
Durante a ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983), a matemática foi considerada tão subversiva quanto as ciências humanas. O governo temia que o conceito matemático de interseção levasse a uma perigosa união da sociedade e a uma conspiração antiditadura. A consequência imediata desse delírio paranoico e repressor foi a proibição do ensino da teoria dos conjuntos nas escolas.
Na edição #45 da seLecT, em que estudamos os vínculos, laços e interseções entre as identidades latino-americanas, recorremos então como imagem de capa a uma obra da artista argentina Amalia Pica, que interpreta os Diagramas de Venn – método de simbolização gráfica da teoria dos conjuntos. Ao construir uma edição sobre o que nos aproxima, não negamos o que nos diferencia, mas o que nos afasta enquanto humanidade: o racismo, a misoginia, a transfobia, os processos excludentes.
Assim como as teorias pós-feministas invalidaram o feminismo no singular – estabelecido em bases cis-brancas-europeias –, nos propusemos aqui a pensar as Américas Latinas no plural. E que venham escritas em português, em espanhol ou no idioma do povo Kuna: Abya Yala (Terra Madura, Terra em Florescimento ou América).
Como coloca o artista Fernando Lindote, na seção Fogo Cruzado, optar por apenas uma das etnias que se cruzam em nossas existências latinas seria prematuro e superficial. Afinal, sabemos que a homogeneidade da América Latina é uma invenção do Ocidente, como coloca Cristiana Tejo ao apresentar sua pesquisa sobre pedagogias radicais de artistas mulheres latino-americanas. Portanto, expandido o entendimento do que Abya Yala significa, a América Latina passaria a incluir também os Estados Unidos, país onde anglo-americanos e latino-americanos convivem e criam fricções nos debates em torno de raça e cultura, como coloca Rodrigo Moura no texto El Museo Goes Latinx.
A seLecT #45 é uma construção coletiva, coeditada pela crítica e curadora chileno-brasileira Daniela Labra. No contexto desta edição, encontramos forte reverberação dos nossos trabalhos no termo latinx. Apropriamos o termo certos de que seus significados se expandem para além do contexto em que foi criado, para se referir a um território em que a pluralidade não exclui as singularidades.
Paula Alzugaray, diretora de redação

Ao ser convidada para esta coeditoria, sugeri tratar de temáticas relativas à produção artística e cultural da região latino-americana, por ser um tema que ainda carece explorar, conhecer e refletir criticamente, sobretudo no Brasil, onde a noção de pertencimento identitário não é a de latino-americanidade. Por sua vez, tratar da produção cultural do bloco implicaria forçosamente olhar processos históricos que conformam o Novo Mundo – essa invenção colonial que enriqueceu reinos e Estados europeus, cujo projeto civilizador criou anomalias sociais ainda em metamorfose.
Esta edição assume o Brasil como parte do bloco latino-americano, em um levantamento crítico de arte contemporânea de países da região. Foram investigados artistas, movimentos culturais, teóricos, ativistas, iniciativas independentes, de pesquisa, e outros, que refletem aspectos históricos, humanos, estéticos, políticos e culturais plurais, conectados por uma matriz colonial semelhante. No sistema da arte internacional, o rótulo genérico de Arte Latino-Americana é usado para representar uma produção de arte como se esta fosse homogênea, e nesse sentido apontamos para a impossibilidade e a impertinência de tal definição.
Uma vasta conjuntura indefine o significado de identidade Latina ou Latinx, e as práticas artísticas e as reflexões históricas aqui presentes oferecem suporte sensível para processos prementes de desconstrução crítica das narrativas de dominação.
Coincidentemente, nos meses de elaboração da seLecT #45, eventos de convulsão social explodiram após décadas no Chile e na Bolívia, acompanhando reviravoltas de poder e representatividade em curso já há algum tempo no Brasil e, em especial, na Venezuela. Ao encerrar esta edição, a Colômbia dava sinais de caos social em novembro de 2019.
Daniela Labra, editora convidada