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Retrato de Paty Wolff (2025) [Foto: Ana Dias]
Postado em 12/11/2025 - 10:54
Escavar a memória
Nas obras de Paty Wolff expostas na 2ª Bienal das Amazônias, outras possibilidades para pensar a imagem negra no mundo contemporâneo

Em primeiro lugar, a imagem negra entre fissuras. Além da abstração, ou da representação figurativa do corpo negro, que são continuamente produzidas por artistas negras/os, nas obras de Paty Wolff a presença negra está nos recortes e nas fissuras do papelão escavado com estilete. Está, ainda, na cor de barro das águas de um rio, em encantarias, em antigas simbologias, em imagens que transcendem os tempos e nos levam ao chamado do sociólogo Stuart Hall: ‘escavar’ a identidade cultural, artística, política e poética. Diante das violências coloniais e das políticas de morte persistentes no mundo contemporâneo, o trabalho abre, em fissuras e em seu movimento de invenção e reinvenção de práticas, as possibilidades infinitas da criação artística negra.

Série Raízes Provocam Fissuras (2023-2025), Paty Wolff [Foto: Ana Dias]
Na série Raízes Provocam Fissuras, exposta na 2ª Bienal das Amazônias, em Belém, Paty Wolff, artista natural de Cacoal, Rondônia, atua como uma arqueóloga. Em escavações que não são feitas na terra, seus desenhos curvilíneos criam corpos-papelão que revelam questões relacionadas ao corpo negro, imagem, espiritualidade, política e representação. São reinvenções, recriações e resgates de nossas práticas e modos de ser. Assim como é o pretuguês de Lélia Gonzalez, conceituação para falar da forma que a língua portuguesa no Brasil é africanizada. Ou o que o mestre quilombola Nego Bispo chama de “línguas enfeitiçadas”: faladas nas periferias, quebradas, baixadas do Brasil; as nossas gírias, os códigos para guardar segredos, construir estratégias de sobrevivência.

Nas obras de Wolff, a imagem negra é construída em marcos identitários, na figuração de tranças, penteados, búzios, olhos, nariz e lábios. Mas a presença negra está, acima e antes de tudo, na materialidade do papelão. Na fissura, na textura e nas camadas desse material tão comum e cotidiano, utilizado pela artista com muita sensibilidade, está a expressão da ancestralidade. Está a contra-estratégia da representação.

Série Raízes Provocam Fissuras (2023-2025), Paty Wolff [Foto: Ana Dias]

Emerson Caldas (1998) é cientista social e mestrando em Artes. Pesquisa na confluência entre Artes Visuais e Antropologia.

 

SERVIÇO
2ª Bienal das Amazônias
Centro Cultural Bienal das Amazônias
Rua Senador Manoel Barata, 400, Belém — PA
Até 30 de novembro de 2025
https://www.bienalamazonias.com.br/