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Isaac Julien, Emaranhados / Entanglements (Lina Bo Bardi - A Marvellous Entanglement), 2019 © Isaac Julien Cortesia do artista, Nara Roesler e Victoria Miro, Londres
Postado em 04/04/2025 - 9:36
Emaranhado do tempo
Em cinco exposições no novo prédio, Masp revive a história da instituição a partir do próprio acervo

Isaac Julien: Lina Bo Bardi — Um Maravilhoso Emaranhado ocupa o segundo andar do edifício Pietro Maria Bardi, novo prédio do Masp na Avenida Paulista. Esse pode até parecer o primeiro “ensaio” da história que se estende por 78 anos de instituição e 14 andares do anexo, mas, na verdade, a videoinstalação do artista britânico sobre o legado da arquiteta ítalo-brasileira consegue unir os cinco tempos no desfecho. (As cinco mostras da estreia da sede ampliada do museu são chamadas de “ensaios”.)

O imponente trabalho de Julien é apresentado fora da sala de vídeo – espaço discreto tradicionalmente dedicado às obras audiovisuais no 2º subsolo do antigo edifício. Mas a escolha da exibição no Pietro não poderia ter sido mais acertada. Matheus de Andrade, assistente curatorial do Masp, reflete sobre como a inauguração do novo prédio ampliou não apenas os espaços expositivos, mas também possibilitou novas disposições de expografia para o audiovisual.

Isaac Julien reconstrói por toda a extensão da sala as nove projeções simultâneas da instalação, exibida pela primeira vez em 2019 na galeria Victoria Miro, em Londres. Algumas telas são posicionadas nos próprios cavaletes de vidro – emblemáticas estruturas de concreto e vidro assinadas pela arquiteta que se espalham pela exposição permanente do acervo no Lina (novo nome do edifício principal). O filme mescla imagens de arquivo e registros arquitetônicos às belíssimas performances de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres em uma narrativa não linear. “Trabalhar com a Fernanda Montenegro foi como um sonho realizado […] De alguma forma, elas poderiam ser as sósias de Lina Bo Bardi em diferentes momentos de sua vida. E assim podemos brincar com o tempo de uma forma não convencional”, diz Julien em entrevista à celeste.

Isaac Julien, Emaranhados / Entanglements (Lina Bo Bardi - A Marvellous Entanglement), 2019 © Isaac Julien Cortesia do artista, Nara Roesler e Victoria Miro, Londres

“Mas o tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim”. O manifesto de Bo Bardi guiou o olhar do inglês sobre seus passos pelas cidades de São Paulo e Salvador. Julien conta como se encantou pelo aspecto utilitário de seus projetos – especialmente, o uso dos espaços públicos na reflexão sobre cidadania e urbanismo – desde sua primeira vez no Sesc Pompeia, em 2012, quando inaugurou a mostra Geopoéticas.

O elemento que se desdobra na obra de Julien há mais de 25 anos é a forma particular da participação coletiva do público em suas exposições. Suas projeções simultâneas exigem uma participação ativa na busca constante pelas imagens e sons. As cenas filmadas em diferentes ângulos produzem múltiplas percepções que não permitem uma reação estática do espectador. “Vejo como uma espécie de linguagem que está conectada, claro, ao cinema e à videoarte, mas que também possui uma dimensão escultórica e cenográfica, além de uma estrutura arquitetônica […] Não quero que seja apenas imersivo como uma forma de puro entretenimento, mas sim um ambiente que possa ser intrigante, proporcionando assim uma espécie de resposta poética do público”, afirma.

Isaac Julien, Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement [Um Maravilhoso Emaranhado], 2019. Vista da exposição, Tate Britain, Londres, Reino Unido, 2023 © Isaac Julien Cortesia do artista e Victoria Miro, Londres [Foto: Henrik Kam]
Filmado em 2018 por caminhos que cruzam o Masp, o Sesc Pompeia e o Teatro Oficina, em São Paulo, e o Museu de Arte Moderna, o Restaurante Coaty e o Teatro Gregório de Mattos, em Salvador, o trabalho se estrutura na ideia do que o artista chama de “espectador móvel”, que desaprende os hábitos que adquiriu para assistir, digamos, ao cinema ou à televisão, abandonando essas formas de olhar para se envolver de uma nova maneira com a imagem em movimento. A revolução do olhar se amplia com as participações do Balé Folclórico da Bahia e do coletivo ÀRÀKÁ, além de um grande parceiro de Lina, o dramaturgo Zé Celso.

Simultaneamente, o artista também inaugura na galeria Nara Roesler, em São Paulo, uma exposição de fotografias e colagens derivadas do filme Um Maravilhoso Emaranhado (2019). A mostra traz 20 obras, sendo 16 delas totalmente inéditas. Segundo Julien, as imagens funcionam como cenas complementares à obra, apresentadas em diferentes escalas e marcadas por recortes e sobreposições visuais.

Isaac Julien, Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement [Um Maravilhoso Emaranhado], 2019. Vista da exposição, Tate Britain, Londres, Reino Unido, 2023 © Isaac Julien Cortesia do artista e Victoria Miro, Londres [Foto: Henrik Kam]

DE ESCADA É MELHOR

Subindo quatro andares do anexo, chegamos ao início da linha cronológica. As paredes, pintadas com o batizado Vermelho Masp, recebem um panorama histórico da construção do importante acervo do Hemisfério Sul, e conciliam grandes joias – da antiguidade ao contemporâneo – com o vasto conjunto de fotografias e documentos históricos das aquisições de Pietro Maria Bardi. Descendo dois lances, encontramos as 12 pinturas e a escultura de Renoir, algumas exibidas ao público pela última vez em 2002. O mais intrigante não são as obras escondidas por 23 anos na reserva técnica, mas sim a releitura contemporânea dos cavaletes de cristal, agora feitos em chapas metálicas, com um dos pés de apoio calcado em espuma – chocante, sim. 

As artes de 17 culturas da África Ocidental foram organizadas no terceiro piso. A curadoria de Amanda Carneiro e Leandro Muniz reuniu estatuetas e máscaras de madeira que, predominantemente, se voltam para representações do corpo. O destaque fica para os artistas brasileiros convidados a dialogar com as peças históricas. biarritzzz expõe três vídeos, com colagens digitais de fragmentos das máscaras presentes na mostra, acompanhadas de frases críticas e bem-humoradas que questionam sua presença em acervos de museus; Cipriano exibe duas pinturas abstratas que sobrepõem cantos de religiões afro-brasileiras ligadas às tradições banto, tronco linguístico da África Central.

Por fim, mas não necessariamente o último manifesto sobre o tempo, Geometrias, no 4º andar, apresenta 50 trabalhos, incluindo cerca de 20 doações recentes, e propõe um olhar tanto para as correntes pictóricas da arte geométrica moderna quanto para abordagens mais experimentais. A mostra reúne grandes nomes do cenário nacional e internacional, como Lygia Clark, Amilcar de Castro, Alfredo Volpi e Rubem Valentim, em diálogo com os contemporâneos Sarah Morris, Kiluanji Kia Henda, Daiara Tukano, Lydia Okumura, entre outros.

 

SERVIÇO

Cinco Ensaios sobre o MASP
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Edifício Pietro Maria Bardi
Av. Paulista, 1.510 – Bela Vista

Isaac Julien – Lina Bo Bardi – A Marvellous Entanglement – Photographs & Collages
Até 24 de maio de 2025
Entrada gratuita
Nara Roesler, São Paulo
Avenida Europa, 655