Durante o primeiro semestre de 2025, fui artista participante do Clínica Geral, realizado pelo Ateliê 397. Integrei a turma virtual, organizada em encontros semanais, mediada pela Érica Burini e pelo Kauê Garcia, com mais dezessete outros artistas.
O Clínica Geral é um programa de acompanhamento voltado a artistas, curadores e pesquisadores interessados em desenvolver e discutir coletivamente suas práticas em arte contemporânea. Estruturado em módulos semestrais, o curso adota um formato flexível, inspirado em princípios de cuidado, escuta, diagnóstico e orientação, permitindo a continuidade dos encontros de forma prolongada.
A proposta busca criar um espaço de troca horizontal, no qual diferentes experiências e percursos possam dialogar, fortalecendo processos criativos em andamento. O acompanhamento se dá por meio de debates, leituras críticas e exercícios práticos, estimulando a articulação entre pensamento e produção.
Ao longo daqueles meses, em encontros semanais, conversamos muito sobre arte, sobre ser artista atualmente, sobre processos criativos, da reflexão à materialização de um trabalho de arte. Nesse sentido, o Clínica Geral acaba se tornando um espaço de formação expandida, no qual as pesquisas individuais se complementavam pela interação com o coletivo e através da mediação crítica de seus interlocutores.
Érica Burini (1994, São Manuel – SP) é curadora, historiadora da arte e pesquisadora. Formada em Artes Visuais e mestre em História da Arte pela Unicamp. Trabalha com curadoria desde 2019 organizando exposições, mediando conversas, realizando falas e editando publicações. Colaborou com o Instituto Marco do Valle (2019-2022). Realizou a Bolsa de Formação em Pesquisa no IAC (2024). Em 2025, de março a maio, participou de um Intercâmbio de Residência Curatorial promovido pela YBYTU no Brasil e SAHA, Istambul, Turquia. Desde 2021, participa do grupo de curadoria e gestão do Ateliê397, espaço independente de arte contemporânea e faz mediação nos grupos de acompanhamento para artistas, o Clínica Geral.
Kauê Garcia (1984, Campinas – SP), vive e trabalha em São Paulo. Graduado em Artes Visuais pela Puc e Mestre em Poéticas Visuais e Processos de Criação pela Unicamp. Participou de exposicões como Estamos Aqui (Sesc Pinheiros, SP, 2022), Hábito_habitante (EAV Parque Lage, RJ, 2021), e Verbo (Galeria Vermelho, SP, 2018). Foi premiado em 2012 no 14o SAMAP (PB) e em 2020 pelo Respirarte (Funarte, SP). Ministrou cursos no Sesc CPF, Edifício Oswald de Andrade e Ateliê Casa Campinas. Dedica-se também a projetos sonoros e de música, explorando do punk ao improviso.

Noah Mancini: Como você entrou na Clínica Geral?
Érica Burini: Eu comecei a trabalhar com o Ateliê 397 em meados de 2022, no final da pandemia, quando a Thais Rivitti me convidou para fazer parte da curadoria de uma exposição grande e coletiva que chamava Dizer Não. A partir desse trabalho, fui convidada para fazer a mediação de um dos grupos de acompanhamento e, desde então, fiz dupla com várias outras pessoas, entre artistas, curadores, como Luciara Ribeiro, Tiago Gualberto, Paola Ribeiro, dois artistas e uma curadora. E agora também com o Kauê Garcia. Então, o começo do trabalho com o Clínica Geral faz parte dessa comunidade que o Ateliê 397 desenha em volta de si, de colaboração, de trabalho conjunto, de confiança. Quando entendemos que havia afinidades, um entendimento comum do que é arte contemporânea, em relação à experimentação, uma certa recusa ao mercado de arte… fui convidada para colaborar. Tanto no Clínica Geral quanto na gestão do Ateliê 397.
Kauê Garcia: Eu acompanhei o nascimento do Clínica, só que não como idealizador, nem como orientador, nem como aluno. Eu divido o ateliê com o Raphael Escobar, que é um dos idealizadores do grupo de acompanhamento do Ateliê397. Na época, o negócio começou e ele me contava. Eu morava em Campinas nessa época, e também dava umas orientações lá, a gente trocava muita ideia sobre orientação. Determinado momento estava em Campinas numa fase mais ilhado na cidade, precisando retornar para uma discussão do campo da arte. Conversando com o Escobar, na época ele me convidou para ser bolsista do Clínica como aluno. Então eu fiz dois anos como aluno antes de virar orientador. Com isso, acabei ficando ali, participava muito das discussões, fui me tornando um terceiro orientador, além de ser também aluno. Comentava quase todos os trabalhos e, se não me engano, eles pediram isso para mim também. Vi o nascer no grupo, nas conversas com os meus amigos… aí depois fui ser aluno e, por ter uma participação muito ativa, me convidaram para ser orientador de uma turma. Agora acho que faz três anos que estou no Clínica.
Noah Mancini: Enquanto arte-educador, quais mecanismos pedagógicos considera primordiais para o diálogo em artes?
Kauê Garcia: Em todas as funções que proponho – porque artista é a minha profissão, a minha atuação, o meu pensamento – sempre tem o mesmo modo de pensar que é o artista, sabe? É um modo de pensar artisticamente todas as esferas da vida. Então nunca me encarei como um professor, mas sim como um artista que está ali discutindo trabalhos, muito interessado em conhecer novas pesquisas, trocar a partir dos meus referenciais, construir esse diálogo com as pessoas. Conhecer novos olhares para o mundo e com isso poder, de alguma forma, exercer um pensamento crítico sobre esse trabalho. E junto chegarmos em lugares legais a partir de pontos de vistas diferentes.
O que mais me interessa como educação é a ideia não dogmática de passar algo, de mostrar uma verdade – mas sim que, numa conversa ética, horizontal, a gente consiga colocar uma autonomia crítica. Quando a gente chega nessa ideia, o que mais interessa é que cada um, a partir dos seus pontos de vista, das suas ideologias, tenha sua visão crítica sobre as questões ali colocadas. Isso é essencial. O pensamento que a gente fica quebrando a cabeça é para tentar enxergar todas as camadas ali embutidas, tentar entender criticamente o que cada gesto em um trabalho de arte significa e como isso te coloca também em um lugar de responsabilidade. Porque, quando você tem uma visão crítica sobre as coisas do mundo, você também vê essa responsabilidade da mensagem e do jeito que toca as pessoas. Essa forma que você define também se coloca no mundo e não está sozinha.
Ela vai ao mundo para gerar significados, gerar potências, discursos e, com isso, te coloca numa conversa com outros pares, com outras pessoas. Quando você está dentro desse pensamento crítico, você pensa no porquê de fazer cada coisa, qual é esse gesto. Quando penso nessa responsabilidade que tenho em ser arte educador, de estar orientando pessoas, é pensar que essas pessoas estejam atentas sobre a sua função nesse sistema de arte, pensando qual é a sua proposição de vida, a sua ideologia, a sua ética. Não acho que ninguém tenha um trabalho somente bom ou somente ruim. São pesquisas, são fontes de vida que as pessoas estão conhecendo e discutindo, ao mesmo tempo que estão sendo criadas. Enquanto método, ver os trabalhos que estão em processo de gestação. E sempre tenho muito cuidado em não interferir nesse processo – mas sim abrir caminhos, apresentar possibilidades para que essas pessoas construam a partir da própria caminhada.
Érica Burini: Dentro do Clínica Geral eu entendo que a gente opera um tipo de formação que vem se expandindo cada vez mais e que ocupa um espaço entre instituições. O grupo de acompanhamento muitas vezes está lidando com artistas que não tiveram uma formação específica de graduação em artes visuais, mas trazem outras vivências. Então, o principal mecanismo pedagógico é a escuta. É ouvir quais são os repertórios que formam esses artistas e como somar repertórios dentro de um grupo, como fazer essa mediação de vários mundos diversos e fazer com que esses mundos se somem na construção de uma ideia de que a arte contemporânea não se restringe a um ambiente acadêmico e, ao mesmo tempo, lida com uma forma de referência dentro desse meio. É uma forma de operar a disciplina da história da arte, porque ela vai propor uma maneira não hegemônica, não hierárquica, não cronológica de lidar com os trabalhos de arte como eternos contemporâneos. Lembrando o texto do Roland Barthes que a Lisete Lagnado cita na curadoria da exposição dela, Como Viver Junto, em certo momento ele vai falar que os contemporâneos são aqueles que pensam igual, que pensam junto e não só os que habitam o planeta ao mesmo tempo. E a forma como a referência artística opera dentro do campo do acompanhamento artístico diz respeito a isso: de repente colocar junto um artista muito jovem com um artista consagrado, com um artista histórico, atravessando barreiras geográficas e operando uma construção contínua e conjunta de repertório e de referência. Nessa área da escuta também acho importante pensar fora dos repertórios artísticos estritamente. Que outros tipos de repertórios culturais compõem um trabalho? Entendendo que o conhecimento da arte contemporânea se torna cada vez mais inespecífico, não só diz respeito à própria arte, mas diz respeito a qualquer elemento da vida.
Por isso, nessa situação do acompanhamento é muito importante aprender junto, entender de onde vem cada anseio dos trabalhos. Esse ambiente da mediação não tem a hierarquia que é vista nas escolas mais formais, em que o professor sabe tudo e o aluno não sabe nada. A gente busca compartilhar, por isso se abre um espaço para que os outros artistas falem. A gente se enxerga mais como alguém que organiza a experiência do que alguém que detém todo tipo de conhecimento.
Noah Mancini: A mediação, em uma visão mais geral, é de vocês com os participantes. Mas como é a troca entre os dois, uma vez que dividem a sala de encontro?
Érica Burini: Eu e o Kauê temos conhecimentos muito complementares de alguma forma. Ele sendo artista e eu curadora, ele tem uma experiência na formalização dos trabalhos de arte que eu tenho menos. Do ponto de vista de curadora participo de muita montagem e penso na ocupação do espaço, mas acredito que ele tem uma visão interna da criação do trabalho. Muitas vezes a fala do Kauê vai mais nesse sentido, enquanto eu busco pensar aquilo que o artista apresenta mais como um produto final. A gente discute muito sobre isso, sobre como o grupo de acompanhamento envolve duas esferas: tanto olhar o que o artista fez e imaginar o que ele poderia fazer. Pensar junto o que o trabalho poderia ser com recursos infinitos… a gente está sempre conciliando essas duas visões, enxergar o que está ali e o que não está. E a partir disso, quais são as vontades dessa pessoa em relação ao trabalho, onde ela gostaria de levá-lo. Mas acredito que dividimos de uma maneira muito dinâmica o espaço dentro da sala do encontro, ocupando cada hora um lugar e nem sempre concordando com as opiniões sobre o trabalho. Tentamos oferecer uma visão ampla e que não necessite de uma escolha, que também coloque o artista em certa posição de autonomia a partir dessas duas visões. Acredito que o grupo de acompanhamento tem esse aspecto de orientação, mas a decisão final tem que ser do artista, de se posicionar a partir dessas outras visões, entender onde quer se colocar.
Kauê Garcia: A minha troca com a Érica parte de um ponto interessante: nós temos princípios estéticos e éticos muito alinhados. Isso dá uma tranquilidade dentro de uma orientação em parceria. Claro que a gente tem opiniões diversas e isso é a riqueza do grupo. Muitas vezes apresentamos duas visões para os artistas que mostram o trabalho. São pessoas qualificadas que dedicam sua vida a pensar arte e estão ali com opiniões diversas. Porque são pensamentos de pessoas que têm referências diferentes, que têm trajetórias diferentes. A Érica, curadora, vai da arte para a história da arte. Eu, artista total, artista 100%, pensando tudo arte.
E vamos colocando esse pensamento da prática, da teoria. De certa forma, temos um lance complementar. Acho que o formato entre um curador e um artista funciona muito bem por isso. Um olhar mais teórico, outro olhar mais prático. Mas a nossa relação é muito tranquila para dar aula. A gente tem muito interesse em pensar no trabalho de arte. Discutimos arte invariavelmente o tempo todo, então já partimos disso. Daí o Clínica é um negócio mais profundo, não uma conversa do dia a dia. Olhamos um portfólio, um projeto, e nos jogamos numa análise crítica de 20, 30 minutos, feita em tempo real. Isso fica latente quando você vê o que você aprende em toda conversa. Eu aprendo com os alunos, aprendo ouvindo a Érica. Isso cria um ambiente de discussão que olha para as minúcias do trabalho, que investiga a poética de cada artista. Vou identificando nisso o ponto ideológico de cada pessoa, como isso aparece no trabalho. Também vejo na fala da Érica a construção do pensamento dela. Essa troca funciona muito bem.
Noah Mancini: Ao longo desses anos, quais foram os maiores obstáculos encontrados?
Kauê Garcia: Quanto à aula, é muito tranquilo. Essa é uma preocupação que tenho com a Érica, de criar um espaço que seja tranquilo, agradável, seguro, que seja um lugar de pensamento político embutido na construção da aula. A gente pensa no jeito das pessoas falarem, em formas de tornar um lugar que seja bacana, uma experiência bacana para todo mundo, inclusive para nós. Então ali não tem muito obstáculo. A dificuldade é a questão de fazer campanha, procurar alunos, angariar alunos. A gente vive disso, e precisamos de seis em seis meses reformular todas essas turmas e pensar em atividades. Isso é um ponto.
Outras dificuldades são questões que complexificam nossa atuação, além de orientar os alunos. Por exemplo: fazer uma exposição. Eu acho super trabalhoso. Pode não parecer quando a exposição está montada, mas tudo isso gera um trabalho de um mês ou mais. Porque tudo que acontece no nosso grupo fomos nós que criamos. Quando tem uma exposição, a identidade visual é nossa. A montagem, a desmontagem, embalar, enviar trabalho no correio. Houve um semestre que fizemos um trabalho de arte sonora com os alunos e pensamos em um disco para fazer a exposição. Um disco de vinil: a gente fez a capa, mandamos prensar o disco, buscamos o disco. O Clínica é trabalhoso. E tem coisas que não aparecem, que ficam no campo invisível do trabalho. Mas esse bate-papo é um negócio que funciona. Dentro das quatro linhas, para utilizar uma metáfora do futebol: as coisas rolam super bem, os debates que rolam, as referências infinitas, os vídeos que passamos. Os obstáculos são mais pelo lado estrutural da coisa.
Érica Burini: Acredito que dentro do grupo de acompanhamento do Clínica Geral nos colocamos de uma forma muito específica. É um grupo que não promete sucesso comercial, abrir as portas do mercado. Muitas vezes os artistas têm esse anseio de participar incisivamente no mercado. E o nosso viés é mais sobre a experimentação da linguagem. É preciso que a pessoa entre no grupo com uma certa abertura, de ver o seu trabalho experimentando outros territórios e não só se manter na sua mesmice, dentro da sua zona de conforto, e esperar que a partir disso automaticamente venha uma legitimação. Essa não é a nossa área, então esse é um obstáculo para lidar com a discussão teórica e prática sobre o trabalho de arte em relação ao meio, ao circuito, ao mercado que não é o nosso foco.
O grupo é organizado em duas etapas: a primeira onde a gente conhece mais profundamente o trabalho dos artistas, e depois uma proposta. Buscamos sempre fazer com que essa proposta seja algo realmente experimental, que tire cada artista do seu lugar comum, do seu lugar automático de pesquisa – que é o lugar onde todos vão quando estão sozinhos, esse lugar recorrente. Então uma das dificuldades também é sempre encontrar esse inesperado, essa proposta que vai tirar o chão, que vai movimentar as pessoas. Engajar os artistas para que eles entrem nessa viagem e de fato aceitem esse deslocamento – e entendam que no final isso pode ser um caminho a ser levado adiante ou não. Mas que essa viagem, essa caminhada, essa trajetória de desvio, ela importa. Porque é aí onde acontece esse esforço de pensar a solução.

Noah Mancini: Quais os maiores tensionamentos entre o circuito de arte e a produção artística brasileira contemporânea?
Érica Burini: Dentro do Ateliê 397 a gente vive em tensão com o mercado principalmente como um espaço que propõe experimentação, propõe tudo o que é incomum, o que desloca, o que busca fugir do lugar comum da arte. Vivemos também a tensão um pouco da sobrevivência: um espaço que não se propõe vender obra, como sobrevive nesse circuito? Por isso buscamos nos colocar mais como espaço de formação, de pesquisa, de debate, do que um espaço de venda. Na minha perspectiva, me parece um espaço que vai ficando cada vez mais sem pares, conforme a situação política vai mudando. Nos últimos anos as artes sofreram muitos cortes de recursos públicos, então é uma tensão da sobrevivência, de se manter um ambiente artístico que vai se tornando cada vez mais mercantilizado em todas as suas instâncias.
Kauê Garcia: Ah, tem várias questões. Tem a ideia do mercado de arte brasileiro, tem as instituições brasileiras… e o circuito independente, circuito alternativo, autônomo, o nome que preferirem. Esse último possibilita uma circulação de trabalhos experimentais, processuais, que não rola nesse circuito mais oficial. Eles atuam num lugar em que as galerias, as instituições não atuam. Só que a grande treta desses espaços é como se manter. Claro que são iniciativas coletivas, às vezes individuais, que precisam manter o negócio, fazer girar dinheiro.
Tem essa grande tensão: como esses espaços conseguem sobreviver trabalhando de forma mais experimental? É um grande dilema da coisa. Como tornar rentável uma atividade artística que esteja fora do grande mercado da arte? Porque o mercado da arte funciona: tem feiras, grandes galerias. De certa forma, a gente vê que o problema, no final, sempre é reduzido a ideia de dinheiro. De como se manter, como ficar. Mas acredito que existem essas formas. O Ateliê 397 mesmo é esse espaço, com mais de 20 anos de atuação independente. Que fica reinventando, buscando novas saídas para a sobrevivência. E até agora está rolando, né? Isso proporciona que girem centenas de artistas que passaram por lá, que são pessoas que não estavam tão inseridas. É interessante pensar nesses lugares que têm essa circulação não tão hypada, e que podem nascer potências nesses lugares. É um circuito de arte muitas vezes precarizado. Pouco dinheiro, pouca estrutura para trabalhar, mas com muita potência artística, potência poética, estética.
E as coisas vão também criando suas possibilidades. O circuito artístico não acontece só nos lugares de exposição. Pode acontecer num bar que junta uma galera, essa vivência que extrapola também o campo da produção. Isso faz parte do circuito artístico, são todas as formas de troca de vida que rolam além dos trabalhos. Esses espaços independentes funcionam muito numa forma de rede. Primeiro porque eu vim do punk e isso é o básico dentro da cultura punk. As pessoas trocam, organizam show um do outro, lançam disco um do outro. Então existe uma ideia de cooperação. Essas articulações também tornam o negócio instigante.
Noah Mancini: Um arte-educador (elabore brevemente).
Kauê Garcia: Para mim, é esse lugar de propor trocas, estimular uma autonomia criativa e também não passar nenhuma ideia já feita. Não me interessa trabalhar com fórmulas. Me interessa pensar como estimular pensamentos críticos, que as pessoas duvidem das coisas, se sintam provocadas pelas coisas para entendê-las, para entender as camadas que aquilo se insere, para que, com isso, a gente troque, que aprendamos através desse trabalho. O aprendizado é o tempo todo. Sempre gostei muito de conversar com as pessoas. Acho que foi o método que mais aprendi coisas na vida, foi ouvindo os outros: numa conversa, a gente também aprende que tem hora que a gente fala e hora que a gente escuta. Isso é uma das grandes lições da vida e faz parte do método que atuo como arte educador. Tem hora que falo, tem hora que escuto. E é assim que se faz um diálogo.
O improviso da conversa me agrada muito. Uma conversa tem demandas específicas, não tem como você imaginar o que vai falar, porque as pessoas são subjetivas e têm suas próprias demandas, e a conversa chega em lugares que você não imagina. Educação em geral é isso. É contribuir em uma conversa para que cada um saia diferente, saia mudado, e, se possível, de um jeito melhor. Diariamente construímos essas relações. E isso é ensinamento.
Érica Burini: Eu não me vejo muito como arte educadora. É até uma coisa interessante você perguntar e colocar isso para a gente, porque não me vejo muito nesse lugar. Entendo que a própria curadoria tem uma vertente educativa muito forte, muito importante, que é da mediação mesmo com o público, né? Criar uma exposição que realmente converse com as pessoas, que tenha vias de entrada, que não seja uma coisa totalmente hermética. A própria tarefa de conversar com o público, apresentar a exposição… mas acredito nesse poder do fascínio também com os trabalhos, de acreditar que esse curto-circuito acontece na cabeça das pessoas quando elas conhecem um trabalho, descobrem pela primeira vez um trabalho que propõe algo que muda vidas. Por isso acho que a base do curso é a ideia de referência, de revisitar artistas atuais ou artistas mais velhos, propostas que aconteceram há mais tempo. Porque é um campo do fascínio, do encanto com a proposta, com essa elasticidade do que a arte é e do que ela pode ser, de alguma forma conseguir ampliar mais essa definição.
Então acredito muito nesse fascínio do contato com o trabalho, seja ele direto ou mesmo indireto: quando se conta a história sobre um trabalho de arte, quando se vê através do slide – pensando que o curso de acompanhamento que ofereço sempre foi online. Isso também amplia o público, os artistas. Conhecer artistas de todo o Brasil, isso sempre foi um valor. Sendo uma pessoa que não é de São Paulo, que é do interior e vem para cá, para mim o tempo todo tem uma importância de ampliar esse circuito, de não pensar só nos termos de São Paulo e nos termos de um circuito muito pequeno. A ideia toda do Ateliê 397 ser um espaço independente pressupõe a criação de um circuito independente, que terá os artistas independentes que não necessariamente vão estar circulando por galerias, meios comerciais ou mesmo institucionais – mais por um posicionamento político, por um não querer estar nesses espaços, não concordar com as suas políticas – mas querer estar independente. Acho que a própria função pedagógica e educativa do curso de acompanhamento também tem um pouco a ver com isso, uma vontade de criar um sistema independente de arte contemporânea.
Noah Mancini (1996 – Juiz de Fora, MG), é Bacharel Interdisciplinar em Artes e Design pela UFJF, MBA em Comunicação e Marketing pela Descomplica e Mestre em Cinema e Artes do Vídeo pela UNESPAR (Bolsista Fundação Araucária). Desenvolve seu trabalho entre texto, corpo e imagem.