Em primeiro lugar, a imagem negra entre fissuras. Além da abstração, ou da representação figurativa do corpo negro, que são continuamente produzidas por artistas negras/os, nas obras de Paty Wolff a presença negra está nos recortes e nas fissuras do papelão escavado com estilete. Está, ainda, na cor de barro das águas de um rio, em encantarias, em antigas simbologias, em imagens que transcendem os tempos e nos levam ao chamado do sociólogo Stuart Hall: ‘escavar’ a identidade cultural, artística, política e poética. Diante das violências coloniais e das políticas de morte persistentes no mundo contemporâneo, o trabalho abre, em fissuras e em seu movimento de invenção e reinvenção de práticas, as possibilidades infinitas da criação artística negra.

Nas obras de Wolff, a imagem negra é construída em marcos identitários, na figuração de tranças, penteados, búzios, olhos, nariz e lábios. Mas a presença negra está, acima e antes de tudo, na materialidade do papelão. Na fissura, na textura e nas camadas desse material tão comum e cotidiano, utilizado pela artista com muita sensibilidade, está a expressão da ancestralidade. Está a contra-estratégia da representação.

Emerson Caldas (1998) é cientista social e mestrando em Artes. Pesquisa na confluência entre Artes Visuais e Antropologia.
SERVIÇO
2ª Bienal das Amazônias
Centro Cultural Bienal das Amazônias
Rua Senador Manoel Barata, 400, Belém — PA
Até 30 de novembro de 2025
https://www.bienalamazonias.com.br/