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Museu de Arte Contemporânea de Goiás ocupado pela Fargo 2025. Foto: Mayara Varalho
Postado em 29/04/2026 - 3:52
Ecossistema em expansão
8ª edição da Fargo fortalece circuito de arte goiano e consolida um deslocamento do eixo do mercado de arte nacional

O cerrado, um dos três biomas que constituem os estados do Centro-Oeste brasileiro, é o eixo conceitual da oitava edição da Feira de Arte Goiás – Fargo. Se as árvores do cerrado são exemplos notáveis de adaptação e resistência, desenvolvendo características físicas únicas para sobreviver a um ambiente hostil marcado por incêndios periódicos, solos ácidos e pobres em nutrientes e secas prolongadas, a feira de arte fundada pela empresária Wanessa Cruz em 2017 é também um território de resistência, transformação e reinvenção. Em sua oitava edição, a Fargo situa a capital goiana como destino estratégico das artes visuais no Brasil.

Nas próximas semanas, de 13 a 17 de maio, cerca de 50 galerias, coletivos e espaços independentes de todo país agitam o circuito da região, tendo dobrado de tamanho em relação ao ano anterior. Esse crescimento relevante traduz o surgimento de novas galerias com sede na cidade, como por exemplo a Cerrado Galeria, instalada em uma casa modernista na Rua 84 em 2023, mas especialmente a ideia de que o sistema local segue majoritariamente sustentado pela cena pulsante de coletivos de artistas e ateliês criativos. 

Em entrevista à celeste durante a última SP-Arte, a diretora Wanessa Cruz situa a importância de ter criado na feira uma plataforma para esses grupos. “São profissionais das artes que se sustentam em um ecossistema próprio, não são representados por grandes galerias e talvez nem queiram ser. Eles não operam no mesmo formato das organizações de São Paulo porque isso não é um perfil de Goiás”, completa. Somente 14 desses espaços são de outros estados, como Distrito Federal e São Paulo, e todos, obrigatoriamente, precisam apresentar pelo menos um artista do Centro-Oeste em seu estande. Entre os ateliês criativos goianos estão: Renka, Müquifü Cultural, Ateliê Vila Boa, Ateliê Justura, entre outros. 

“A Fargo não é uma pequena SP-Arte ou ArtRio. Eu me inspiro nesses formatos de sucesso, claro. Sempre acompanhei a trajetória dessas mulheres poderosas e aprendi muito com elas, mas o trabalho é dentro da nossa realidade”, aponta, referindo-se à Fernanda Feitosa da SP-Arte, Brenda Valansi, ex-diretora da ArtRio e a atual diretora Maria Luz Bridger.

São Paulo estará presente com nomes de peso do mercado, como as galerias Marília Razuk, Luciana Brito, Luciana Caravello e Sardenberg. De Brasília, integram a feira a Galeria Oto Reifschneider e a recém-chegada na cidade Victoria Art Gallery, dedicada à arte uruguaia. 

Fargo 2025. Foto: Marcelo Medeiros

TÁ NA MODA

Para Divino Sobral, crítico de arte, pesquisador e diretor artístico da Cerrado Galeria: “Tá na moda compreender essa força econômica que existe no Centro-Oeste a partir do agro”. E de fato, se a ideia de centro nasce de um eixo determinante de poder político, econômico, jurídico e comercial – o que aqui se traduz no agronegócio, responsável por cerca de 25% a 29,4% do PIB nacional e principal motor econômico do país – , à medida que essas infraestruturas se fortalecem, o centro se expande e criam-se novas geografias. 

Nesse contexto, o acúmulo de capital na região cria as condições para a formação de um novo mercado consumidor de arte, como aponta Sobral. Wanessa Cruz complementa: o crescimento recente do mercado está diretamente ligado à segunda e terceira gerações do agronegócio, que passam a investir em bens culturais.

No entanto, Divino afirma que para além de um mercado produzindo ativamente, é preciso que existam instituições funcionando bem, abertas ao público, com programações regulares e de qualidade, com um trabalho educacional efetivo. Uma vez que “a própria fragilidade estrutural do sistema cultural brasileiro pode a qualquer momento ruir”.

Embora ganhe força na contemporaneidade, essa ebulição cultural e potência criativa que vemos pulsar no coração do Brasil não são de agora. “Em Goiânia, Brasília e no Mato Grosso sempre existiram artistas trabalhando e produzindo um pensamento ao mesmo tempo sincronizado com as questões da arte brasileira, mas pensando também nas questões locais. Não como regionalismo, mas como campo de atrito, tensão e também uma tentativa de conciliação com essas forças da cultura contemporânea e do sistema capitalista, que levam as linguagens e as poéticas a um lugar de globalização”, completa Sobral.

Vista da Cerrado Galeria, em Goiânia. Foto: cortesia da galeria

POTÊNCIA CRIATIVA

Entre os pontapés estratégicos, a Cerrado Galeria – braço da Almeida & Dale no centro-oeste – marca um ponto de inflexão ao se instalar em Goiânia, com um projeto comprometido com o fomento e articulação da produção artística local no circuito. A parceria dos galeristas Lúcio Albuquerque, Antônio Almeida e Carlos Dale – reaqueceu um mercado de valoração local amortecido, mas que foi consideravelmente ampliado em 2024 com a abertura de um espaço em Brasília. 

Nesta Fargo, a Cerrado apresentará um diálogo entre dois jovens artistas do elenco da galeria, Abraão Veloso e Rebeca Miguel. Ambos de Minas Gerais, eles vivem e trabalham em Goiânia como colaboradores do Sertão Negro. Rebeca articula pintura, desenho e performance para investigar o tempo a partir de uma perspectiva afrodiaspórica e Abraão se interessa por composições de tapeçaria e bordado na representação de cenas cotidianas e homens negros. Recentemente, Rebeca Miguel participou de O Sertão é Nosso Centro, no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia, uma exposição que evidenciou Goiás no mapa da arte contemporânea brasileira e esteve em cartaz até fevereiro, com curadoria de Dalton Paula.

Uma leitura que se faz lenta, 2025, de Rebeca Miguel. Foto: cortesia Cerrado Galeria

Fargo e Arte.PE, no Recife, são, para o colecionador brasiliense Fernando Bueno, as duas feiras mais importantes do circuito nacional. Apoiar o mercado de arte do Centro-Oeste é um dos pilares da construção de sua extensa coleção, que está em processo de catalogação de mais de 30 anos de pesquisa da cena artística local. Para Bueno, esses dois eventos são plataformas privilegiadas de pesquisa e descobertas, especialmente de artistas em início de carreira – como por exemplo os alunos da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás –, além de funcionarem como espaços de circulação, visita a ateliês e articulação entre colecionadores. 

Coleção de Fernando Bueno

VEM AÍ

Os holofotes sobre a região permanecem com a recém-anunciada retomada da Bienal de Goiás, uma iniciativa compartilhada entre Sesc e o governo estadual. O estado chegou a sediar, em 1970, a Bienal Nacional de Artes de Goiás, mas, marcada por formato e periodicidade irregulares, a mostra foi descontinuada após quatro edições. Prevista para 2027, a nova bienal está sendo concebida do zero, sem vínculo com a experiência anterior.

Essas iniciativas atuam como mecanismos de reposicionamento institucional da cidade, atraindo atenção internacional e consolidando a percepção de um eixo que deixa de orbitar em torno de um único grande centro mercadológico e passa a operar como um ecossistema independente e em expansão. 

8ª Feira de Arte Goiás – Fargo 2026
13 a 17 de maio
Museu de Arte Contemporânea, no Centro Cultural Oscar Niemeyer
Goiânia

Nagô X, 2024, de Abraão Veloso. Foto: cortesia Cerrado Galeria