para me compreender enquanto mulher trans, preciso olhar para as experiências do trabalho sexual, da repressão policial, da epidemia do HIV e as viagens transatlânticas ao Ocidente Europeu”, reitera. Nesse sentido, a artista performa no curta uma corporificação dos elementos que a afetam e compõem um legado histórico da comunidade LGBTQIAP+.